viviane eneida machado
Nov 3 · 3 min read

todo retorno a qualquer mídia social é um pouco triste. tentei alimentar um médium no ano passado e ao longo da vida uma média de quatro tumblrs, um facebook, um instagram, dois perfis fakes no orkut, quatro twitters (ou twitteres? qual o plural de twitter, afinal?), além das redes sociais que ficaram perdidas nessa atmosfera de conteúdo e hoje já não lembro sequer a URL. o começo da internet na minha vida veio tardio, em relação aos meus contemporâneos, tudo porque meu pai sofria com uma espécie de paranóia, em relação a ideia da espionagem através dos computadores e celulares (hoje eu vejo que ele tinha razão desde 2001, #ProfetaDoWikiLeaks) e ter um computador durante muito tempo foi motivo de brigas familiares, grandes dramas e crises de privacidade.

continua sendo, na verdade.

todas as redes sociais que inseri meus dados (muitas vezes irresponsavelmente, reconheço) no fundo expressam um dos meus maiores desejos (oi Lacan), que é o de me comunicar; erro meu acreditar que no fundo isso era só uma fase de adolescente que quer falar sobre tudo, com todo mundo. a importância que sempre dei às palavras, textos, livros, as tentativas de manter uma rede social com frequentes exposições de produções minhas, tudo isso faz parte dos dilemas que ainda hoje permeiam tudo aquilo que eu tento dizer. recentemente lembrei um episódio em que, aos 9 anos, questionada sobre qual profissão gostaria de seguir eu, inocente, disse: quero ser narradora. como assim? narrar o que? (disse a professora)

narradora. queria ser a voz por trás das histórias e filmes, queria contar essas histórias. queria saber o que cada personagem estava de fato pensando, sentindo e vivendo e o mais importante queria poder fazer com os outros sentissem as coisas que eu sentia quando, por exemplo, Dom Quixote estava em sua busca por Dulcinéia.

alguns anos depois me vejo (ainda) nesse lugar da pessoa que assiste a vida cotidiana e da melhor forma que pode e consegue naquele momento cria narrativas baseadas em qualquer gesto, movimento, olhar que me faça sentir em palavras. as vezes os instantes são infinitos e as palavras ficam pequenas perto do tempo todo de silêncio que cabe num segundo de beleza. é nesse sentido que eu evito andar com cadernos por aí hoje em dia, ou passo boa parte dos momentos analisando as possibilidades de escrita do cotidiano. o que é bastante curioso uma vez que durante boa parte da infância e adolescência o meu grande refúgio sempre foi ter um bloco de notas onde eu pudesse ser, finalmente, quem eu gostaria de ser. o que nem sempre é visto como honestidade já foi chamado também de grosseria, mentira e absurdo. tudo aquilo que eu sinto. também percebo o apego infinito aos caderninhos que escolhia a dedo nas papelarias para depositar meus pensamentos, medos, raivas, angústias e sentimentos. nem sempre muito profundo, é verdade, mas a honestidade não precisa ser esteticamente agradável pra todo mundo. como naquele dia que escrevi “as meninas da minha sala são ridículas, feias, onde já se viu comer no banheiro?” (anotação do caderno de 2008) ou quando me peguei escrevendo repentinamente quão triste fiquei com o término de um relacionamento e usei as palavras “dilacerada por dentro e por fora, porque chorei na estação de metrô”, (caderno de 2014).

chorar também é uma exposição difícil. publicar meus pensamentos hoje parece menos impossível devido a tantas possibilidades de plataformas e como as telas nos blindam, é verdade. um pensamento me ocorreu hoje minutos antes da reativação desse microblog, gostaria de compartilhar porque diz muito sobre o que de fato significa estar aqui, novamente, sentada, escrevendo e pronta para lançar palavras à tal da blogosfera.

os retornos são sempre grandes momentos de euforia, animação e inspiração. então, dessa vez, sinto que preciso pensar em cada texto (postado ou não) como uma forma de regresso, revisitar, arrumar algumas coisas, ajustar uns quadros na parede da antiga casa e todas essas metáforas clichê para a terrível sensação de ter pendências na vida o tempo todo.

aviso, desde já, que as possibilidades de tornar constante esses movimentos de regresso são pequenas, mas o retorno de hoje, que tinha tudo para ser triste e solitário, devido ao reconhecimento do fracasso anterior, foi o mais leve que fiz em muito tempo.

    viviane eneida machado

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    tirando conclusões precipitadas sempre que possível

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