O que aprendi — e sigo aprendendo — com o feminismo

No primeiro ano da faculdade, numa aula de história estadunidense, a professora (queridíssima, Marise Loureiro) mostrou pra gente o famoso cartaz “We Can Do It”. Ela explicou como ele foi usado pra incentivar as mulheres a trabalharem fora, durante a guerra, uma vez que os homens estavam ocupados morrendo em batalhas.

Acho que essa foi a primeira vez que eu ouvi a palavra feminismo. Ou, pelo menos, foi a primeira vez que eu prestei atenção.

Depois disso, a coisa foi ladeira abaixo. Esbarrei nas fotos de #lingerieday da Carol Rocha, segui logo no twitter e dei de cara com aquele discurso de fazer brilhar o olho sobre liberdade da mulher pra vestir o que quiser. Pesquisei mais e cheguei a um certo vídeo em que ela concordava sobre a importância de ser uma mulher-de-atitude com a clara averbuck, que logo tratei de seguir também. Acontece que a Clara escrevia o Feminismo Pra Quê com a Nádia Lapa. Nádia, que também era a dona do falecido blog Cem homens Em Um Ano. Era tanta coisa de uma vez só que eu mal me aguentava. Me sentia A empoderada.

Não me levem a mal, eu vou ser sempre grata a essas mulheres maravilhosas que me introduziram ao feminismo. Sério. Tenho um carinho especial por elas, inclusive. Mas, depois de um certo tempo, aos poucos, eu fui percebendo que aquilo ali , aquele conteúdo que eu lia no twitter e nos blogs, era só a pontinha do iceberg. Que, apesar de ser ótimo — maravilhoso, a propósito — e muito necessário, sim, o famigerado feminismo de internet é… raso. Porque tem que ser. Porque é o que cabe num texto do Medium. É o que a gente tem paciência de ir escrevendo de 140 em 140 caracteres.

Além disso, o que vai ser mais compartilhado: um texto que fala sobre como o Lingerie Day representa a liberdade da mulher ou um que diz que “o domínio masculino sobre os corpos de mulheres, sexualmente e reprodutivamente, provê a base da supremacia masculina”?

Foi só quando eu comecei a ir mais fundo nas leituras que eu entendi que feminismo não era sobre ser uma mulher-de-atitude. Foi quando eu comecei a ler Feminism Is For Everybody, da Bell Hooks, que eu comecei a entender que a gente vive numa supremacia branca, capitalista e patriarcal que não vai cair porque umas centenas de mulheres se sentem livres o suficiente pra sair topless por aí na Marcha das Vadias. Foi quando eu li The Uses of Anger: Women Responding to Racism, da Audre Lorde, que eu entendi que uma mulher não pode ser livre enquanto todas não forem. Foi quando eu comecei a ler O Segundo Sexo, da Simone de Beauvoir, que eu entendi que o papel reprodutor, ou seja, a biologia, é chave pra exploração das mulheres como uma classe. Foi quando eu li Woman Hating, da Andrea Dworking, que eu entendi que o patriarcado acha jeitos cruéis de manter a mulher no seu lugar de submissão, através da história, mesmo que isso signifique tortura em massa e genocídio de mulheres. Foi quando eu comecei a ler trabalhos da Gail Dines e da Sheilla Jeffreys que eu entendi que a mídia que a gente tem hoje, debaixo dos nossos narizes, ajuda a perpetuar ideais de gênero com o objetivo muito bem estabelecido de, isso mesmo, manter a gente no nosso lugar.

Foi quando eu comecei a ir a encontros feministas, na vida real, que eu comecei a entender um pouco melhor sobre as ondas do feminismo e as contraondas que vieram pra derrubar as nossas conquistas. Foi só aí, trocando textos sobre história das mulheres com as meninas dos coletivos, que eu me toquei que, cara, eu tenho muito mais coisa pra ler e aprender do que eu sequer podia imaginar.

Se eu achava que tinha aprendido muito até agora, eu agora acho que ainda não aprendi nada.

A nossa história tá escondida, enterrada. O patriarcado não mede esforços pra vê-la de uma vez apagada. Eu só sei que eu to aqui, cavando, a cada dia percebendo que o buraco é mais embaixo. Pesquisando, lendo, aprendendo e entendendo que feminismo se faz com “academicismo”, sim, mesmo fora da academia.

Acima de tudo, eu to vendo com meus próprios olhos que feminismo se faz com mulheres, meninas, que lutam pra empoderar umas às outras. Mulheres e meninas que se juntam pra entender sua história pra que ela não se repita. Pra que a gente possa avançar, evoluir e, quem sabe, revolucionar.

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