Ciência: a órfã de pais vivos

Vlindermann
Sep 4, 2018 · 4 min read
Ciência nunca mais foi a mesma.

Olá vó, quanto tempo…

Faz cinco anos e meio que não a vejo. Sinto falta das tardes que você me contava piadas e eu fazia esculturas com a massa do pão.

Mas vó, infelizmente, não vim rememorar nostalgias (são tantas!) com a senhora.

Eu preciso desabafar uma história. Como o casamento dos meus pais, essa também não tem final feliz.

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Era uma criança bem pequena, um tanto curiosa demais para sua idade.

Chama-se Ciência.

Ciência era animadora, tinha ideias inusitadas, mas ela era órfã desde que se conhecia como gente. Mas, felizmente, ela era forte parecia não precisar muito do amparo que pais precisam dar. Ela falava tanto que era independente que, às vezes essa mentira se tornava realidade na cabeça dela.

A menina, desde pequenina, era sagaz, otimista e corajosa. Inventava tantos universos paralelos na cabeça dela que a chamavam de louca.

Só que seu lar, onde ela residia, era sombrio. Meio frio, sabe?

O orfanato era cheio de regras, tinha muita disciplina e apesar de toda animação dela, pagava o castigo de todos os seus irmãos, esses que riam dela e faziam bullying.

(Vó, pra você ter uma ideia)

Eles rasgavam seus livros, destruíam suas coisas e despedaçavam sua esperança de um dia melhor.

Mas nem tudo era tão triste…

Era o que ela pensava quando recebia visita de tios que nunca ouvira falar.

Traziam ambições para a menina, brinquedos novos que só chamavam mais atenção dos seus irmãos do orfanato.

Tudo que ela ganhava, tinha que esconder debaixo da cama e só olhar quando todos haviam apagado a luz, e mesmo assim havia alguns, um tanto ignorantes e alienados, irmãos que vinham estragar suas preciosidades.

A medida que Cíência crescia nesse ambiente hostil, sua chama infantil ia desvanecendo aos poucos. Seus ditos tios não a visitavam mais e as hostilidades sobre a menina dita “privilegiada” aumentaram demais.

Agarrava-se a um futuro melhor, lembrando do seu passado em seus livros, coleções de amiguinhos animais, plantas no meio de jornais.

(Vó, eu poderia parar por aqui, mas tenho que contar a história que se repete por anos na vida dessa menina sem voz.)

Sem voz, sem amparo, menina em claro, menina feroz.

Ciência era forte, por sorte.

No entanto era órfã, órfã de pais vivos.

Nunca os conhecera, mandavam presentes via correio. Declaravam amor sem ao menos deixar cheiro. Eram hipócritas, egoístas, imaturos. O pior de tudo, negligência era seu bilhete diário à menina.

Ela pedia um colo, um lar, onde cochilar e onde brincar. Eles davam chocolate, uma mesada que era roubada, blusa escarlate, uma caixa de jóias arrombada.

Mesmo com a mentira de que não precisava deles, você poderia encontrar Ciência limpando banheiros chorando, lavando o chão, as mãos e a esponja com lágrimas.

(Mas vó, você sabe muito bem que quem está no poço pode ir mais ainda.)

E assim aconteceu.

Era uma madrugada, Ciência estava pagando castigo por culpa de seus irmãos, quando um cheiro estranho de fumaça começa a invadir seu nariz.

De repente, o silêncio sofre metamorfose para gritos, correrias e…

…um alarme estridente.

Ela pára tudo, por um momento se toca do que estava acontecendo.

“A casa está pegando fogo”, ela já tinha visto isso, mais do que gostaria.

Corre e corre…

A menina Ciência saí em disparada para pegar seus pertences e vazar daquela casa.

Quando chega em seu quarto, a lambareada do fogo já tinha assumido monstruosidade tamanha, imbatível por qualquer menininha de sua idade.

No corredor suas amigas, Antropologia, Arqueologia, Zoologia, Geologia, Astronomia e História, choram de soluçar. Em meio a soluços e tropeços tentam apagar o fogo com suas cobertas, roupas, tudo o que poderiam usar.

“Peguem os extintores!” grita Ciência.

Mas esses já não funcionam mais.

No meio do caos desse fogo imbatível as memórias dessas crianças pegam fogo e seus corpos imponentes choram de se acabar.

Ciência chora, grita e esperneia mais do que quando fora trazida a esse mundo.

Chora por seus amigos livros, grita por suas coleções de bichinhos e esperneia porque nunca verá flores tão belas e simbólicas como àquelas que escondia entre papéis.

A menina animada, depois do evento, nunca mais fora a mesma.

………………

No dia seguinte, ouvia barbáries enormes.

Irmãos dizendo e sonhando com um novo quarto melhor, moderno e mais bonito (menos sincero).

Ademais, depois de que as cinzas de seus pertences estavam marcadas no rosto da Ciência, essa ainda não pára de chorar e lavar tudo o que sobrou dela.

Por fim, seus pais aparecem e falam a ela: “Pare de chorar menina! Deixa essa história pra lá, vamos te comprar coisas novas e comprar um quarto novo pra você vir morar.”

Mas nada, NADA iria se recuperar.

Toda a sua paixão e memória, sua alegria para aguentar aquela casa mórbida desapareceu no primeiro soluçar.

_________________

Essa menina precisa de colo, vó.

Não consegue andar mais sozinha. Chora todo dia no canto do corredor meio que sozinha. É isso que dá a negligência. E desse sentimento você está cansada já.

Só que vou te deixar descansar e nem vou mais te chamar. Mas só posso fazer isso porque ainda tenho memórias, seus pertences, carrego sua história.

Mas hoje 03/09/2018 já perdemos a nossa família inteira em um incêndio bem similar.

E foi assim que a nossa morada pegou fogo.

Queimaram tudo, vó! :(

E agora, mais do que nunca, choro porque sinto o que a Ciência sempre sentiu.

Negligência.

Vlindermann

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Pratico a arte da expressão pela música e escrita, porque ainda não encontrei palavras para descrever minhas sensações e sentimentos. - sLOVEnly words -

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