A obstinação de Anabela.

Você já viu esse vídeo?

Se já viu, vai querer ver de novo (pelo menos um minutinho). Se não viu, me responda: PELAMORDEDEUS, onde esteve nos últimos anos?

Viral clássico das internets do meu Brasil, essa pérola sempre aparece nessas listas de vídeos mais vistos que costumam sair todo ano. Na minha vida, Anabela de Malhadas surgiu há muito tempo. Numa conversa avulsa, dessas que a gente não lembra nem o tema, comentei com um amigo que achava Anabela um belo nome para minha futura (e hipotética) filha. Prontamente, o amigo apresentou-me o vídeo que destruiu meu sonho familiar em troca de gargalhadas eternas. Valeu a pena (:

Curiosamente, de tempos em tempos Anabela reaparece pra mim. Quando menos espero, ela brota na minha tl, algum amigo me envia o link por inbox ou, em meio à crises de nostalgia, minha (não tão boa) memória traz o vídeo que serve como relíquia de um tempo em que as coisas eram mais simples. Isso aconteceu novamente em janeiro desse ano, quando estive na casa dos meus pais com meu irmão. Ficamos horas lembrando (e assistindo) vídeos que se perderam em meio a rotina e, como esperado, nos deparamos com Anabela. Só que dessa vez foi diferente.

O vídeo é muito simples: trata-se de um programa de rádio português, legendado com uma pitada de humor, em que o narrador dirige uma gincana que consiste em acertar um número dentro de uma faixa pré-estipulada. Fácil, né? Não pra Anabela, rs.

A espectadora liga pra rádio e, antes mesmo do locutor apresentar os limites de tentativa, já começa sua aposta que, por acaso, está abaixo do mínimo. A partir daí, o programa se estende por prazerosos 4 minutos em que o locutor tenta fazer Anabela falar algum número que esteja dentro dos limites da gincana. No fim das contas Anabela consegue fazer sua aposta, mas não sem antes fazer umas 457 tentativas que não se encaixam, deixar o locutor esperando na linha enquanto atende a porta de sua casa (WTF?) e me gerar um questionamento sobre obstinação.

Em poucas palavras, obstinação é persistir incessantemente em alguma ideia. Sabe aquele cachorro que insiste em pular o portão quando você passa em frente da casa dele, mesmo não tendo altura pra isso? Ele é obstinado. Sabe aquela criança que faz escândalo no shopping por um brinquedo? Ela é obstinada. Sabe aquele cara que bate na sua porta todo domingo de manhã? Ele é obstinado. E a Anabela dá aula de obstinação.

Como pode um ser humano ser capaz de insistir repetidamente e com toda sua fé em uma série de números que não se enquadram na única regra que vale pro jogo? Serião, não é possível né. Mas é sim. E a gente faz igualzinho.

A gente vive insistindo em coisas que, com um pouquinho de mão na consciência, abriríamos mão. Perdemos tempo com ideias que não valem o esforço. Lutamos por causas que sabemos que, no fundo no fundo, não vão mudar o mundo. Buscamos sonhos vazios.

Sempre tem aquela voz que diz: tá pra mais de quatro e meio, Anabela. E a gente insiste em responder: três e alguma coisa.