Entenderás mais tarde
Em meados de 2016, meu avô paterno ficou internado por alguns dias no hospital. Acompanhei-o na primeira noite ali e, apesar de todas as situações engraçadas (e, de certa forma, embaraçosas) que passei, por conta da sua peculiarmente sincera de interagir com as pessoas, pude ouvi-lo dizendo algo que só fui entender, realmente, alguns meses depois — após o falecimento de sua esposa, minha avó.
Dizia ele, sentado na cama às 3 horas da madrugada (porque longe da sua cama ele não conseguiria dormir de qualquer forma), que já havia vivido demais. Trabalhado demais. Que tinha casado e criado os filhos, plantado e colhido muito, e que naquele momento só queria voltar para casa, comer seu bolo de aniversário com a Otília (porque não gostava de deixar ela sozinha em casa - meus tios estavam com ela mas não importava) e viver mais um ou dois anos, no máximo. Afinal, “para quê viver mais tanto tempo? Já vivi o suficiente”.
Meu avô não estudou por muito tempo, nem ao menos leu livros como os pensadores (ou “pensadores”) de hoje fazem, mas é dotado de uma compreensão acerca da vida, como um todo, que é capaz de fazer inveja à maior parte desses pseudo-filósofos de hoje. Não só por aquela frase como também por diversas outras, ditas ao longo dos últimos anos. Ele viu minha avó sofrer e ser destruída pelo Parkinson lentamente, porém, em nenhum momento perdeu a tranquilidade, deixou-se tomar pelo desespero ou murmurou. Ainda que esteja longe de ser o sujeito mais doce e educado que já habitou nessa terra, lidou de forma digna e paciente com tudo o que aconteceu nos últimos anos.
Embora tenha chorado muito quando, ainda criança, tomei ciência do falecimento de meu padrinho, e da mesma forma tenha ficado muito triste com o falecimento de minha avó materna e de um bom amigo, foi a morte de minha avó paterna, há quase três anos, que abriu definitivamente meus olhos, e meu entendimento, para a finitude da vida humana. É provável que todos passem por isso em algum momento. Perdemos, com alguma frequência, parentes e amigos, para acidentes, crimes e doenças, mas nem sempre conseguimos lidar com isso da melhor maneira. Em algum momento, a morte de uma pessoa, nem sempre tão próxima, faz com que o ato de repensar a própria vida passe do campo da mera abstração motivacional para entrar, de forma vigorosa, na realidade. Deixamos de ser, nesse momento, donos de um futuro infinito para assumir nossa mortalidade — como toda imprevisibilidade e incertezas que lhe pontuam.
Um parênteses. Para a maior parte das pessoas, atualmente, a morte passou a ser sinônimo do Mal. Algo cuja existência deve ser ignorada até que seja impossível fazê-lo. Foge-se da morte, como e todo e qualquer sofrimento, com covardia e indiferença. O medo do confronto com aquilo que define a finitude da própria existência vem sendo disfarçado com dissimuladas e esfarrapadas desculpas, vazias de significado e cheias de egoísmo. A pessoa que não lida com a própria mortalidade, que não a encara como uma realidade imediata (afinal, o que são alguns anos, se o forem, comparados com a eternidade?), é incapaz de compreender a plenitude da própria existência — pois essa só pode ter sentido real se for transitória.
De qualquer forma, meses depois, perguntei a meu avô como era estar sozinho, sem minha avó, depois de tantos anos. Ele suspirou profundamente, olhou para a estrada da qual, outrora, surgiam nuvens de poeira que sujavam as calçadas recém limpas por sua esposa e, com a tranquilidade que lhe é habitual, disse:
“Acostuma. Depois de um tempo você acostuma. Sente falta da pessoa mas não pode fazer nada”.
Apesar de ter morado em outra cidade por seis anos, as visitas frequentes fizeram com que os efeitos da doença sobre minha vó fossem, para mim (um desatento por natureza) um tanto imperceptíveis. Ao longo desses anos, fui perdendo boa parte das memórias visuais que dela tenho e, feliz ou infelizmente — só Deus sabe — boa parte das imagens das quais recordo são dela já em declínio físico e mental. A mulher de cabelos brancos e passos curtos que me levava para a missa no domingo de manhã, que me chamava aos gritos para comer pão com queijo e salame no meio da tarde, e que afirmava que eu não cresceria muito por ter canelas curtas (ou finas, não lembro ao certo), deu lugar para aquela que foi perdendo a capacidade de conversar, de caminhar, de comer sozinha, e que, depois de certo ponto, já nem lembrava de mim.
“ Um dia, no fim da nossa vida, o Senhor explicar-nos-á em pormenor o porquê de tantas coisas que agora não entendemos, e veremos a sua mão providente em tudo, até nas coisas mais insignificantes.”¹
Longe de ser um exemplo de neto (ou filho, ou irmão, ou amigo — reconheço que não desenvolvi a capacidade de colocar-me no lugar dos outros), tentei estar por perto o quanto foi possível mesmo que isso significasse apenas ficar sentado no sofá em frente e trocando meia dúzia de frases espaçadas por longos períodos de silêncio. É muito óbvio que hoje seria diferente. Ou talvez não, porque sem essa experiência não seria capaz de compreender (ainda que um tanto superficialmente) tanto a deterioração da pessoa quanto a sua finitude. Ver uma pessoa próxima combalindo, de forma lenta e impiedosa, foi um golpe duro e forte ao ponto de quebrar vaga noção, prepotente e vaidosa, de que era possível evitar o fim. Quando criança, quase surtava ao pensar no que aconteceria se morresse. O que faria? Para onde iria? Como? Trariam-me de volta? Por quê eu?
Crianças.
Cerca de um ano depois da morte de minha avó, participei de um retiro onde uma das meditações trazia a morte como ponto central. Memento mori, que está escrito na camiseta que vesti hoje (da mesma forma que o fiz nos últimos dois de Novembro), veio para solidificar aquela imensidão de impressões e pensamentos que começaram a tomar forma tempos antes, naquela madrugada, quase infinita, no hospital. A fuga de tudo o que diz respeito à morte leva-nos a um desperdício constante e irresponsável de tempo — cuja quantidade é incerta e sempre o será. Fixando os olhos no término dessa existência finita, o hoje ganha uma importância ainda maior do que aparentemente possui, e não há clichê, em idioma algum, que seja capaz de defini-la melhor do que o memento mori.
Lembrar da morte, pensar na morte, lembrar-se da própria mortalidade. São incontáveis os desconhecidos, incompreensíveis e aleatórios em nossa vida. Transformar a morte em mais um deles, com vaidade e em um grau de abstração muitas vezes patético, produz insegurança, ansiedade e medo. Embora nem sempre seja perceptível, em algum momento não será mais possível ignorá-los com indiferença ou fugir deles com distrações.
Depois de perceber o sofrimento, visível em lamentos, movimentos e gemidos, e o que é invisível, silencioso e resignado, veio o entendimento da importância do memento mori, da insensatez carregada pelo medo do fim e da urgência na construção de algo que possibilite a vivência do Eterno com o Eterno. A saudade que hoje espremeu-me interiormente, e que quase levou-me às lágrimas várias e várias vezes, não traz medo ou inconformismo.
Ao contrário, traz consigo esperança e um desejo, cada vez mais real, de ser alguém que possa receber um sopro da Misericórdia quando o “sempre há tempo” transformar-se em “o tempo acabou”.
“Já viste, numa tarde de Outono, cair as folhas mortas? Assim caem todos os dias as almas na eternidade. Um dia, a folha caída serás tu.”²
¹ Falar com Deus, 60
² Caminho, 736
