A Volta para Casa

Há algum tempo, pouco antes da volta às aulas na faculdade, voltava de um karaokê com amigos, em meio à estação Consolação do Metrô, mais uma movimentada noite de Sexta-feira: uma centena de pessoas indo e vindo, alguns voltando de festas, com os olhos já cansados e o andar lento; outros apenas contando os minutos para a primeira parada da noite, um ‘esquenta’ em algum barzinho da região seguido de horas em alguma balada, até que o alvorecer do sábado carregasse esses filhos da noite de volta para casa.
Foi ali que me ocorreu uma memória. Uma memória de quando eu tinha meus 11, 12 anos — sei que não faz tanto tempo assim, mas esse tempo passa — e ir à Av. Paulista com minha mãe nos fins de semana era um de meus programas favoritos. Entrar no carro, tomar o metrô, e deixar o conforto suburbano do ABC Paulista para desbravar as ruas, ou melhor, as veias e artérias da capital, e em especial, trafegar naquela emblemática avenida que é sua artéria aorta (ou seria veia cava? Anatomia nunca foi meu forte).
Lembro-me claramente de ficar maravilhado com tudo que via: prédios (incluindo o 900), lojas, cinemas, carros e cartazes. Mas em particular, eu me lembro de ficar encantado — ou espantado positivamente, se preferir — com as pessoas que ocupavam a avenida durante os fins de semana, desfilando em suas calçadas. Eram pessoas totalmente diferentes daquilo que eu considerava na época ‘comum’, eram pessoas que se vestiam como personagens de filmes e gibis, pessoas que conversavam sobre os mais esotéricos tópicos imagináveis, e eu, incrédulo por estar ali no meio, absorvia tudo aquilo.
Me sentia diferente caminhando em meio àquela ‘fauna’, como minha mãe dizia, e isso foi algo poderoso na minha mente de 11 anos: a ideia de que eu poderia ser livremente estranho junto a outras pessoas estranhas, a louca ideia de não precisar me conformar dentro do padrão tradicional. Aquelas eram pessoas que viviam em mundos diferentes do meu naquela época, mundos pelos quais eu queria transitar, e a Paulista parecia ser a grande via que conectava todos esses mundos, além de todos os outros universos de São Paulo.
Foi engraçado então, quando, alguns anos depois, me vi pegando o trem da manhã e descobrindo a Paulista do horário comercial, a Paulista trabalhadora, de terno alinhado e de celular em punho. O andar da Avenida é diferente durante a manhã: decidido, marcial, alimentado pelos ambulantes que oferecem bolo e café aos transeuntes. A Paulista, assim como seus ocupantes, tem dois lados: um cinza, profissional, focado, durante a semana; outro, aos fins de semana, é livre, artístico e empoderado.
E lá estava eu, em uma noite paulistana, em uma das principais estações de uma das principais avenidas da cidade, e eu senti que pertencia àquele lugar, àquele mundo, e me lembrei da minha versão de 11 anos, que tanto desejava ser parte de tudo aquilo, parte daquela fauna. Chegara onde queria, um trem havia me trazido, e eu já não podia mais voltar: eu sou um estranho que encontrou seu ninho.