Chega de transtornos
Sim, sim, o titulo é uma referência intertextual que em pouco mais de uma semana, já cansou qualquer pessoa que passe mais de algumas horas diárias na Internet. Me perdoe, mas agora eu já comecei.
Não se preocupe, as próximas linhas não serão uma paródia do texto do Gregório, como fez Rafinha Bastos — até melhor que o autor original, em minha opinião — na verdade, gostaria de falar um pouco sobre a falha ideia do amor cortês, do amor vintage, que muitos ainda parecer ter em mente como o amor ‘verdadeiro’, o amor inspirador.
Para os seguidores dessa linha, as últimas semanas não foram fáceis: o casal que por mais de 25 anos marcou os corações de telespectadores, além de mantê-los informados, se desfez, em meio à expulsão de Eduardo Cunha da política brasileira (já era hora), William e Fátima anunciaram já não são mais um casal. Há dois dias, o mundo acordou em choque, não porque Donald Trump continua a crescer vertiginosamente nas pesquisas de intenção de voto americanas, colocando o mundo nas mãos de um maníaco cor de jet-bronze, mas porquê Angelina Jolie pediu divórcio de seu companheiro de 12 anos, Brad Pitt.
E para fazer uma última citação, entre esses dois eventos catastróficos, a declaração de amor que, ainda que estranha e polêmica, poderia ter salvo as esperanças dos últimos românticos acabou afogada em um sofrível esquema de marketing para um filme que não merecia tanto alarde; falo, é claro, da carta à Clarice. As redes sociais ainda estão cheias de tweets, posts e memes tratando desse assunto, que alguns já chamam de ‘a morte do amor verdadeiro’, enquanto choram — “se eles se separaram, como é que eu vou acreditar no amor? “.
Mas o que é esse tal amor verdadeiro de que tanto se fala? É aquele amor dos nossos avós, que se casaram aos 20 e poucos anos e tiveram um relacionamento de décadas? Sinto lhes informar que em muitos desses casos, o casamento era arranjado e o relacionamento só durou porque as normas sociais da época não eram favoráveis aos ‘desquites’ e os noivos acabavam por se tornarem amigos ou apenas se suportarem através da convivência. Não sei se isso é o amor que todos procuram. Seria então o amor de Romeu e Julieta? Um amor puro e absoluto, que queima por dentro e nos toma por inteiro. Sim, deve ser isso. Leandro Karnal nos lembra — sendo bem citado também por Amanda Veloso no HuffPost Brasil — que o relacionamento proibido dura um total de cinco dias: os dois se conhecem no domingo à noite e morrem juntos na quinta-feira de manhã. Não, acho que também não é isso.
Não adianta chorar: a vida é imperfeita, as pessoas se separam, e se for para melhor, é bom que continuem amigavelmente separadas. A ideia de que um relacionamento nos dá posse do companheiro em algum nível é puro nonsense em um mundo que discute empoderamento das minorias e liberação sexual abertamente. Somos todas pessoas independentes, estando em relacionamentos ou não. Em tempos de modernidade líquida, de distanciamento nas relações, as novas gerações apegam-se à menor possibilidade de intimidade e companheirismo como uma droga. Somos viciados em contato pessoal e é triste ver que em vários casos, assim como acontece com o crack e a heroína, algumas pessoas vão tão fundo em seu vício que não conseguem abandoná-lo mesmo que esse vício esteja machucando-os clara e profundamente.
Longe de mim também escrever um manifesto ao som de “Não Existe Amor em SP”, do Criolo: existe sim a possibilidade de encontrar um relacionamento incrível com a pessoa (ou pessoas, não sejamos moralistas demais) certa. O erro está em pensar que sua vida será como um livro de banca de jornal ou uma adaptação cinematográfica de best-seller. Sou estudante de Rádio, TV e Internet e posso te dizer com todas as letras que isso não acontece, por mais que gostaríamos.
Chega de parar o país ou o mundo porque as pessoas se separaram: é um fato da vida que as pessoas mudam, se afastam, e não há nada que possamos fazer sobre isso, então aceitemos e sigamos em frente, pois há assuntos muito mais importantes para se tratar agora do que a vida pessoal de casais (ou ex-casais) públicos. Chega de transtornos.