Nós só nos encontramos em corridas e funerais.

VMDL
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Jun 24 · 6 min read
Foto: Doug Oliveira

A praça de bolso do ciclista, em Curitiba, na última sexta-feira, dia 21, estava cheia. Por volta das 18h começavam a se aglomerar quase uma centena de cilistas, entusiastas, militantes e apoiadores e apoiadoras de um trânsito mais seguro. Embora um certo clima de confraternização entre participantes que, no corre-corre da cidade grande, só se encontram em eventos cilísticos, o motivo do encontro estava longe de ser uma celebração. Estávamos todos/as reunidas ali para pendurar mais uma ghost bike, dessa vez em homenagem ao amigo, filho, ciclista, mecânico de bikes, músico, Lucas Gabriel Ferreira da Silva, mais conhecido como Lucas Shmurda.

A fatalidade aconteceu na Quinta-feira, dia 13/06. Lucas pedalava pela canaleta sentido centenário, quando na altura do Cristo-Rei, ao desviar de uma ambulância foi surpreendido por um ônibus biarticulado que o acertou de frente. Morreu na hora. Lucas tinha apenas 23 anos. Os jornais lamentavam o trânsito parado, Lucas morreu na contra-mão.

Foto: Diego Cagnato

Na sexta-feira da semana seguinte, dia 21/06, após confeccionarem uma ghost bike, amigos e amigas da vítima convocaram uma manifestação para que sua morte não fosse em vão. A ghost bike, uma bicicleta compeltamente pintada de branco, é uma forma de ciclistas chamarem a atenção para a violência no trânsito. Um lembrete silencioso que ali já morreu uma pessoa, com sonhos, medos e futuro, como você que me lê agora. Mas também um pedido visual: pare de nos matar!

Foto: Doug Oliveira

Após 1h de concentração na praça para que todos e todas pudessem chegar, balões brancos foram distribuídos entre os participantes e, às 19h, a marcha começou seu caminho. Um ciclista levava a bicicleta branca em suas costas, e os demais se revezavam entre segurar o trânsito nos cruzamentos para que todas as bicicletas passassem em segurança, e puxar gritos de protesto. Aos sons de “SHMURDA VIVE” e “Mais amor, menos motor”, nos cruzamentos era gritado pelos e pelas participantes “Oh motorista, é só esperar! A sua pressa é capaz de nos matar!”. A pedalada em homenagem à Lucas Shmurda seguiu, pela rua, até a prefeitura na Av. Cândido de Abreu, fechando todos os espaços destinados aos carros. Os participantes falavam sério ao cantar que era apenas o motorista esperar. Vocês perdem quinze minutos, nós perdemos um companheiro. A pedalada seguiu de volta à Av. Sete de Setembro, desviando pela Rua Inácio Lustosa, subindo pela Trajano Reis (rua de bares bastante conhecida em Curitiba e com fluxo de movimento maior aos finais de semana) e descendo pela Rua Treze de Maio até a Rua Tibagi. Com exceção de poucos motoboys, que na pressa de realizar a entrega conseguiam furar o bloqueio, a manifestação teve bastante apoio daqueles e daquelas que a viam passar. Uns vibravam, outros batiam palma, infelizmente durante essa pedalada tínhamos pouco o que comemorar.

Foto: Doug Oliveira

Em alguns momentos era perceptível o motivo de estarmos reunidos, havia um silêncio sepulcral entre os/as participantes até alguém romper o silencio com “SHMURDAAAAA!” e prontamente respondido pelos e pelas demais com “VIVE!”. Foram lembrados também os nomes de Joshua (Joshua Madureira Lehr, 20 anos), Malf (Marcelo Bertoli dos Santos, 25 anos) e Raul (Raul Aragão, 23 anos), com exceção do último, morto em Brasília, todos ciclistas atropelados em Curitiba. Nomes que foram prontamente respondidos pelos/as participantes da marcha com o grito de “VIVE!”.

Chegado ao local de morte de Lucas, os manifestantes fecharam a canaleta. Foi o único momento em que pedalou-se na canaleta durante todo o percurso. Começamos a logística de pendurar a homenagem ao amigo morto. Foram necessárias uma escada e três pessoas uma sobre a outra para pendurar a bicicleta branca em um local visível, para que nunca nos esqueçamos: uma pessoa morreu aqui. A bicicleta foi colocada aos gritos de “Oh motorista, é só esperar…” e “SHMURDA VIVE!”. Embora a impaciência de alguns motoristas pressionados pelos passageiros ansiosos para chegar em casa, a polícia apareceu, e após díalogo com alguns manifestantes respeitaram a instalação da bicicleta branca.

Foto: Doug Oliveira

Maíra Kaline, uma das organizadoras do protesto pediu “fiquemos mais juntos e nos cuidemos”. Em seguida, Luísa Oliver Lima, mãe de Lucas, falou. Todos/as fizeram silêncio pra ouvir uma mãe despedaçada pela morte do filho agradecer a manifestação e dividir um pouco da sua dor quando descobriu que o filho havia falecido. Pediu que a morte do filho não tenha sido em vão e que sua memória fosse sempre lembrada. Após a fala de Dona Luísa foi feita a oração de Santo Anjo e um minuto de silêncio. Silêncio quebrado apenas pelos choramingos, fungadas e sussurros que acompanhavam abraços dizendo “se cuide” ou “resistiremos”.

Um dos manifestantes dividiu com Dona Luísa seu pesar, “Embora não conhecesse pessoalmente o Lucas, sua morte me impactou pessoalmente. Senti como se fosse um irmão que tivesse partido”. Algumas pessoas foram prestar condolências à Dona Luísa, mãe de Shmurda. Desejos de força e abraços se confundiam em meio aos choros dos presentes. Abraços que tentavam, ainda que em vão, acalentar uma mãe que nunca mais voltará a abraçar seu filho. Em seguida a manifestação voltou à praça de bolso do ciclista, onde foi oficialmente encerrada.

Foto: Doug oliveira

Não somos estatística! Somos filhos, irmãos, amigos, estudantes, mêcanicos, professores,etc. Somos pessoas e a sua pressa não pode ser mais importante que uma vida. O ritmo frenético das cidades e o sistema ecônomico que o obriga a estar 100% ativos sob o risco de morrer de fome nos aliena de nossa humanidade. Dos motoboys que furavam o bloqueio imposto pela manifestação a desculpa era sempre a mesma “tenho horário”. Assim como o motorista do biarticulado que atropelou Lucas, a pressão de chegar no horário sob o risco de repreessão no trabalho, a vida humana é desvalorizada. Lucas também tinha horários, era mecânico de bikes e estudava a noite para concluir seus estudos. Ia de bike, dentre inúmeras razões, para conseguir chegar a tempo em seus afazeres e tentar chegar em casa salvo. Há quase dois anos atrás, no dia 27/06/2017, Lucas postava em sua rede social “saímos de casa sem saber se vamos voltar”. Dessa vez Lucas não voltou.

Muito se fala sobre a volta do prazer de dirigir e uma fantasiosa indústria da multa. Fala-se sobre aumentar os pontos na CNH e o fim de testes toxicológicos para aqueles que trabalham dirigindo. Diz-se que os trabalhadores e trabalhadoras de veículos automotores estão mais sujeitos à multa por rodarem o dia todo com seus carros e motos, entretanto, como profissionais, deveriam ser o exemplo em conduzir sua ferramenta de trabalho. É preciso lembrar que o veículo automotor é também uma arma. Assim como uma faca, que se manuseada de forma adequada consegue facilitar a nossa vida, ela também pode ser usada para matar. É preciso, ainda que soe repetitivo, lembrar que entre um monstro de 10t de aço e uma pessoa de 75kg, é uma vida que será perdida. Lembrar que alguns segundos que se espera para fazer a ultrapassagem que preze pela segurança do ciclista, podem valer o resto da vida sem nosso amigo.

Lucas Shmurda, você era gigante! O levaremos sempre conosco em nossas pedaladas e revindicações por um trânsito seguro.

SHMURDA VIVE!
JOSHUA VIVE!
RAUL VIVE!
MALF VIVE!

JOÃO BASSO VIVE!
CARLA RAFAELA VIVE!
GUILHERME DIEGO VIVE!

RESISTIREMOS!

Roberto Lagarto, contribuiram Maíra Kaline e Gabriele Lepca.

Veja todas as fotos em www.cicloativismo.com

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