Para onde quer que você vá em Dublin, há uma Carrolls. Foi uma das primeiras coisas que percebi por aqui. A Carrolls é uma franquia de lembrancinhas. Casaco, cueca, camisinha, eles têm de tudo.

Presença impressionante também é a das lojas de produtos brasileiros. Se você sente falta de um brigadeiro, vá ao “brasileiro” comprar um creme de leite. Bono de doce de leite. Picanha. Tapioca. Tem.

O mais assombroso, porém, é o cliente dessa loja. Ele só compra no brasileiro. Ele diz aos quatro ventos que não há biscoitos, doces, carnes como as do Brasil. Ele também só vai ao Australiano e à Dicey’s. O público nesses pubs é brasileiro. O que diabos essas pessoas querem em Dublin? Falar português e comer bono com guaraná?

A maioria não quer experimentar um intercâmbio. Vai às aulas de inglês e passa as horas no celular ou ignorando tudo o que lhe é apresentado. O típico brasileiro em Dublin quer morar com compatriotas. Gosta de contar vantagem por ter ludibriado o motorista do ônibus, que é também o cobrador. Ele só vem para a Irlanda para dizer que está morando fora e que não volta para o Brasil “de jeito nenhum”. Mas ele não gosta de Dublin.

Muitos são novos, não passam dos 25. Esses moravam com os pais (veja bem, não é uma crítica a quem mora com os pais, todos sabemos como é difícil sair de casa em Brasília e em outras cidades) e queriam uma chance para chegar tarde em casa e não dar satisfações. Para fumar o primeiro joint. Para deixar a louça suja e não se importar se outras oito pessoas moram na mesma casa.

O brasileiro em Dublin chega e encontra um país normal. Com roubos, com asfalto esburacado, com viciados em heroína pedindo dinheiro na rua. E ele grava vídeos sugerindo aos amigos que não venham. Mas ele não vai embora. Ele renova o visto e não vai para as aulas. Ele trabalha limpando privadas e vai para o pub depois. Todos os dias. Encontra outros brasileiros e treina o português.

O brasileiro em Dublin rouba outros brasileiros. É o mesmo que se diz um cidadão de bem. Ele vê uma mochila entreaberta e puxa uma carteira. Ele subloca um apartamento e extorque outros brasileiros. E sai pelas ruas do centro berrando, em português, que está “na correria”. Fora a homofobia gritante, em um país que pendura nos postes públicos bandeiras com as cores do arco-íris.

Conheci, sim, pessoas que valham a pena. Brasileiros que sabem o que estão fazendo. Vivenciam a cultura irlandesa. Falam em inglês na presença de quem não entende português. Respeitam a parada gay. Saem do circuito loja brasileira-Australiano-Dicey’s.

Os bolsominions estão por todas as partes do mundo.

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