A conta não fecha no veganismo de mercado.

Recusar alimentar-se de animais sempre esteve atrelado à um sentimento de transformação, seja ele político, ético ou espiritual. Por mais que a descoberta de conveniências, como um bom restaurante perto de casa ou um novo prato vegano seja excitante, isso nunca foi e nem será um fator determinante para qualquer pessoa carregar consigo uma decisão tão profunda para a vida. Dizer o contrário disso seria, no mínimo, subestimar e desacreditar sobre nossa própria capacidade intelectual. Adotar o veganismo — não falamos de uma dieta, mas de posicionamento ativo diante da exploração animal — traz, além da mudança interna de cada pessoa, impactos políticos e sociais. Porém, a vontade deliberada em esvaziar o teor transformador surge para inserir o termo em associação a produtos, ou apenas algo que se venda. Isso eu chamo “veganismo de mercado” e é uma tendência que, sustentada pelo modelo hegemônico de consumo, aparece cada vez mais em evidência.

Nesse texto vou expor brevemente os problemas desse caminho que isola a luta vegana em nome de supostos avanços para benefícios dos animais ao responder alguns argumentos genéricos usados para atacar o veganismo entendido como transformador radical ou, simplesmente, o veganismo político/interseccional. Obviamente esse texto não é “antivegano”, pelo contrário: a discussão é para estruturar nossa consciência, aprofundar os nossos desafios e dar combustível e força para que se combata o especismo desde sua raiz.


“No mundo todo o veganismo é assim, não se boicotam marcas, mas apenas os produtos não veganos. O seu boicote não serve de nada”.

Não é raro escutar essa argumentação quando acompanhamos discussões sobre novos produtos veganos de grandes marcas e é justamente por aí que percebe-se muito do que vem acontecendo dentro do movimento. Primeiro, e indo direto ao ponto, é importante dizer que essa visão é bastante simplista pois ignora — além da própria história do vegetarianismo — que existem grupos e correntes de pensamento ligados ao veganismo onde inserem o mesmo num espectro político dos quais se buscam mudanças. Quando digo mudanças, falo da essência da libertação animal, onde mesmo que o foco mantenha-se sobre os animais não-humanos, reconhece que as outras opressões ligadas à humanos, também devem ser combatidas e, portanto, incorporadas ao pensamento vegano, ou vice-versa. Essa conexão estende-se para além do boicote, onde esse seria somente uma ferramenta para pressionar por maiores mudanças. O “mundo todo” citado nesse caso é reduzido a Europa e Eua, o que já não é verdade, pois também há tendências em pensar veganismo além do consumo fora do Brasil, obviamente. Também devemos dizer que ao usar comparação em uma argumentação, deve-se usar o ideal como algo que seja melhor, sem fáceis contestações. Seria extremamente relativo dizer que o Brasil tem menos condições que outros lugares do mundo para que os seus habitantes mantenham-se numa dieta vegana ou que a tática adotada fora teria trazido resultados extraordinários.
 
Para deixarmos mais completo o panorama da argumentação, soma-se a isso algo muito comum:

“Se você não comprar os produtos veganos das grandes corporações, ele vai ficar parado nas prateleiras e então as empresas vão substituir por outros de origem animal”.

O que se diz nas entrelinhas da afirmação é que deveríamos acreditar que a ideia de regulação própria do mercado seria o grande fator de mudança e ele está nas mãos do nosso “poder de consumo”. Quer dizer, as empresas e governos podem tomar decisões que afetam a vida de todos, podem escravizar animais, humanos ou não, podem tomar os recursos naturais do planeta como desejarem — o que ocorre normalmente em conluio entre as partes — podem minar e destruir inclusive nossas condições econômicas pessoais; mas bastaria a nós, consumidores, fazermos uma escolha correta sobre o que vamos comprar para mudar a realidade.

Esse tipo de afirmação leva a uma forte contradição de quem o propaga quando por um lado é dito que o seu boicote não serve de nada, mas por outro são as suas escolhas que regulam o mercado a favor ou contra produtos que contenham exploração animal. Mesmo que o boicote seja proferido nesse caso como algo apenas individual — e devemos sempre lembrar que o boicote tem várias camadas de atuação e não deve terminar limitado ao consumo próprio — temos a diferentes valores para a mesma medida. E mais uma vez afirma-se que é o indivíduo que tem todo o poder na mão. Logo, pergunta-se, não há poder nenhum se você então usar o teu dinheiro em uma forma de economia que possa fugir desse padrão de grandes supermercados e grandes corporações? O que está sendo dito é que você apenas teria importância como consumidor do que é hegemônico no mercado, mas enquanto sujeito que possa verdadeiramente transformar o modo como o capitalismo se impõe, aí você seria nulo, de nada adiantaria seu boicote. Tirando de lado a falta de nexo ao resultado do argumento, isso vai demonstrar o caráter conservador político/econômico vinculado. Falaremos disso logo mais.


A visão de que um problema — a exploração animal — se resolveria dessa forma, incentivando e comprando de grandes empresas produtos que não contenham substâncias de origem animal, num mundo onde capitalismo é grandiosamente globalizado, não supõe a própria existência do capitalismo, ou da forma como o mesmo funciona em sua expansão infinita ou transferência de mercados. Imaginemos que todas as pessoas do seu bairro não comem produtos animais, porém todas investem suas economias nos produtos da marca ‘X’, que também produz alimentos de origem animal. O que aconteceria senão a empresa transferir um montante de investimento, obtido com o lucro no seu bairro, em propaganda e/ou promoções para os produtos animais da marca ao bairro vizinho para não perder qualquer margem dos seus lucros e manter-se em ambos os mercados? É o que vem acontecendo, com certa similaridade, em escalas gigantescas ao redor do mundo e, no nosso caso específico, há algumas implicações a mais.

Para entender isso, vamos usar dois exemplos e perceber como eles se amarram: A Alemanha, nos últimos anos, diminuiu consideravelmente o consumo de leite animal entre seus cidadãos e, ao mesmo tempo, aumentou muito sua produção de leite animal para exportação. No caso alemão, houveram grandes campanhas publicitárias na China — alegando ligação entre leite animal e crescimento/força das pessoas — para poder escoar a produção até lá. O Brasil tem registrado aumento nos adeptos do vegetarianismo e, ao mesmo tempo, o país bate recordes em exportar carne e grãos de monocultura para se tornarem ração e aprimorar métodos de criação animal em outros lugares. Esses dois exemplos possuem uma característica oculta em comum: ambos são subsidiados pelos seus governos para poderem manter-se competitivos globalmente e ambos estão sujeitos a acordos comerciais de portas fechadas, distantes de nós. Isso significa que os impostos de todos os cidadãos são realocados para essa produção.

Se focarmos no Brasil e perguntarmos porquê, precisamos levar em conta como se configura a distribuição de terra no país, quem são os produtores exportadores, como conseguiram historicamente as terras, qual a capacidade e o poder de negociação nos rumos políticos e, sobretudo, também qual a mentalidade envolvida sobre o meio ambiente e sobre a vida animal dentro desses grupos. Essas seriam perguntas básicas para entendermos que, imaginar menos impactos na exploração animal, precisaríamos muito mais do que ser apenas “bons consumidores” e sim questionarmos a estrutura que mantém a configuração atual onde a produção mantém-se altamente lucrativa e próspera justamente por conta da macroeconomia brasileira ser atrelada ao agronegócio, obtendo assim seus efeitos políticos fixados num ciclo propagandista e cultural para manter o holocausto animal, ou os lucros.


Mas então, apenas comprar? Vamos mais fundo nisso.

Uma tendência que se espalha e vemos a fonte em algumas ONG’s profissionais do veganismo e em algumas figuras consideradas influentes na internet é essa grande alusão a compra e ao poder de consumir quando é comemorado com entusiasmo que grandes empresas, inclusive empresas que testam em animais em outros setores da produção, vendam produtos “veganos”. A justificativa é a suposta competitividade no preço e a grande distribuição que essas tem para chegar a todo mundo, incluindo consumidores não veganos. O produto estando na prateleira de supermercados vende, se ele não existir, não vende. Pior, se ele não existir, as mesmas empresas terão outros produtos não veganos no local. Essa é a fé baseada no mercado em que visões chamadas “pragmáticas” ou “veganismo estratégico” falam.

Já falamos sobre o cálculo exposto ser irreal ao ignorar questões maiores da economia mundial, mas sobretudo, um ponto importante da defesa dessa lógica é justamente a aposta nas escolhas individuais, o estilo de vida, e não lutas que procuram ter ganhos coletivos. Por isso mesmo, essa questão não é apenas uma questão de cálculo matemático num campo neutro, mas de ideologia liberal.


O pensamento liberal. Estou repetindo esse termo porque é dele a ideia que parte todos esses argumentos que me propus a discutir de forma crítica. O liberalismo é uma corrente de pensamento que venceu outras e se estabeleceu na maior parte do planeta, mas não significa que não sofreu ou que sofra influências de correntes socialistas ou ainda traços de pensamentos religiosos na forma de encarar a vida em sociedade. A questão é que o liberalismo é o que temos como stablishment onde o foco está na propriedade privada e nas liberdades individuais, o que inclui obviamente, a liberdade de compra. Eu não vou entrar ainda no mérito de discutir essa liberdade, atrelada inevitavelmente nesse modelo a situação financeira dos cidadãos. O que estou focando aqui é sobre restringir o indivíduo ao seu poder de compra, onde restringir é ofuscado e transformado em algo extremamente atraente: comprar. Vamos lembrar resumidamente a premissa liberal: o poder de compra individual é o regulador do nosso bem estar, pois vamos comprar o que precisamos dentro de um cenário onde a possibilidade das empresas competirem entre si gera a regulação natural do mercado, ou seja, o mercado vai correr atrás do que desejamos para poder sobreviver e assim o ciclo se fecharia: compramos e geramos renda para outros comprarem o que também desejam.

Vale o parênteses: é claro que nem todo mundo possui um desejo ajustado de compra — ou outro termo que possamos pensar, então o mercado está constantemente se reinventando para nos mostrar o que comprar. Isso inclui uma infinidade de técnicas para te alcançar, te convencer e finalmente, ganhar seu dinheiro. Esse meio do caminho em entrar nos nossos desejos é cada vez mais desenvolvido, principalmente em anúncios online, onde se cruzam barreiras éticas quando exploram-se as ansiedades, os medos e avançam em nossos cérebros diante dos micro momentos de decisões que temos em nosso dia a dia.

Diante disso e do entendimento que devemos lidar com a realidade do que é o capitalismo, acontecem então algumas ações de ONG’s veganas para promover um consumo que reflita no bem estar animal. Não é pautado explicitamente o abolicionismo, mas também dizem ser parte estratégica para alcançar mais pessoas com um discurso mais brando, como por exemplo, exigir que as galinhas não fiquem confinadas em gaiolas para a produção de ovos.

Nesse ponto, houve grande comemoração quando uma rede de supermercados assinou acordos para cumprir essa demanda com os fornecedores. Não devemos, de fato, esquecer que para a vida de um sujeito animal não-humano, importa qualquer melhoria no seu bem estar, mesmo que o fim seja o qual sabemos. Mas ao olhar com atenção, vamos perceber que essa superfície aparentemente correta é, na verdade, facilmente contornada pelos produtores e pela cadeia de consumo.

Vale o parênteses: a ideia que a industria busca passar sobre galinhas não enjauladas é a de que elas estão livres pisando na grama e soltas em espaços verdes. Na verdade, podem não estar em gaiolas mas ainda estão em barracões lotados e amontoadas uma por cima das outras num ambiente bastante hostil.


Os problemas pioram para os animais.

A maior granja de ovos da América Latina, no começo de 2018, passou a produzir e vender ovos com galinhas foras de gaiolas, vindo do termo romantizado “cage-free”, constantemente usado pelas ONG’s e por um público que se diz preocupado com o bem estar animal. O resultado da mudança para a granja foi um aumento de 5% na produção média de cada animal. O preço desses ovos, que obviamente possui o apelo na embalagem ao intitular que vem de “galinhas livres de gaiolas” é 15% maior que o convencional. O dono da indústria acredita que com a expansão desse sistema, em pouco tempo o preço estará equivalente aos outros ovos. Isso significa maior aumento do consumo e mais animais sendo explorados. Já se pode, inclusive, comprovar que o fato aconteceu ao olharmos para esses números: De janeiro de 2018 à janeiro de 2019, houve queda média no preço de 17,8% em caixa de ovos no Brasil. Em 2017, o brasileiro consumiu por ano 192 ovos, em 2018 o número subiu para 212.

Na indústria do leite, em relação ao uso da propaganda e aumento da produção, não é diferente. A região sul do país dobrou a quantidade produzida em apenas 18 anos e produz mais que toda a Argentina atualmente. Nos encontros de produtores, os painéis abordam um suposto cuidado com o bem estar-animal com o foco direcionado a propagandear e expandir a produção, é claro.

Não acredita-se que nenhuma pessoa ativista vegana, ao adotar essa estratégia, queira fortalecer o mercado. Pelo contrário, a ideia seria criar dificuldades para as empresas e assim diminuírem a produção e deixarem, eventualmente, de explorar animais e se dedicarem a outra atividade. Infelizmente, acabam por fortalecer as indústrias e os mercados que conseguem novos nichos e propaganda positiva que reflete no consumo geral. Além disso, é duvidoso quando sabemos que as mesmas ONG’s receberam nos EUA mais de 3,5 milhões de dólares de granjas para encorajar a campanha cage-free. Quer dizer, não pode-se descartar a hipótese de que há uma ligação bastante controversa entre o dinheiro injetado e as campanhas que se seguem. E mais, não só nas campanhas em relação aos ovos especificamente, como na capacidade argumentativa de conteúdos online e produção de materiais de todas as campanhas que relacionam o veganismo a consumo/estilo de vida. Portanto, se há consumo proliferado dentro desse padrão homogêneo de mercados e grandes marcas com “selos veganos” e há influência externa que envolve financiamento para o discurso, o qual corrobora a relação de consumo, consideremos que a estratégia pode partir ou ter um comando das industrias e não das ONG’s, como tendemos a pensar. O ponto é que, independente de onde parta, percebemos uma aliança que não deveria estar aí.


“Mas com o meu consumo vegano dos produtos que eles lançam, eu vou mudar o comportamento da marca”

Agora já sabemos que não é por aí que as mudanças ocorrem e é importante superar esse pensamento o quanto antes. Ao mesmo tempo, não está sendo dito que é proibido para uma pessoa vegana comprar tais produtos. Somos veganos por escolha, não por proibição, logo, não existe a carteirinha ou polícia vegana: por mais que a piada seja boa, não pode servir sempre de resposta aos argumentos contrários a essa noção mercadológica de consumo que vem trazendo males maiores para os animais e não fazer nada a respeito — o que normalmente acontece. O que estou dizendo é que podemos direcionar nossas energias para ser mais efetivos, dentro de nossas possibilidades, no combate ao especismo.


“Mas todo dinheiro é sujo no capitalismo. Querendo você ou não, vivemos nesse sistema”

O filósofo Gary Francione argumentou recentemente que um hamburguer sem quaisquer ingredientes animais lançado pela Nestlé seria vegano e que é absurdo dizer o contrário disso. Francione segue dizendo que mesmo você indo à lugares veganos, nem todos que trabalham ou nem todos os fornecedores também são veganos, logo você estará entregando o seu dinheiro para um caminho onde o dinheiro vai se voltar novamente contra os animais. Também diz:

“se o seu critério para o veganismo é que a cadeia de distribuição é ética, então nada é vegano e você pode começar a morrer de fome agora. E se você planta sua própria comida mas as sementes usadas envolvem alguma cadeia de produção ou distribuição não-vegana, você nem poderia fazer isso”.

Vale o parênteses: Uma ONG brasileira que sempre teve discordâncias em sua cúpula dos posicionamentos do filósofo, dessa vez o usou para reforçar o argumento do “boicote produtos, não marcas” e, isso, acima de tudo, nos mostra as tendências atuais do espetáculo que louva o mercado.

O limite ético do consumo dentro o capitalismo é mesmo muito pequeno. O dinheiro que circula dentro de uma economia onde o entendimento hegemônico sobre animais é que eles não são sujeitos de uma vida, mas produtos, vai mesmo reforçar em algum ponto a exploração dos mesmos. Consideremos aqui também o que já foi dito antes sobre subsídios governamentais. Por outro lado, a fala apresenta uma falácia lógica chamada de “Falsa Dicotomia”:

uma situação em que dois pontos de vista alternativos, geralmente opostos, são colocados como sendo as únicas opções, quando na realidade existem outras opções que não foram consideradas. Essa falácia é usada para defender pontos de vista em geral, ela muitas vezes é usada em uma comparação em que uma das opções é completamente descartada pelo seu proponente, restando apenas a que lhe interessa.

Portanto, não é verdade que ou compramos de uma indústria extremamente criminosa no Brasil e mundo afora, ou teremos que ter uma vida com muitas privações para poder alimentar-se mais eticamente. Não é correto usarmos isso como auto-justificativa para manter os próprios privilégios de compra.


“Você disse privilégios? Eu sou vegano/a e compro essa nova opção que vi no mercado. Mas cada um é livre para fazer o que quiser, eu não vejo problema”

Existir produtos com rótulos veganos na prateleira dos mercados pode ser uma conveniência para nós, mas qual o preço que pagamos? Quero dizer, literalmente. A comida vegana é tudo, absolutamente tudo que não provém de animais. A infinidade das opções que temos é absolutamente incrível! O problema que enfrentamos é termos na culinária uma cultura em insumos animais muito forte, ao mesmo tempo em que comer carne é um luxo.

Vale o parênteses: isso é diferente de dizer que as culturas são extremamente enraizadas no consumo animal. Foi o próprio capitalismo que transformou radicalmente essa condição para chegarmos nas assustadoras cifras de consumo animal que temos hoje. Assista a um Masterchef e perceba como a proteína animal deve ser a “estrela do prato” e não um pequeno acompanhamento como o é na maioria dos pratos cotidianos populares por todo lugar.

A presença e o tamanho da carne num prato é tradicionalmente um demonstrativo de poder e de status. A dieta vegana por si só não desconstrói completamente esses valores e, então, resquícios do significado acabam por ser reproduzidos. Por isso é importante frisar privilégio, pois a defesa pelo modelo de expansão das grandes marcas para possuir “selos veganos”, basicamente são de produtos que trazem consigo essa atmosfera de poder e também de exclusividade. É preciso ter em mente que esses produtos não fazem parte de nossa base alimentar e nenhum deles são realmente vitais para a nossa nutrição. Estamos falando essencialmente de: maioneses, sorvetes, embutidos e bebidas vegetais.

Defender essa gama de produtos como catapulta para popularização da alimentação vegana, aponta primeiramente para excesso de industrialização e ocultamento da riqueza das comidas reais, que fazem parte do dia a dia. Isso nos tira indiretamente uma posição favorável ao diálogo. Não à toa continuamos escutando que “ser vegano é caro”.

Vale o parênteses: Uma alimentação vegana balanceada e saudável pode ser bastante acessível. Isso, inclusive, é um foco importante para estudar e propor a favor de popularização. Elitista é somente o discurso de pessoas veganas que o distanciam da cultura alimentar popular.


O que há com os preços e os rótulos? Exemplos práticos.

No Brasil, um sorvete “vegano” Ben & Jerry’s custa em média R$18. Em Curitiba, por exemplo, há um restaurante vegano que serve buffet livre a R$7,90 e come-se muito bem em outros espaços veganos até o preço do sorvete — isso sem contar o que se compra com esse valor em feiras. Nos EUA, a maionese “vegana” Hellman’s pode vir com um desconto para comprar carne. Em Portugal, o lançamento da linha de bebidas vegetais da Unilever se deu por meio de propagandas em massa, normalmente em painéis de pontos de ônibus. A campanha dizia “As plantas são as novas vacas”.

Em todos os grandes supermercados portugueses — e da Europa, em geral — há imensa quantidade de opções de bebidas/leites vegetais nas prateleiras. Seria o exemplo perfeito do que o “veganismo de mercado” diz a respeito da competitividade das grandes empresas para a consequente popularização e convencimento das pessoas em aderir produtos vegetais em suas dietas. Porém, a verdade é que a bebida Becel, da Unilever — empresa que testa em animais — é três vezes mais cara, em média, do que uma bebida vegetal de chamadas marcas brancas — produzidas pelas redes de supermercados. Enquanto paga-se €0,79 pela bebida de Soja da marca Continente — que afirmam não testar em animal — o equivalente da Unilever é €2,29. A bebida Bio de amêndoas (ou orgânica) é menos da metade do preço equivalente Becel. Mesmo em comparação com o restante das marcas, o preço da Unilever é mais alto. A diferença fica mesmo no poder de propaganda e status quo, pois nutricionalmente, não é superior nem mesmo ao exemplo mais barato que citei aqui.

Vale o parênteses: Comparando os preços com leites de origem animal, apenas a bebida vegetal mais barata de todas — €0,79 — é competitiva na prática. Importante termos em conta que a produção animal não representa um custo real enquanto não houver de governos equivalência no tratamento de subsídios, impostos e toda a questão que falamos anteriormente.

Ainda, o “selo vegano” produz, aos olhos da publicidade, uma oportunidade de valorizar o produto, aumentando o seu valor final. Um processo semelhante ocorre no chamado “selo rosa” ou pink tax, onde linhas de produtos divididos entre feminino e masculino são idênticos, mas a embalagem é dirigida às mulheres com a ideia de torná-lo algo especial e merecedor do preço mais alto.


É essencial dizer, mais uma vez, que não é proibido comprar tais produtos. Muita gente alega — sobretudo quem tem poder de compra — que teria outra ação se não fosse a praticidade em relação a rotina que leva. Também fala-se da falta de tempo de organizar-se para cozinhar mais em casa — ou não ter ímpeto para cozinhar — ou ainda, da vontade de comer junk foods que sejam veganas. Ninguém está em julgamento em relação a isso tudo. É possível para algumas pessoas ter uma dieta vegana sem alterar privilégios de compra ou o que se quer do seu estilo de vida. Mas quando a prática é defendida, ou o veganismo é entendido e publicizado como a forma de consumo que a pessoa exerce, as consequências não são nada efetivas para os animais: o crescimento ininterrupto, a lógica do consumo, sobretudo de produtos e não alimentos, e a noção de propriedade privada do liberalismo se fundem na figura do animal: é uma coisa a se tirar lucro. Não há como pautar verdadeiras mudanças e alvejar um mundo sem exploração de animais não-humanos se não levarmos conosco a destruição dessas bases.

Isso é: buscar e fortalecer perspectivas não só de consumo, mas de sociedade, que não estejam ligadas a um sistema que, por si só, necessita que a vida dos animais, humanos inclusos, sejam apenas peças e representem lucro e expansão infinita. Em outras palavras, superar o capitalismo e não fortalecer as suas bases, que vem nas mais belas embalagens e propagandas, mas escondem os métodos cada vez mais aprimorados para escravidão e exploração de vidas.

.Libertação Animal.Libertação Humana.

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Quer continuar lendo sobre este tema? Acesse aqui: “A Libertação Animal não será comprada.” (Sandra Guimarães)