O que não podemos digerir.
O programa televisivo “Pesadelo na Cozinha” (especificamente o episódio sobre o restaurante “Pé de Fava”) é uma experiência que só a TV brasileira pode te proporcionar. Primeiramente, obrigado aos envolvidos, foi bom demais! Isso não posso negar. Mas, digo isso de forma quase a tocar um canto indesejado da própria intimidade: a gente ri e comenta em tom divertido com as pessoas próximas, ao mesmo tempo que, diante de tantas problemáticas ali expostas, vêm um punhado de reflexões sérias. Pois bem, eu refleti algumas breves ao pensar saúde social e como o mercado desenvolve-se nessa relação.
Lembro em 2015 quando abrimos em Curitiba um restaurante vegano e eu comentava com um amigo de São Paulo sobre as burocracias e processos que passávamos com a vigilância sanitária. Mal comecei a descrever os pormenores e ele já falou espantado: “Eles vem aqui? Caramba, em São Paulo não tem essas porra não”. Nós rimos, mas o clima do momento tinha aquela pitada de tragédia, com o exagero e a realidade correndo lado a lado.
Ao ver o programa, logo me lembrei dessa conversa e parece que fui transportado para esse cenário. O dia a dia de um restaurante é de muito trabalho e a inexperiência, ou ainda não ter desenvolvido um conhecimento básico a fim de alinhar e afinar o funcionamento, dificulta as coisas em muitos níveis. Podemos dizer que não há nada mais fácil de se transformar em um completo caos que um restaurante quando pequenas coisas saem do controle. Mas a exposição tão nítida de um restaurante popular numa grande cidade e saber que existem milhares como esse, faz pensar sobre essa coisa de como nos alimentamos, como essa massa de seres humanos olha para nutrição, ou sobre a ideia do que é colocar alimento para dentro do corpo.
Além da evidente relação abusiva e autoritária do dono com as empregadas, num cenário que inclui a questão da migração dentro do Brasil, o imaginário do sonho e de oportunidade que São Paulo oferece — o que já valeria uma análise mais elaborada — vemos a transparência do que é uma verdadeira miséria: o cenário total do consumo x mercado x tradição.
O mercado, conectado aos outros dois pontos e assentado em sua fé nos valores do capitalismo mundial, produz um lixo barato mas que seja aceitável, apontando ao maior lucro possível. Dentro dessa lógica, os animais não-humanos ficam no topo da exploração, já que lhes é ignorado que possuem uma vida e que são sujeitos de direito. Tornam-se a mercadoria mais aprazível: é trancar, engordar e matar, pra depois chamar de proteína. Mas para o crescimento e expansão, sobretudo dos lucros da atividade, é preciso destacar também que, a grosso modo, essa atividade está nas mãos de uma elite agrária, seja por heranças ainda do período colonial (expansão do território nacional e prática de grilagem de terras) ou por integração financeira de grandes grupos, que enxergaram condições sólidas para investimento proporcionadas inicialmente pelos governos FHC e Lula. O agronegócio consolida-se assim como fator importante econômico aos olhos do Estado e os ramos do seu poder no congresso lhes concedem mais condições para crescimento — ao mesmo passo que impede a necessária luta por reforma agrária.
Mas a chamada proteína — termo usado e difundido sobretudo pelos chef famosos da tv — é a carne, do animal uma vez vivo. E como todo corpo que é vivo, logo que morre entra em putrefação. A carne do restaurante “Pé de Fava” e a carne da boutique mais cara da sua cidade, está podre. Possui sangue que não circula mais, gordura que entope as veias de quem as ingere, bactérias e infecções diversas. Não há embalagem ou rótulo que consiga sair dessa lógica, por mais apoiada que esteja numa suposta tradição o consumo e criação de animais.
Quando pensamos em quebrar a barreira da tradição carnista — lembrando que tradição significa igualmente uma construção social que sofre modificações e é compreendida de modo diverso, presa no tempo em que é lida — , o fator saúde humana também está em jogo.
O que não devemos fazer aqui é separar e isolar o sentido de ser saudável, criando novas barreiras, que se impõe justamente pelo mercado num mundo ditado pelo dinheiro, logo separando pessoas em classes atribuindo também na saúde direitos exclusivos de uma sob a outra. Ter saúde não deve ser lido como algo particular. Como seria isso? Está isolado no seu corpo? Saúde é algo para espalhar a dignidade a todos, para construir relações à nossa volta. Isso inclui os animais. Inclui as pessoas e o chão que habitamos.
Se queremos avançar, não nos prendamos à tradição. É o mercado que a cria, é ele que suporta e da nome a miséria que vimos na TV. Se vamos usar da palavra “veganismo” para superar condições de exploração, que seja pensado no amplo espectro da sociabilidade dos que têm vida, não em status particular e que repetem os termos de consumo industrial.
