Arco-íris da meia noite

Nas noites de maior solidão, pois estou em terras distantes, meu amor, terras distantes e quentes, e minhas roupas apertam. Nas noites de maior solidão, tento tocar um instrumento e a música sai de uma boca seca. É nessas noites que sei que não tem jeito, uma vez lançada a canoa adentro, só acaba do outro lado. E será longa, a viagem das noites de maior solidão. É sempre longa.
Perdido no espaço, nessa canoa metafísica, pesco peixes aéreos para passar o tempo e não morrer de fome. Mas é só nessas noites de lua cheia que as águas estelares estão férteis. A fertilidade do universo e suas luzes de neon; balada dos deuses, sim. E uma canoa humilde, a minha canoa humilde, de penetra. Os olhares, que venham, de seres maiores e milenares em iates feitos da poeira de planetas mortos; feitos do ouro da Terra, tão pequena daqui de cima, que parece claustrofóbica.
Não raras vezes, a noite escorre em dia claro e nu; eu, nu, como um asteróide cego. As estrelas sendo barcos sem rumo, embarco sem olhar para trás numa caravela suja de história; finjo ser da tripulação de um capitão faminto, e jogo um pano branco no mar do céu. É quando a música termina, que me percebo deitado num convés, bêbado, ao lado de um esfregão falante, olhando a imensidão de barriga pra cima, babando vermelho de um buraco no peito. Nessas horas, percebo que as coisas lindas já foram escritas; pena, me resta apenas uma garrafa vazia, que um dia parará numa praia, nos pés de uma criança, e a minha história, confundida com lixo, jogada de novo no mar.
Ele tinha uma coleção de 42 latas de refrigerante, o capitão. Ele, sim, era frio como o picolé da infância que caiu no chão. Tinha uma cicatriz em forma de triângulo na ponta do queixo nu. Sim, perdera a barba numa manhã de depressão, a maior guerra que já travara. Carrega uma pistola descarregada no lado esquerdo, mesmo sendo destro. Os dois olhos secos de maresia observavam enquanto eu me aproximava do timão.
Não havia mais ninguém. Pergunto por quê o capitão do meu navio, nas noites de maior solidão, está sempre sozinho, barbeado, com as duas pernas e as duas mãos, os dois olhos saudáveis sujos de lágrimas. O desgraçado sendo quase educado, respondendo minhas perguntas com as charadas confusas de um velho, parando a nau em frente à lua e chorando baixinho sem que… Nada, esqueci o que ia dizer.
No meio da viagem apontou um barco distante, música eletrônica e luzes irradiavam como o paraíso, parecendo, assim, o fim de um arco-íris; pessoas gritavam e tesouros caíam sem gravidade para fora do convés; uma cachoeira de vinho se espalhava pelo espaço infinito; uma fonte de mármore reluzia a estátua de um deus grego. O fim de todo arco-íris é sempre isso: o fim de um arco-íris. Conforme nos distanciávamos, o navio virou um pequeno ponto de luz barulhento no fundo do horizonte.
Percebi que éramos uma estrela escura nas noites de maior solidão. Eu comando o leme de uma estrela silenciosa; e a viagem é sempre longa com conversas estranhas. No final, a mesma coisa:
O tiro de laser me acerta o ombro esquerdo e eu sempre caio no deque; o capitão já não esboça reação alguma quando a navalha lhe cruza as costas. Naus de bandeira negra encostam na caravela; descem vinte piratas alienígenas fazendo perguntas em um idioma esquisito. O capitão cospe na madeira da sua eterna espaçonave e o pirata afunda sua pata gosmenta contra sua face. Levo alguns socos, sim, sempre levo, faz parte da encenação; eles sabem que eu não posso morrer no meu próprio texto. Se eu quisesse, colocaria balas na arma do capitão, uma barba em sua face e vinte e um homens sob o seu comando; mas qual seria a graça de ser mais uma dessa estrelas lustrosas de escritores antigos: as coisas bonitas já foram escritas. O capitão agora grita que é o fim do arco-íris, mas eu desenhei um círculo de sete cores; seus olhos lacrimejados sabem, seus olhos que brilham como estrelas. A navalha afunda nas suas entranhas, apagando suas pupilas. Sou jogado para fora do convés, e caio.
Olhando para cima vejo um buraco entre milhões de pontos brilhantes: a minha estrela é um espaço vazio. Caio de costas na minha canoa, que esperava vazia o momento de remar para a praia. Nesse pedaço de madeira que flutua no horizonte, deito com uma garrafa vazia na mão e sangro.
As gotas escorriam no braço trilhando caminhos secretos. Secretos como uma cachoeira silenciosa que desenha mapas na pele: o mapa do tesouro e piratas de tapa-olho, como em desenhos animados. Tudo voltava conforme o fluxo abria caminhos, formando linhas tortas que escreviam o torto. As gotas escorriam no braço alcançando mão, dedos e unhas, e pingava. Singelamente respingava no piso fosco, em notas calmas de piano clássico: o furo no ombro esquerdo sendo o maestro do sangue. A menor orquestra do mundo fazia um show particular, dessa intimidade que só entendem os compositores e os acostumados a ouvir música em silêncio, o som sendo esse sibilo sussurrante no canto do cérebro. Logo, uma pequena poça, calma como um lago.
Foi no espelho vermelho que vi meu semblante: já não mais tinha os olhos de minha mãe. Quis tocar o violino do pai, marcado na madeira pelo uso, trazendo o som profundo de infância, memórias escritas numa partitura amarelecida. Boca seca. Quis tocar o violino que estava longe demais, me senti enferrujado, o braço inutilizado. Contentei-me com a música ambiente, o marca-passo da goteira vascular, ampulheta.
Do chão o mundo gira em vertigem: voltei à praia de meu apartamento, a tempo de ver o sol nascer. O capitão sorri, enquanto usa o arco-íris redondo que desenhei; como um colar ornamental feito para conquistar garotas alienígenas de algum bar perdido nos confins do espaço. E uma garrafa vazia boia perdida, inexplicavelmente, no meio do Atlântico.
