O retrocesso da história ou a fábula sobre o fim (início) dos tempos.

Em seu mais recente filme, O cavalo de Turim, Bela Tarr cria uma metáfora em imagens sobre o processo de involução da civilização que, ao invés de dirigir-se ao progresso, ruma à castástrofe.

No filme, pai e filha, moradores de lugar remoto vão, numa narrativa capitular, perdendo pouco a pouco elementos centrais da cultura civilizatória em direção ao seu total desaparecimento.

Em um jogo de composição simbólica, os elementos da involução humana vão sendo apresentadas — a tormenta incessante que os impede de acessar os espaços naturais, o silêncio e a perda da domesticação dos animais; o uso das roupas que vai tornando mais restrito, a roda que se torna inútil, os alimentos que já não são cozidos.

No final do total de 6 dias — inverso ao período da criação divina — o homem retorna ao escuro: sem luz, sem fogo, sem verbo.

O filme é rigorosamente contado com movimentos de câmeras que seguem corpos nos espaços, matéria estática em quadros revesados que revelam novas perspectivas dos ambientes.

A composição de luz e gradação de tons alcançam juntos uma atmosfera sublime. A fotogenia dos rostos, das mãos, dos atos primordiais humanos. Em tudo, vê a vida, vê-se o homem e a natureza.

A narrativa capitular regressiva lembra mais a teoria de Walter Benjamin que Nietzsche, — que é o autor citado diretamente na epígrafe — por ser evidentemente uma reflexão sobre os caminhos da história. Mas é possível aproximar a metáfora ao episódio de declínio à loucura e degradação pelo qual o autor passou.

O filme certamente pode parecer lento. Mas apesar de extenso, 2h30, não poderia ser contado com 1h, ou 30min a menos. Todos os capítulos fazem sentido, todas as cenas relevantes. Nada sobra. Nenhum minuto no filme parece exceder.

De fato, difícil lembrar de filme mais coerente, melhor trabalhado e com melhor resultado. Se não fosse pelo desfecho tão materialista e desencantado, seria para mim o melhor de todos da história. Até agora.