MUDANÇAS CLIMÁTICAS E O BRASIL: O QUE FAZER?

Por Paulo Vodianitskaia

hapiterra.com

Em meio a um mundo virtual de informações desconexas, torna-se difícil para nós refletir sobre o que lemos. Lanço a você um desafio: refletir profundamente sobre como as mudanças do clima causadas pelo aquecimento global podem interferir em nosso futuro, e o que devemos fazer agora. Este é um tema que lhe parece relevante?

A você que continuou lendo, convido a examinar uma frase ou duas do relatório síntese do IPCC, publicado em novembro de 2014.

“A influência humana sobre o sistema climático é clara, e recentes emissões antropogênicas de gases efeito estufa são as mais altas da história. Mudanças climáticas recentes têm amplos impactos nos seres humanos e nos sistemas naturais.”

O recado é claro. A causa das mudanças climáticas vem de nós, e seus efeitos já nos afetam. Você já pensou na responsabilidade que você e todos nós temos com relação a esse problema?

Examine agora esta outra frase carregada de significado:

“O aquecimento do sistema climático é inequívoco, e desde a década de 50 muitas das mudanças observadas são sem precedentes em décadas a milênios. A atmosfera e o oceano se aqueceram, as quantidades de neve e de gelo diminuíram, e o nível do mar subiu.”

Ou seja, nossas emissões de gases efeito estufa já promoveram mudanças de impacto como nunca antes houve: tempestades e outros eventos meteorológicos extremos, surtos de doenças infecciosas como a dengue, por exemplo… Entre outras mais dramáticas que podem ser previstas pela Ciência, como a redução de colheitas e da fertilidade dos oceanos, a degradação sem volta do que restar da Floresta Amazônica ao final deste século…

Os relatórios do IPCC ecoam pelo mundo todo e representam um amplo consenso científico mundial, assim não há mais como fingirmos duvidar ou ignorar a questão climática. Com esse grau de informação, o que seria razoável esperar da civilização diante dessa ameaça? Pelo menos que se busque preservar a vida, o bem estar e as instituições que asseguram sua governabilidade. Isso só será possível a um grau limitado e incerto, já que grande parte das mudanças do clima são inevitáveis. Por isto, deveríamos planejar ações de adaptação a um mundo mais quente. Além disso, há uma parte evitável, e para isto deveríamos fazer do nosso melhor para reduzir, ou mitigar, as emissões de gases efeito estufa. Resumindo, temos duas grandes frentes para agir:

  1. Redução das emissões atuais de gases efeito estufa, e
  2. Adaptação às novas condições climáticas causadas pelas emissões históricas.

Reduzir a nossa “pegada de carbono”, ou seja, as nossas emissões de gases efeito estufa, é um grande negócio a longo prazo, e possivelmente a curto prazo também. Vamos aprender opções simples para que cada um de nós ajude o planeta a manter a melhor condição de estabilidade climática possível.

Por que reduzir emissões de gses efeito estufa — geralmente contabilizadas como emissões de dióxido de carbono (CO2) — é um bom negócio? Primeiramente porque emissões de carbono significam perdas. Muitas indústrias hoje têm metas ligadas à ecoeficiência de seus processos, e um ótimo indicador é a quantidade de carbono emitida por eles.

Um exemplo de falta de foco? A eficiência de nossos motores a gasolina pouco evoluiu em um século. O opção etanol começou muito bem com o Proalcool mas, concordemos, tem sido mal gerenciada no Brasil.

Vivemos em um país que oferece incentivos para que a indústria aumente a produção de veículos com motores convencionais, mas sem especificar o tipo de motor (se é híbrido, se apresenta eficiência máxima “flex” com etanol, e não com gasolina!). O programa de etiquetagem do Inmetro serve somente para informar o consumidor mais atento.

Você, na sua próxima ida a um posto de abastecimento preferirá etanol, ao considerar que o CO2 emitido pelo motor do seu carro é absorvido pela fotossíntese da cana de açucar do qual esse combustível se origina? Com esse “ciclo fechado” a emissão total de carbono do etanol é mínima se comparada à da gasolina e do diesel. Se o consumidor não leva em conta o benefício de suas escolhas para o clima, não podemos esperar que a indústria ou o governo o façam.

Considere que, para igualar o jogo com o etanol, a indústria do petróleo deveria “enterrar” praticamente todo o carbono emitido pelos motores no mundo inteiro, nos poços de onde retira petróleo, por exemplo. Esse processo é tecnicamente possível em escala menor e está na agenda de pesquisa de muitas indústrias petroleiras mais responsáveis. Entretanto, tal como outros processos industriais, esse custa muito caro — pois envolve, além da captura, o congelamento do CO2 — , enquanto que o serviço ambiental da fotossíntese é um “bônus” da natureza para nós.

A cana de açúcar é, aliás, a unica espécie com perspectivas de aumento de área de cultivo no Brasil neste século (e nos seguintes), pois os impactos do aquecimento global no Brasil afetarão muito a quantidade e qualidade da produção agrícola. O Brasil: de “celeiro do mundo” a canavial — uma mudança indesejada. Por isso, o Brasil deveria protagonizar as iniciativas e tratados para a redução de emissões de carbono, incluindo uma proteção incondicional à Floresta. No entanto, o que vemos? O que fazemos? O que exigimos de tantos governantes que fogem de sua responsabilidade?

Fugir à responsabilidade climática não é um “privilégio” do Brasil. As negociações para a redução de emissões estão travadas há anos. Pudera! Os países pobres esperam que os ricos tomem a dianteira devido ao peso de suas emissões históricas, enquanto os países ricos esperam que os pobres assumam uma parcela de responsabilidade pelas suas emissões atuais. Além disso, são os países mais pobres os que mais têm a perder com o aquecimento global, tanto em termos monetários quanto em vidas.

Na última Conferência do Clima, que aconteceu em Lima, Perú, na falta de consenso sobre um compromisso global, sobrou a alternativa de contribuições nacionais, torcendo para que a soma resulte em um efeito inferior a 2 ºC de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais, o limite para evitarmos “o pior”. Veremos na próxima Conferência do Clima, em Paris, em dezembro de 2015…

Outro bônus da natureza para o Brasil, pelo menos por enquanto, é a qualidade e diversidade de alimentos nativos. Raízes, frutas e leguminosas que vêm de um lugar próximo a você carregam muito menos emissões de carbono para a sua mesa. A globalização econômica aumentou muito a oferta de alimentos e bebidas provenientes do mundo inteiro. Prefira o local. Aliás, prefira o local que seja também orgânico. É melhor para a sua saúde, para a economia da sua comunidade, e também para o clima do Brasil e do planeta.

O mesmo raciocínio vale para qualquer outro produto que você compra. A centralização da produção imposta pela globalização econômica não faz sentido para quem quer uma condição climática que permita a continuidade da vida humana no futuro. Tampouco faz sentido para quem deseja o desenvolvimento sustentável para a sua comunidade. Mesmo que seu país seja a China. Mas atenção: não podemos mais confundir desenvolvimento com crescimento. Já utilizamos a biocapacidade de 1,5 planeta Terra, quando só podemos ter 1,0. Para não piorar o nosso saldo negativo, o crescimento econômico deveria ser totalmente desacoplado de impactos ambientais perversos.

Ao longo das mudanças climáticas das próximas décadas, certamente deixaremos de comer carne. Hoje os rebanhos bovinos são os responsáveis por 10 % das emissões de carbono do mundo, e por uma boa parte do consumo de água: 16.000 litros por quilo de bife. O Brasil tem mais bois do que gente, e ainda se dedica a desmatar para criar mais bois, e a cultivar soja exportada para que os chineses alimentem ainda mais bois! Que tal tentar uma “segunda sem carne” e depois gradativamente chegar aos sete dias da semana? É melhor para a sua saúde, para reduzir as suas despesas com alimentação, e também para o clima do Brasil e do planeta.

Nós gostamos bastante de viajar, não é? Viajar nos traz novas amizades, talvez alguma cultura e certamente o alívio de outra bagagem que temos gosto em abandonar no caminho, a do nosso tédio. Como estamos longe da Europa no que tange a ciclovias seguras e em disposição para pedalar, a tecnologia de dirigíveis não foi recuperada e atualizada desde o Zeppelin, e o avião solar está hoje, em março de 2015, dando a sua primeira volta ao mundo, certamente todos viajamos emitindo vastas quantidades de carbono. Por isto precisamos descarbonizar nossas viagens. Como? Uma boa opção é viajar menos vezes, e ficar mais tempo no destino para compensar. Isto é enriquecedor. Não se conhece uma cidade, por menor que seja, permanecendo pouco tempo nela. Outra opção, oferecida por diversas companhias aéreas, é o passageiro compensar o carbono emitido, por meio de uma taxa razoável que servirá para ações de mitigação como o reflorestamento

Você é empreendedor de um negócio que inclui entregas? Contrate ou confira serviços com veículos elétricos. Seu produto tem embalagens? Proponha embalagens retornáveis ou de ciclo fechado de carbono, como os novos bioplásticos. Considere oportunidades de privilegiar energia solar para aquecer, refrigerar e gerar energia elétrica de forma descentralizada. E assim por diante. Muitas inovações e oportunidades se escondem nesse novo mundo descarbonizado que precisamos construir.

Falamos muito sobre a mitigação das emissões de carbono. Temos que entender que isto não é o bastante. Mesmo que passássemos a não emitir mais CO2 a partir de amanhã, o nível do mar continuaria subindo durante os próximos milênios, devido às emissões de gases efeito estufa que a humanidade produziu desde o início da primeira Revolução Industrial, no século XVIII. O nível dos oceanos sobe com o degelo das geleiras — todos vimos o Polo Norte com pouquíssimo gelo no verão, grandes geleiras sendo perdidas da Groenlândia ao Polo Sul — , e também pela menor densidade da água aquecida.

O aquecimento da atmosfera também continuará por séculos à frente, por isto precisamos agir imediatamente para evitar os cenários mais catastróficos, reduzindo as nossas emissões e também adaptando as nossas vidas aos impactos ocasionados por um mundo mais quente. Prefeituras europeias como a de Berlim, por exemplo, desenvolveram planos de ação detalhados para assegurar a seus habitantes um nível razoável de conforto térmico em 2030, a partir de estudos dirigidos especificamente para aquela cidade, seu rio, seu clima.

Planejamento estratégico, de longo prazo, que inclua estudos de impactos locais causados pelo aquecimento global. Isto é o mínimo que nós, cidadãos que compreendemos o alcance das mudanças climáticas, devemos articular junto à administração pública, a começar pela municipal.

Não faz mais sentido uma prefeitura desenvolver programas de controle de enchentes ou de ocupação de novas áreas sem levar em conta a alteração local de níveis pluviométricos nas próximas décadas, que pode ser estimada a partir de modelos matemáticos refinados. Migrações de refugiados climáticos vindos de regiões hoje áridas, amanhã desérticas, e de regiões hoje férteis, amanhã áridas, devem igualmente ser consideradas no planejamento estratégico que alguns países, como o Reino Unido, demonstram ter, e que todos os países deveriam desenvolver.

A maior parte da população do Brasil vive ao nível do mar. Só que o nível do mar vai continuar a subir ao longo de muitas gerações. A população costeira precisará subir também, perdendo o que construiu para construir algo novo. Todos pagaremos um certo preço. Entretanto, ele será menor se construirmos algo novo agora mesmo dentro de nós, e compartilharmos atitudes sustentáveis com quem está ao nosso redor. A resposta efetiva aos desafios do clima não virá da ONU, mas do coração de cada um.