Sobre a mulher que esqueceu que o mundo não é bom

Ela era a personificação de um bom abraço, de sexo intenso e poesia. Tinha cabelos amarelos, uma tez pálida e cínicos olhos azuis. Era dada ao amor tanto quanto era dada aos vícios e tantas foram as vezes que a encontrei já dizendo adeus, deitada sobre o resto de si.

Saibam desde já que ela morreu porque amou demais alguém que nunca poderia ser.

Sarah gostava de sorvete, licores e um bom romance vitoriano para os dias comuns. Amava receber cartas, ser convidada para tomar café e também para dançar. Precisava imensamente de mulheres. De todos os tipos e cores, tristes e felizes, delicadas ou não, nascidas em um corpo de fêmea ou não.

O único problema com a Sarah — nesse momento — é que ela teve uma história triste e se fez de refém da sua própria vontade: afirmou que sua felicidade dependia do nível de mediocridade que poderia suportar. Acho que foi assim que ela acabou decidindo vestir aquele vestido azul bufante e sair sob o sol em uma manhã quente. Claro que isso é só um detalhe, mas por dentro ela queimava de vergonha da atitude tomada, mesmo sabendo que alcançaria o resultado almejado.

Qual o resultado? Pergunte a ela. Só preciso dizer que funcionou.

Amou. Amou demais, amou intensamente, amou como jamais alguém amara em nenhum lugar da literatura. Amou até cansar do amor, amou até já não vê-lo mais com a beleza de outros dias. “Quem assim não ama?”, ela diria.

Eu pergunto: que beleza tem esse tal de amor? Parece só mais uma mentira bem contada, um sentimento que deveria ser censurado em nome da sanidade de mulheres de todas as idades e do respeito de homens que nunca serão homens.

“Amor é só mais uma bela falácia, Sarah.”, eu disse a ela naquela mesma manhã. Ela era bela, mas o vestido atrapalhava seu desempenho.

“Torço pra que siga pensando assim, querida.”, e saiu andando com os velhos sonhos empurrando-a na direção daquilo que ela desejara mais do que é possível ser crível: fé.

Gostaria só de acrescentar: eu penso ainda pior do amor hoje em dia.

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