Cada vez mais teimoso sobre a ideia de que a poesia deve ser como a música.

Eduardo Peters
Aug 27, 2017 · 2 min read

Depois de 19 anos desde que escrevi o meu primeiro poema, tenho cada vez mais admitido para mim mesmo, ainda que sem expressão ou meramente no terreno íntimo, que a poesia deve ser como a música. Que sentido vem a fazer isto? Bom, estou tentando dizer que a essência da poesia é que ela faz a palavra ressoar. Ela faz a palavra vibrar. Não é a emoção humana que vibra como o Sol-Mãe no planeta de um poema. Não é o sentimento ou o arroubo, é a Palavra que vibra e ressuscita todos os seus sentidos, as suas facetas antagonistas e protagonistas, como uma nota musical , um Lá Menor, por exemplo, que faz ecoar, no fundo texturizado de seu timbre, as micro frequências que correm de mãos dadas, ás vezes atritando-se como as dissonâncias selvagens de um símbolo. E que esse atrito me lembra a melancolia de ser tragado a este pesar, essa decadência que sobe pela gente e nos entorta. A poesia precisa libertar a palavra e deixá-la ressoar, deixá-la abrir o mundo que ela esconde, mesmo do olhar cotidiano e analítico da prosa. Há, inclusive, um sutil esquema que nos permite compreender esse delírio: na prosa, as palavras são utilizadas para instigar a nossa imaginação a tecer a ficção através delas. Nossa imaginação é ativa, pois nós construímos ativamente o mundo. Na poesia, a nossa imaginação se deixa levar e desmanchar no terreno obscuro das palavras, na imaginação íntima de toda uma língua. A poesia é a música que desintegra a palavra até à condição de poeira, de luar, para que todas as coisas ela possa encobrir com justiça. E pode ocorrer, de ser fogo também: a música crepitante que transmuta todas as matérias. É a música desconhecida e picante e onírica de cada língua, afinal. Na poesia, a palavra destrói, arrebata, dói e um mundo torna a reconstruir a gente outra vez.

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