Capítulo 1.

Dia primeiro deste mês. Nada aconteceu desde o mês anterior pra cá. Talvez o ar tenha mudado. O volume das nuvens aumento certamente, como se tivesse engordado uns kilinhos. Apesar das cores estarem mais pesadas que dias atrás, creio que a aceleração da gravidade permanece inalterada. O pensamento e as leis da física seguem caminhos distintos, aliás. Mas tem vezes que me pergunto se não há qualquer espécie de correlação entre eles, de ordem imprevista, acima da compreensão humana. Digo, se o pensamento tiver por hábito lançar suas influências sobre as leis da física, poderia, sem as dúvidas inerentes à justiça poética, dizer que os tons das nuvens estão mais pesados, mais plúmbeos. O contrário: o tom plúmbeo das nuvens torna meu pensamento sobre elas mais denso, como se chovesse a chuva do último domingo, um desaguar de calhas cinza e monótono. Talvez eu tenha andado muito cinza e monótono, mas acha que ligo? Ocorre ao meu tipo, dos que tem a memória longa como um tecido estruturado, que não cessa de enrolar-se sobre si mesmo. Ocupa-me, na verdade, e não em pequena frequência, uma penca de lembranças que vem demasiado amadurecidas ou deformadas pela queda. São frutos curtidos pelas intempéries, em estado de decomposição. Quando a matéria dos sonhos mais distantes e das lembranças mais recorrentes se desagrega, temos a impressão de que rostos antes familiares já não se parecem com sua familiaridade. São espasmos sombrios na parede do quarto, abaixo da estante de livros, cortes imagéticos diagonais como uma tempestade de cores e sussurros a cair retilínea — acontece de eles já fazerem parte de teu organismo, dos bastidores dos teus olhos e dos teus devaneios sem rédeas. São de tempos atrás, velharias a entreter entre as palavras. De resto,nada aconteceu desde o primeiro do dia anterior até o presente dia: tráfego na Protásio continua fechado, como o caos de um formigueiro em chamas; meu padrasto dirige, minha irmã bate suas pernas no banco traseiro no ápice de seus oito anos. Narrar dias brancos deveria me trazer o espaço confortável para narrar sobre mim mesmo, mas há tempos já não sou qualquer coisa narrável. As leis da física não são narráveis, por exemplo. O sol, a lua e os demais astros são dignos do elogio de astrônomos e amantes, mas não de narrativas. Assim como as pontes, que só servem para as travessias, para fitar o rio e o que se perde entre os vales mais verdes. Inspiro e expiro, eis tudo. Uma flor não é digna de narrativa, mas de nota: ela está ali. Eis tudo. Descrições sim, mas minha fisionomia não comporta descrições: ela é um código intrincado de linhas e cores estampada no espelho. Tenho, em verdade, sido invisível. E a alma, por ser invisível, traz a dúvida se podemos confiar que ela exista ou não. Serei cético e gravarei em tais palavras, estas no caso, que não possuo alma e os dias dessa semana, provavelmente, serão mais brancos que o da semana passada. Mas olhe, que a chuva sucede miúda como uma porção de alfinetes. Minha memória, hoje e sempre, terá as características da argila: não que seja maleável, moldável, mas apenas imunda e desconfortável.

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