IV

Antigamente, quando eu não tinha mais que cinco anos, sonhava em ser médico. Eu queria ser como o meu pai. Queria estudar o corpo humano e tudo quanto me assombrava. Abria as páginas do Atlas de Anatomia Humana, sentava no chão, deixava­-me ficar pasmo e admirado com as cavidades das órbitas oculares, vazias e pretas como os quartos à noite, onde as luzes foram apagadas por um interruptor; gostava de rastejar os olhos pela esfericidade do crânio, de analisar e imaginar a sua textura, a cor esbranquiçada de sua carapaça que mais lembrava um inseto ou um caracol liso. Quando me defrontava com o cérebro humano, as vísceras ou as camadas mais inferiores da epiderme, era tomado por um espanto religioso, um pudor comiserado, e rapidamente fechava o livro, com rapidez e algo como um sentimento de violação de coisas proibidas. E então, eu tornava a abrir lentamente as páginas, como que decidido a encarar o engenho humano e a olhar para ele com a curiosidade de um alienígena. Eu não era capaz de imaginar que eu mesmo fosse exatamente parecido com aqueles cadáveres dissecados, por dentro, mas eu tinha, de certa forma, a intuição de que a beleza, a verdadeira beleza do ser humano, estava na força anatômica e crua daquelas imagens, aquelas fotografias de sua superexposição; e ela também estava nos cálculos milimétricos de cada cisão do bisturi, estava em cada dimensão de cada relevo, em cada peso e em cada medida daquelas varetas ósseas e daqueles labirintos de fibras musculares. O tórax sempre me fascinou como uma gaiola curva: quantos pássaros não terão sido chocados entre os movimentos pesados dos pulmões? Eu realmente lembro destas besteiras, porque foram estas besteiras que marcaram a minha memória quando criança: não me interessava a cura das doenças; o corpo era um universo, a morte era o esporte. Se há qualquer coisa de degradação na podridão dos tecidos musculares, eu via a natureza se remexendo, como um feto, nutrida pelos espasmos gelados da morte e por esta degradação. E então, expostos como em uma galeria luminosa, aqueles corpos se me apareciam artísticos, na paralisia afetuosa toda a inocência de suas nudezes; alguns até pareciam sorrir para mim. Havia paz nos canais nervosos daqueles homens, uma paz azulada e trêmula, como se toda a vida de um homem (e eu o imagino agora, ou melhor, invento) tivesse esperado por aquele momento de demorada atenção, como se agora ele finalmente ouvisse: “enfim és homem”.

Hoje, e não sem alguma margem de erro, percebo que adoração neurótica tenho eu pela verdade. Não, não, e eu minto uma vez mais, ou me engano, ou finjo me enganar: não é a verdade que me põe em buscas incessantes e frequentemente inúteis, mas o simples prazer de descascar, camada por camada, uma cebola. E ainda que seja uma tremenda baboseira essa analogia, vocês bem me entendem quando eu digo que é uma cebola e não uma maçã que eu pretendo descascar com a agonia daquele que espera. Assim, meu faro busca cada pequena camada do corpo humano. Assim, meu olhar amputa com sua luz sagrada cada pequeno relevo de gordura ou cada terminação nervosa que julga desnecessária para o procedimento médico. A beleza está no suspense da revelação, ainda que não haja nada a ser revelado. Pois bem, pois bem… agora vejo com que agonia nervosa tenho dissecado meus sonhos, com que suspense melindroso tenho tentado compreender os misteriosos cálculos do inconsciente. Há um homem na sombra do meu universo, e eu espero os seus passos com cautela. Em meus sonhos ele caminha, e eu preciso prever­lhe os próximos movimentos. Durante quanto tempo eu não tenho inventado semelhantes criminosos para buscar nas tramas do meu sono uma fagulha do que seja eu? Eu tenho descascado cada casca de cebola e me livrado dela como de pistas falsas e pirotecnia… A verdade me foge como um pretexto para uma discussão sem sentido: quero apenas o esporte, o movimento da natureza do discurso.

Sou um homem doente de tédio. E é por isso que busco essa coleção de cascas, de envelopes finos e vazios: tédio, tédio e tédio. O ponto final se triplica aqui; há sempre o porvir. O futuro é um vício; e o prazer da insolência consiste em repetir o passado, por pura teimosia, com enfado e uma dose gordurosa de raiva. Penso que é com tédio que Sísifo olha para o vale do Tártaro, minutos antes de descer as escadas do seu castigo; penso que é o tédio que ele empurra o seu fado, degraus acima, como uma violenta pedra bruta; mas qual será a medida da circunferência de sua amarga alegria ao sentir que a rocha desaba novamente em direção ao covil dos deuses? Com que alegria espetaculosa, histérica e integralmente secreta ele não percebe a impotência cru e essencial de seus esforços? E eu estou calcificado, e eu ainda rolo pelos precipícios de abismos para os quais, no fundo, sou indiferente. Que me importam os abismos! Que me importam as questões da humanidade, a metafísica, a ética! Que tudo o mais vá para o inferno! A busca, sim, a busca… a incessante busca pelos números esquecidos, pela linguagem da alma (a metafísica), essa sim merece a atenção de um homem para quem o tempo ainda não passou. Os cálculos, os cálculos — que o tempo vá para o inferno, que o tempo do homem comum, que o tempo da ordem das coisas, que o relógio inglês se espatife no chão e arrebente tudo ao seu redor! Que tempo o quê?

Não existe tempo que eu não tenha paralisado com sabotagens estranhas. Não existe tempo que eu não… Ora, mas o que digo? O assunto é outro. O assunto é outro e primo pela linearidade da narrativa. Eu sou, afinal, um homem de estilística, um esteta cruel dos nossos tempos. É preciso colocar a ideia nua, na esteira de uma fábrica, e deixá­la ser travestida (e a isso sentencio com um magoado desdém). Cauteloso, em prontidão contra tudo aquilo que penetra pelos filtros da minha consciência — ainda que eu tenha momentos de distração profunda e de meditações abruptas; ou, ainda, que eu não acredite nessa baboseira de filtros de consciência e que seja, muito no fundo, ou na superfície, uma esponja do mar, apreendendo cada pequeno sintoma do nosso século — sim, sim… eu tenho estado atento a tudo, a cada movimento de cada crime que eu cometo contra mim mesmo; eu tenho estado em alerta, atrás do muro das minhas mentiras, ensurdecido pelo rumor dos meus canhões e da minha liberdade gritada a plenos pulmões, como nos filmes. Que a poesia, e precisamente a poesia, tenha sido a minha grande sabotagem, que a poesia tenha sido o desfile selvagem e confuso da minha alma, que a poesia seja o próprio inferno, isso vá lá é verdade. Ah, poesia… Poesia… De que alturas eu tenho cultivado o medo quando embalado pelo teu colo? Não terei me elevado no teu dorso e olhado para tudo com a soberba e aflição? Quantas respostas não ocultei em ti!

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