Dez poemas de inspiração musical, sem título ainda e nem jamais terão algum dia. (segunda vez que edito esta merda com o fim de acrescentar sempre um último devaneio)

Eduardo Peters
Aug 26, 2017 · 7 min read

I

Planícies pálidas se estendem pelo horizonte
E Aquele que foi tornado carneiro
terá seu sangue derramado
por inteiro.

Já se elevam, no horizonte, e cortam o ar e tudo
e tudo se parece outra vez com a rocha.
É uma torre, um ebâneo quadrado, absurdo
que encontra o céu e o toca e o fere
E quem até então fora tornado, por mão humana
ou mão de Estado, lebre
Terá seu corpo a crepitar na fogueira onde não estivesses.

Cante, ó Sol, ó Arqueiro, ó célebre holofote
A dor do homem que é pego pelo cangote
e atirado ao devaneio de não ser forte.
À vertigem de não ter norte.
Morte.
Morte.
Morte.
Como uma escada que se prolifera
e se enreda direto pelo abismo histriônico da sorte.

II

Toca, ó violão, que todos os homens são santos
santificados danos
E que os pobres tolos ainda sonham com um lugar melhor,
E os poucos nobres a saber que esse lugar queimou.

As vozes das Nereidas são as ondas que engolem o corpo do oceano,
o corpo da nossa história,
o nosso corpo.

Vamos entregar o nosso corpo a uma oração
entre os cães, entre os irmãos,
que estão em vão pelas esquinas
Que não vão.

Toca uma aurora nos cabelos dela,
áurea aurora
Como uma coroação repleta de pedras,
de cristais inquebrantáveis que se elevam suaves
entre corais, de esguelha.

Ah, que sonho é estar nesta oração
Enquanto as canções sobre a terra e sobre o céu
estão fenecidas
no chão.

Toca, ó timbre vermelho dos sinos
a atravessar a escuridão e redemoinhos,

Lembra-nos que a eternidade do universo
resumir-se-á ao grão.

III

Uma ampla sala, o piso de madeira, de fato
é ampla como são amplas as janelas da minha alma.
O piso é um mar castanho e rubro até os pés de uma ideia,
à sombra está mais para o marrom, um marrom reluzente
como o do mogno das mesas de jantar
ou de um escritório importante.

Estou sempre nesta sala, como um túmulo
Um sibilar entre as cortinas.
Estou à espera do quê? Será de meu corpo
A descer por esta sala todos os outros corpos,
todas as outras vidas que carrega no coração
de sua própria história?
Eu vejo-o, mas não reconheço-o.
Deveria tratar-me, ou deter-me um pouco mais
Nessa ampla sala três portas.

Três portas que giram ao meu redor e trocam de lugar.
Que será que as fechaduras escondem? Que segredos?
Sigo-o
até um jardim que se abre e há tantas uvas
tantas tantas uvas
Que seria impossível que eu não o amasse
por ter plantado aquilo tudo.
É entre as uvas que Dionísio ri
Sua grande tristeza.
Seu imenso
e grave
e pesado
e extenso
e imenso
e grave
e suave como a imagem de um campo que se apaga
na boca da noite.
Como a imagem das portas que não se abrirão jamais
sem que o verdadeiro vocábulo
Aquele que vêm como o tiro da espingarda
em direção ao azul infinito do céu,
a derrube para longe,
para além do mar, esse afogamento infindável,
esse doce sufoco de ser espelho e abismo
que é o mar.

Libertador é aquilo que faz pular
ser ar.

(…)

O que é um doce campo de outono
se ele não puder ter você para contemplá-lo?
As árvores que se espalham como sonhos de infância,
sobre uma relva inquieta de vigílias,
Tem sobre si o dourado enevoeiro dos dias
e a poeira de todos os tempos, de todos os ventos
que se revolvem no pescoço das pradarias
virá buscar na tua palavra, na tua poesia,
a visão que as libertaria.

IV

Vamos, a todos, unirmos sob o murmúrio belo das flautas
irmãos
e nos encobrirmos com o seu pesado lamento.
Morramos de mãos dadas, mas com o alento
De não sermos mais do que pedras, estátuas, prisão.

Gárgulas esbeltas, fotos e mais fotos ao espelho,
sinto que devamos morrer honestamente
ao despertar vermelho da próxima manhã.

O que a próxima manhã aguarda a mim, pergunto-me.
O que a próxima manhã sangra diante de mim,
penso.

Penso se valho todo o sangue que o abismo do sol
verte sobre as nuvens.

Penso se sou mortal e por pensar de mais creio que morro.
Talvez eu seja mortal, já que não tenho dono.
E o sopro malévolo de Hermes já me derruba de cima de mim.
E o sopro indelével de Eros me torna dor de não vir.
Sei que Hermes não é malévolo, mas sei também
que aprendi, desde pequeno, a odiar o que não é meu,
a saber, tudo.
Aprendi, também, que o vento que levou o meu irmão
me vigia desde então.
Sabe que, diferente do meu irmão, tenho empatia pelos ventos
que somem, que somem
sem deixar ferimento.

Ah, devemos morrer, todos em círculo
Porque, aparentemente, apenas a morte irá nos igualar.
Porque, aparentemente, apenas a nossa caveira poderá conversar
E será terra
terra e mais terra
a sangrar contra o arrebol
sobre o inverno das palavras e dos hinos.

V

A boca do silêncio me acordou com um beijo hoje e foi bom.
Ao menos eu acho.
O que muito ignorei no passado, embora no presente creia ser perspicaz,
é que esse beijo tende a demorar mais e mais
quanto mais dele sorve-se.

Amar o silêncio das ruas que penetra como uma faca nua
as tuas chuvas,
Eis a única forma de amor possível e honesta
a ser tua.

A boca do silêncio me adormeceu sobre a tapeçaria da noite
essa eterna noite nos meus olhos.
Gosto imensamente da noite, aliás. Gosto de espreitar a noite
com as pernas e olhar “que alívio, todas as portas estão despidas
dos olhos que escorregam nelas”.
Estão despida do ardor de homens e mulheres
que já não conhecem.

Estar assim à noite, devotado a sua divindade escura e silente,
me faz pensar que talvez demais eu lembre
do que não há pra lembrar.

Por isso não estranhe se hoje me vires como que virado em espelho,
surdo como uma chaminé a dispersar-se.

Estarei do outro lado de lá, célere coelho
célere a queimar.

VI

Tua mão desce pelo sombrio esquecimento da minha.
Tu não estás.
Talvez tu sejas o meu não eu,
O meu não ser.

Sou acossado pela ideia de ti, a ideia de um mundo
que de mim tenha despedido-se.
Percebo que o horror dessa ideia não reside no mundo que não me terá,
Esse horror resiste na tranquilidade

com que aceito silogisticamente que devo morrer.

Tua mão desce pelo tecido denso dos nossos lençóis, nossa escuridão.
Abaixo dessa escuridão ainda não nascíamos para o mundo,
éramos, eu e tu, um cristal
amadurecendo sua luminescência.
A noite traz certa saudade dessa paz má,
dessa paz que nos envenenou e nos separou.

Desde então, eu e tu, sombra, eu e tu, visão que se revolve
até mim.
Olho para o horizonte fragmentado horizonte entre os prédios
e sinto o teu olhar a evocar o meu esqueleto
a provocar a imagem do meu espelho.

VII

Tenho diante de mim uma fotografia tirada em 92, estou em uma casa
da qual já não me lembro bem (mas tinha aquela aranha que eu temi, na época),
e noto como sou parecido com meus pais, em como sou, assim como os meus
queridos pais, tão humano e tão humanóide quanto possível.
Nossas peles têm côres semelhantes, ele barba, ela seios
Diferenças que já são previstas em determinado cardápio e que já é fácil
de engolir.
Ademais, tenho os mesmos cabelos negros as mesmas pestanas os mesmos olhos negros e penso
que terrível e enigmático poderia ser para quem isso aqui tudo criou
um ver-se infinitamente reproduzido de si mesmo
como essas páginas, esse verso
que repenso, que estético.
Tenho diante de mim o atestado genético de ser tão humano como meus pais
ou como a terra que me devora na volúpia de ser devorado por ela.
Acho que sempre tive esse mesmo impulso com o chão
de mergulhar no chão. Rasgo a foto e deixo-a ser lembrança, memória
vulcão.

IX

Um acorde está suspenso entre eu e tu
O que ele diz?
Ele diz que somos, eu e tu, o mesmo
sofrimento de ser
vir não ser.

A invisibilidade das nossas vidas, a minha e a tua,
O que ela diz?
Ela diz que somos, eu e tu, da mesma
substância a saber
ar.

Ar a inflar os pulmões das serras
da humanidade ausente das crateras.

A lua que nos fita através de uma fechadura que lembra uma vírgula
O que ela espia?
Ela espia o nosso infinito debater
entre as montanhas do ter.

Sangra uma estrela ou é um importante outdoor
a te esconder, entre lagos e estradas
a prometer que não somos nada.

Pois pisa bem fundo no chão
e se deixar perder na escura erupção de uma caminhada.

X

Chame-me ao teu seio, onde galopa a vida
onde as palavras do dia galopam e trituram
onde o corpo é atropelado pelos seus desejos
pouco antes de acordar para ser atropelado pela rotina.

Chama-me ao rumor marinho do teu seio,
onde os ginetes ainda abrem vertentes e fontes puras
de pensamentos.
Quero ser, contigo, uma pura fonte de pensamentos
a alagar, a destruir, a expulsar o esquecimento, os ventos.

Estou aqui, unido a ti, nesta morte simbólica e fátua
A olhar para fora do buraco cru da noite que se escapa
e enxergar sombrio como é sombrio o rosto das muralhas e das estátuas, das águas, memórias nas águas.

)
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