Quis sentar num canto e chorar, mas todos os acentos estão ocupados por pessoas intimamente interessadas em comprar calças. Sentam-se em cima de todas as cores e grafemas: amarelo, vermelho, marrom e um amarelo-exclamação; são sucessões de pernas e bacias. Alguns mais ósseos, outros são contornos indecisos e urdidos de gordura e poliéster. Narizes em borrão, como uma cena que de dentro de um carro você não compreende bem, esses narizes insolentes passeiam em frente às estantes, farejando descontos, oportunidades para encher o saco e tirar proveito de qualquer aroma que venham a sorver. Outro dia um deles era um comprido túnel escuro tramado com pelos retos e quentes e sôfregos. Sentei-me, depois de abrir uma porta repleta de fendas, numa caixa, o ar de quem já tinha carregado para baixo um bando de outras caixas. Era bastante pesada e castanha. Das coisas sólidas demais sempre intui uma cavidade secreta, um fundo falso. Sempre duvido que sejam verdadeiramente maciças, pois nada há de verdadeiramente maciço em qualquer parte, nem o crânio da gente e nem as nossas convicções. Tinha, certo tempo, um aquário retangular a minha direita. Hoje são apenas um punhado vassouras dormentes, álcool etílico, produtos de limpeza que exalam aquele perfume sanitário, a sensação de estar num lugar muito branco e estéril, como uma página ou um leito de morte. Mas hoje, e especialmente hoje, são vassouras, garrafas transparentes e escovões. Penso se não devo limpar alguma coisa, para distrair-me. As pessoas lá fora dão risadas, não sei se dos meus olhos vermelhos e ardentes ou de sua própria exaltação. Agora são gargalhadas esdrúxulas e vergonhosas, inundadas de saliva. Há um monte de gente feliz e cansada lá fora, fazendo suas bundas entrarem dentro de um saco azul com recortes para as pernas. Ouço em “que elegante que você está!” um mantra recorrente e desgastado. O elogio tem algo de ofídico: envolve e envenena. Uma hora atrás veio a mim uma pessoa em pânico desabafar. Ela tinha uma foto três por quarto de seu filho. Falava dele como os poetas falam de seu poema: uma doce hipnose, uma doce nostalgia, que, momento a momento, eram interrompidas por seus devaneios mais eloquazes e a consciência de se estar fatalmente sozinho. Seu hálito quente e seus olhos terrivelmente azuis, de um azul que não se fita, evocaram de dentro de uma poça d’água aparentemente rasa o corpo metálico de um peixe comprido; fendido da cabeça à cauda, numa linha perfetitamente reta, aquele peixe tinha sido meu companheiro por um ano inteiro. O sangue ainda estava morno, mas não espalhava-se: era mais cor que fluido, mais imagem que substância plasmática. As vísceras pareciam minúsculos pensamentos: era preciso imaginá-las abaixo das escamas, entrevendo sua cor viscosa e latejante como um fonema que se demora a compreender. Porque haveriam de matá-lo? Diziam os antigos que, assim, fora construído o nosso primeiro alfabeto, no tempo do fogo: de feridas distribuídas no ar e nas coisas. Quando algo fere a substância que há dentro das coisas, elas sobem à tona para assombrar o mundo, pois só flutua aquilo que está vazio, aquilo que se reduziu à própria representação. Estática, sem motivação ou culpa, a imagem torna-se um farolete no meio da noite: machuca os olhos de quem se aproxima, machuca a paisagem e faz nascer, dessa dor imprevista, o mais imprevisível dos dicionários, a saber, — a aparição viva e repentina de um furioso cardume.