SÉTIMO

Outra manhã chegou uma carta pelo correio. Quem envia cartas pelo correio, hoje em dia? Ah, o banco. Ele procurou imediatamente algum logotipo ou referência desses bancos brasileiros que estocam o nosso dinheiro com todo o zelo do mundo e ,com o mesmo zelo, cobram-nos a fatura desse carinho imenso e energético, mas nada. Se era de algum crediário não tinha como identificar e nem lembrara-se se algum dia quisera envolver-se com crediários — já pagava as parcelas de estar vivo. E se fosse de algum escritório de advocacia ou de alguma instituição que viesse mediar sobre uma dívida há muito esquecida? Também carecia de referenciais e a dívida há muito esquecida era, naturalmente, a com seus progenitores e com a moralidade cívica, que deus os tenha. Fato é que, hoje em dia, só se abre o correio pra pagar conta e saber o preço do pepino, melão, absorvente, sorvete, de sorte que qualquer coisa diferente disso possa cheirar a golpe (a mais dinheiro envolvido), à trapaça. A carta, entretanto, estava endereçada a ele (e tão-somente ele) e trazia a seguinte mensagem: “esta noite você receberá uma encomenda”. Era mais ou menos isso. Sem remetente e sem explicações. Sem sentido.

Muitas vezes a vida parece um sonho, mas, se formos analisar bem, seria verdadeiramente onírica uma realidade que estivesse absolutamente organizada e a história humana fizesse necessariamente sentido, como costuma acontecer muito nas más ficções. E o começo abrupto dessas histórias, por exemplo nos roteiros dos cinemas, quase sempre se inicia na senda da surpresa e da negação, ás vezes do ódio, ás vezes da inconveniente aventura — toda nova ação deve inspirar comportamentos antagônicos; é a química do estímulo, da narrativa e do movimento da câmera. Porém. Ele não era uma personagem de cinema. No caso de uma pessoa que chega às onze e meia da noite para jantar cachorro quente de pão francês às onze e cinquenta e três da noite, enquanto ouve o mesmo disco dos Rolling Stones no computador, em meio a uma névoa frouxa e guardada e mofada de maconha, para uma vida mundana e não adaptada ao gratuito como essa, a surpresa ás vezes acaba por dar uma volta por cima de si mesma e se engolir pelo rabo, como aquela figura ofídica da mitologia azteca: virou instantaneamente aceitação, entusiasmo e espera. Espera por algo que, dentro das leis narrativas da verossimilhança, não fazia sentido algum. O que será que viria naquela noite, quando voltasse do trabalho? O que estaria esperando por ele? O correio entregaria fora de expediente? Realmente? As perguntas multiplicavam-se enquanto a água quente escoava pelos poros do filtro, desabotoando o odor castanho e rubro do café.

Vamos com calma e tato narrativo 
e recomeçar tudo outra vez.

A manhã cinza do dia oito de abril. O céu era uma colagem de mau gosto, assomada por paralelepípedos gigantescos repletos de orifícios retangulares. Uma carta chegou do correio a Elisandro Soares, mas esta ainda não tinha sido aberta. Era um envelope curiosamente branco e encerrado com um selo dourados. Estava mergulhada entre os cadernos do supermercado local e os anúncios de alarmes e serviços de portaria. Seis ou sete da manhã. Percebera que estava acordado desde o momento em que, como vindo de um sonho, o ruído da teve incomodava-o. Elisandro deixava, todas as noites, a tevê ligada na parede sul de seu JK, o qual alugava desde os vinte e dois anos. Sem escovar os dentes colocou dois ovos para cozinhar e, com ímpeto nervoso, tratou logo de amassar em bolinhas cada um dos folhetos publicitários. A carta chamou naturalmente sua atenção. E não digo que tenha chamado sua atenção pela ausência de slogans ou chamadas furadas: o selo dourado provocava-lhe os olhos. Ao seu imaginário vinha logo a imagem de um tempo perdido e mágico, que só existe nas novelas provençais ou em suas memórias infantis. Lembrava-lhe nobreza, cavalaria, glória, sacrifício. Essas quatro palavras, quando alinhadas dessa forma, faziam com que arrepiasse-se. Sentia todos os pelos de seus antebraços se eriçarem em um êxtase magnético e profundo. O papel tinha uma gramatura diferente e não era branco como são brancos os aventais dos dentistas: era de um branco ligeiramente amarelecido e orgânico como o branco do algodão ou o branco dos pergaminhos profanos de sua imaginação. Abriu-a e encontrou, dentro, uma folha de ofício dizendo que Elisandro Soares precisaria receber e ficar de posse de um antiquário, por nenhum motivo.

Mente com temperamento explosivo quem diz que o ser humano não se assusta e não se levanta em crises de histeria diante dessas situações. Mente com doçura quem diz que, a um cérebro acostumado com a rotina, a vida sem surpresas, a repetição enfadonha dos dias, coisas desse tipo são surpresas bem-vindas e que é preciso aceitá-las com a naturalidade com a qual se aceita o amor. Ninguém é capaz de aceitar o amor dessa forma, quanto mais um antiquário sem motivo aparente. Embora quisesse se entusiasmar mais com a possibilidade de aventura, um lado seu se achava desconfortável com algo que não fizesse nenhum sentido, que fosse por demais gratuito. Em certo sentimento de urgência com a própria segurança, com o próprio zelo, considerou todo um cenário em que a entrega desde artefato pudesse ser a condução de um assalto, talvez sequestro. O que também o intrigava e causava a ele enjoos ansiosos (bem como uma vontade imensa de cagar, apesar da prisão de ventre) era a repentina observação de ser muito improvável que um bando de ladrões ou assaltantes forjasse aquela carta escrita em tinta nanquim e/ou comprasse um selo dourado para encerrar uma mensagem tão breve. Por que haveriam de avisar que estavam a caminho naquela noite, sob o pretexto de entregar um antiquário? Tudo era muito estranho. Ou pior: nada daquilo fazia sentido algum. E fazer sentido, no contexto da vida de Elisandro, era fazer um sentido mais social de sua existência. No âmbito da vida em sociedade, nada acontecia gratuitamente: tudo era uma troca. An exchange. Esse substantivo, em inglês, vivia sendo invocado por ele, em sua mente. Invocava, aliás, muitas palavras em inglês, das quais gostava de relembrar a pronúncia, como uma música imaginária, quase esquizofrênica. Tudo na natureza de sua vida era uma troca. Se recebesse algum benefício vindo de qualquer lugar, sua intuição imediatamente o diria que ele mesmo haveria de concretizar essa troca e manter o equilíbrio lógico da balança de sua vida. Mas de onde viria essa nêmese, esse taxman misterioso?

À noite vinha com sacolas do mercado: pães, leite, ovos, frutas cítricas, cigarros. Esquecera-se, por alguns instantes, da lacinante curiosidade e apreensão que tomara seus pensamentos e suas sensações corporais durante a tarde inteira de trabalho. Assim, girava a chave sem olhar para baixo, para trás, para os lados: girava a chave olhando para a fechadura brônzea — imitação do bronze. A maçaneta era bem redonda, uma cabeça metálica e abatida que sequer refletia seus dedos. Girou-a e entrou no apartamento escuro, batendo com os tornozelos nas cadeiras de madeira clara, jogando as chaves no balcão da cozinha, bem como as sacolas. Ligou a luz da sala e, antes que pudesse correr ao banheiro e simplesmente arrancar o cinto dos passantes, quase afastara-se da visão que tinha agora e que repousava sólida sobre a mesinha de alumínio da sala: uma ignota caixa, que ele não conhecia, que ele jamais vira em toda a sua vida, nem mesmo em suas fantasias romanescas e afeitas ao universo ficcional, estava ali parada.

Parada.

Tinha uma nova carta ao lado da caixa, que seus olhos nem conseguiam examinar bem. Por algum motivo estava como que cego: seus olhos miravam todas as coisas ao mesmo tempo e nada. Olhou para os lados. Olhou pelas janelas trancadas que dão para a rua ou para oito metros abaixo e então a rua. Olhou para as janelas verticais do prédio vizinho, iluminadas por luzes amarelas e brancas e pessoas caminhando, tocando seus afazeres, puxando cobertores na sala. Com muito medo, um medo gélido, verificou atrás da porta do banheiro e todo o banheiro. Olhou debaixo de sua cama. Correu para o corredor. Buscou alguma marca, alguma coisa que tivesse sido deixada para trás. Estava sempre buscando alguma coisa, procurando pistas onde, talvez, não tivesse pista alguma. Pegou a carta. Pegou-a com medo de que ela pudesse devorar a sua mão com dentes de letra, com instruções hediondas. O que estava escrito. Rasgou, mas rasgou todo desajeitado, todo mole. Suas duas mãos formigavam e era possível que estivesse com a pressão arterial um pouco alta. Sentou-se, os dedos tremendo. Sabia que, de alguma forma, certas informações têm o poder mágico de mudar para sempre um destino. Mesmo que nada se faça em relação a isso: saber, não ser mais ignorante, elucidar-se nas trevas — era transformar-se. A consciência, aliás, de certas responsabilidades que se acumulavam em sua vida cotidiana, costumava-lhe ser dolorosa: não queria, por vezes, ser um agente de seus dilemas, de suas questões. No cerne dessa dimensão escapista Elisandro era um mestre, um sábio. Enrolar o baseado, chamar os amigos, curtir umas coxas, ler uns livros, escrever uns poemas de amor impossível — com tudo isso dá-se um jeito de não se olhar no espelho, não enxergar-se. Teria visto seus fracassados trinta e poucos anos e essa era a sua maior responsabilidade.

Apesar de tudo isso leu. E dizia: “Aos cuidados do sr. Elisandro Soares (…) manter esta caixa lacrada, mesmo que estejas, e de fato estás, de posse da chave. Não poderás abri-la jamais (…) Doação da Casa de Leilões Rosa & Silva”. Não tinha telefone, nem e-mail para contato.

O que fazer?

Elisandro Soares acordava todos os dias às onze e quarenta, onze e cinquenta para: tomar banho e reutilizar a cueca. Para: espremer o tubo de pasta de dentes e reutilizar as meias. Para: misturar o resto de xampu com sabão líquido e esfregar os cabelos (e a virilha). Escolhia sempre suas melhores roupas, embora aconteça de suas melhores roupas fazerem parte de um leque muito limitado, que sequer merece ser chamado de leque — camisa jeans preta ou azul clara, calças em três tons de azul escuro, camisetas de banda ou lisas da Hering. Pulseiras que jamais tirava. Um relógio de pulso da mormaii. O mesmo olhar de maníaco da coca que não disfarçava sua gana impetuosa por observar e fazer perguntas, sobre todos os tipos, mesmo que sentisse uma fadiga sonolenta 24/7. Naquela noite, em especial, não tocara nas uvas nem no café com leite que preparara depois do banho noturno. Pusera a mesma roupa, inclusive, e ligara a luminária: procurou letras ocultas através do papel e do envelope. Lamentava amargamente ter rasgado o envelope no clímax infantil de seu desconforto. Era dado a lamentar-se, a culpar-se por todas as coisas que fazia, explorando sempre um lado negativo, que representava inconsequência e desleixo.

Observava, agora, e observou, até mais tarde, a caixa sem conseguir identificar nada a seu respeito: era uma caixa retangular e de pequeno tamanho, feita de madeira. Madeira bem trabalhada. Tinha arabescos, desenhos ondulantes, quase mandálicos. Em cima da caixa, que tinha sido depositada ali na mesinha, estava uma chave antiga cunhada num dourado envelhecido, desgastado. A pintura dourada, aliás, descascara em micro sinais negros: revelava-a seu verdadeiro material, o ferro. E, ainda que observasse por mais tempo toda aquela cena, aquele objeto, aquela situação, sua mente, não acostumada a aceitar eventos tão gratuitos e disformes como aquele, não era capaz de evitar o embaralhamento, a vertigem de ser ver sem referenciais, sem uma história que explicasse aquilo. Na verdade, tinha uma história. A história que todas as células do seu cérebro gritavam para ele: alguém fazia uma brincadeira de mau gosto. Certas piadas podem ser cômicas, certas câmeras gravam as reações mais esdrúxulas da alma humana para depois passá-las de reprise nos domingos do canal 5 — aquilo era, para além disso, uma brincadeira engenhosa e psicológica. Ele acreditava nisso. Procurou, quando ligou a lâmpada fria da cozinha, pegadas, marcas de reebok, sementes amassadas trazidas da rua, qualquer vestígio humano. Poderia ser cabelo. Pensou ter visto, até, um fio de cabelo ruivo mas era ilusão de ótica. Repentinamente, toda a dimensão mundana de sua vida parecia uma cruel ilusão de ótica ou era apenas a risada psíquica da erva em seu sangue.

***

- Vamos tomar uma cerveja?
- Não.

Ele visualiza, joga o celular pro lado e põe uma uva verde na boca. A luz volta a acender-se:

- Amanhã tenho compromisso. Pode ser outro dia…
- Ok.

Um minuto e quinze segundos depois (ou foram catorze?):

- Vai fazer o quê amanhã?
- Sair. Tomar uma cerveja com uma amiga.
- O dia hoje foi bom, né?

Minuto de silêncio. Depois de trinta silêncios:

- Adoro pegar sol! haha

Isso já era umas três e meia minguando entre garrafas de Original, cigarros e o ruído paralítico do televisor. Estava dessintonizado, fora do ar e inundava a sala com um chiado de chaleira quente. Sua cabeça estava fora do ar também. Pensava em Antônia e no que ela faria no dia seguinte. Queria contar-lhe da caixa que recebera, queria contar-lhe alguma coisa nova para atrair o seu interesse e assim terem uma conversa interminável. Temia que essa tática não desse certo. E ela não daria porque ele sentia medo: sequer sabia no que tava metido. Ás vezes as pessoas se metem em encrencas e se ferram por conta disso: por ignorarem o peso de suas ações no universo complicado da física. Ninguém nunca é bom em matemática. No caso de Elisandro Soares, secretário na clínica odontológica do regionalmente respeitado Norberto Soares, grande odontólogo, exímio assador de vazio e salsichão de frango, as encrencas costumavam se meter na vida dele gratuitamente e a nêmese era sua companheira doméstica, a única gata que realmente voltava à intimidade suja dos seus aposentos. Dormiu uma dormida com muitos sonhos difusos e abstratos. Entre tantas abstrações em sua mente, uma frase palpitava mais viva e sanguínea que seu próprio peito: jamais abriria a caixa. Isso estava sentenciado em sua imaginação. Mas por quê ele não poderia abri-la? Por que ele sentia que devia obedecer essa recomendação?

***

Não podia abrir a caixa. Não podia mesmo. Acordara sem pensar nisso. Banho, colgate, sabonete de glicerina, urina. O café se instalava na xícara com a prontidão de um soldado experiente. As persianas dobravam-se sobre si mesmas lá na rua, deixando que o dia lá fora acordasse o dia dentro de seu apartamento. Dez e quarenta e seis. Estava sentado à mesa de alumínio, fitando a chave entre as mãos, a estranha caixa inerte na superfície. Agora que a fitava com um silêncio ainda maior em sua mente, embora cheio de perguntas adormecidas que não teriam resposta de pronto, observava novos detalhes do objeto: a madeira tinha uma textura bastante peculiar em seu tom escurecido: pequenos veios castanhos claros se mesclavam com a incidência aleatória de pontinhos negros que estampavam o alto-relevo. Como era muito observador, talvez em excesso, acabava por perceber sempre novos elementos que, algumas vezes, não estavam ali: eram arabescos ondulantes ou representações da lua crescente? Eram motivos árabes ou analogias com as gotas da chuva? Girou a caixa em seu próprio eixo para perceber desenhos confusos de arqueiros, muito pequeninos, que se desdobravam próximo à base — ou seria uma frase filosófica no alfabeto árabe? Não gostava dela de todo: achava antiquada, romântica demais para seu espírito ainda mais romântico. Não combinava com seus posteres de bandas locais ou seus livros de filosofia existencial, com centenas de fotografias de parques industriais que tinha guardado em uma pasta, com seu gosto por colecionar tampinhas. Não combinava com o seu amor gratuito pelo urbanismo e pelas coisas retilíneas. De uma só coisa ele gostava: das palavras de ordem que o recomendavam a jamais abri-la.

Quem lembrar da história da caixa de Pandora poderá ver aqui um reflexo meio distorcido do mito: a tentação humana em desvendar o desconhecido, o oculto, em não suportar a tarefa de não explorar o sabor acre da maçã e danar gerações inteiras, aqui são completamente inexistentes. E isso é curioso: o instinto é justamente o da obediência. Sentia que, em um mundo onde todas as coisas estão abertas como caixas de Pandora, onde todas as coisas estão dadas em carne viva, desveladas, aceitar o total desconhecimento e mantê-lo desconhecido era uma tarefa exemplar. Pelo menos nessa direção seus pensamentos e seus desejos estavam inclinados e era sob essa ótica que os defendia. Quem for mais arguto ou mais velho, entenderá que um medo inerente, por vezes, nos toma de títere e nos põe a dançar a ridícula dança das nossas convicções. Alguém pode dizer que sucede o mesmo com Elisandro Soares, um secretário obediente? Em respeito ao assunto da obediência ou do peso da obediência em seu comportamento diário, dá para dizer que Elisandro Soares é um homem obediente socialmente. Conhecedor intuitivo da etiqueta, da empatia e da docilidade. Sempre teve um caráter pacífico e, só mais tarde, foi entender que esse pacifismo obediente ajudava-lhe a despistar o natural preconceito que as pessoas nutrem com os usuários de drogas. Ele, porém, não era um usuário de drogas como nas novelas: falido. Estava mais para um farmacêutico no seu passatempo solitário, alguém que reconhecia nos fármacos a soa dosagem e a medicina almejada. De qualquer maneira a obediência sempre foi uma máscara aliada, principalmente no sentido de permitir que ele ousasse a uma liberdade doméstica, porém criminosa.

Isso soa convincente? Eu acho que não. Embora toda essa lorota funcione muito bem para saciar espíritos sedentos por explicações de ordem psicanalítica, no fundo Elisandro tinha, sim, uma imensa curiosidade que ele mesmo reprimia. E essa curiosidade, inicialmente, era crua, despida de qualquer motivação. Quem nunca sentiu o simples desejo de conhecer outra parte do universo? Quem nunca sentiu o simples desejo de colocar a mão em um buraco na terra? Quem nunca sentiu o desejo de saber qual a profundidade da escuridão no oceano índico? Eu, por exemplo, jamais (sempre fui meio limitado, meio confortado). No caso de Elisandro Soares, entretanto, todas essas simples curiosidades inúteis, que jamais acrescentariam a ele outra coisa que não uma experiência arriscada (inclusive no sentido de se arriscar a decepção), todas esses impulsos representavam um único desejo de mergulhar em outra coisa que fosse desconhecida, que não fosse dele, que o distraísse muito. Assim era com as pessoas, também: sempre pronto a mergulhar-se em outras vidas, em viver outras rotinas, outras camas ou mesas. Assim era em seu ambiente doméstico, dentro do qual explorava outros temperamentos, outros estados de humor como a euforia, a depressão e o desejo avassalador por chocolate belga. E ali estava ele, agorinha, diante da caixa, absorvendo com voracidade novos detalhes dos quais não gostava: não gostava de suas dimensões: parecia ruim de carregá-la escada abaixo ou acima. Segurou-a, logo depois, entre os braços: era pesada também. Minutos depois de largar a caixa: e se tivesse uma bomba ali dentro e ele estivesse protegendo-a? De repente curiosidade era medo e tava difícil escolher entre o medo de saber e o medo de jamais saber.

***

No tempo da guerra fria falava-se muito em comunista, em vermelho, em Marte, em marcial, em marciático, em militarizado, em criancinhas, em cirílico e toda uma sorte de signos que estimularam o imaginário da humanidade e fundaram novas versões para a mitologia do apocalipse, novos mitos. E não é que o imaginário das pessoas ama a recriação desses mitos de auto-destruição? A caixa, os motivos meio sarracenos, o alfabeto que parecia um bando de arqueiros (alguns a cavalo, outros tombados no chão), as ondulações na madeira que pareciam brumas de ópio e incenso desenhadas no espaço: tudo aquilo acendia nele o receio de participar de qualquer espécie de ação terrorista. E se estivesse vigiando um artefato explosivo? E se fosse o guardião de um grande incêndio? Em tempos de palestina, gasolina, pós-imperialismo e o caralho, as histórias de destruição que atemorizam o coração da sociedade contemporânea têm o mesmo sabor do Alcorão. E era pesado o suficiente para ser um explosivo? Não poderia abrir jamais, de acordo com as recomendações anônimas, porém por quê estava de posse da chave? As coisas quase faziam sentido. E quase fazer sentido era como ser quase campeão da libertadores: era como não ser absolutamente nada. Logo dava-se conta de que a chave podia ser meramente ilustrativa, como aqueles prêmios de consolação dos torneios de pingue pongue. Sem pensar duas vezes engatou-a na fechadura e tentou girá-la. Tentou, pelo menos. A maldita chave estava presa e foi preciso uns quatro minutos para que ele conseguisse removê-la dali sem quebrá-la ou danificar o orifício. A chave era meramente ilustrativa, um estúpido prêmio de consolação, e Elisandro Soares, de secretário obediente e criminoso doméstico agora passara a cúmplice de ações terroristas, talvez mais horrendo que isso. Pôs o ouvido próximo ao objeto: se emitisse um ruído compassado ou estático, poderia sim ser dos ponteiros de algum relógio. Não tinha qualquer ruído que escapasse de dentro da caixa e, na verdade, o silêncio daquele momento podia ser muito mais assustador que qualquer espécie de ruído possível para sua imaginação.

Dessa maneira, estipulou a si mesmo um prazo de sete dias para que levasse a bendita caixa a um serviço de chaveiro e descobrisse-lhe os segredos. Até lá deveria manter-se firme e, provavelmente, no auge de uma bebedeira sensata, redigir um pedido de perdão aos futuros mortos do bairro Auxiliadora.

O PRIMEIRO DIA é sempre o dia mais difícil. Era incapaz de abrir a caixa com a única chave disponível. Como nos seriados policiais, tentou o uso do grampo de uma colega, o qual pedira durante o expediente. Rebeca era dentista e, apesar de estranhar o comportamento compassivo e altamente honesto de seu colega, não fez mais perguntas, a não ser esta:

- É pra prender de quem?

Rebeca sempre soou como se gostasse de algo em Elisandro, como se tivesse algum tipo de interesse em sua vida. Aquela pergunta persistiria muitas horas em sua memória, pois Elisandro, como já dissemos, é uma pessoa reclusa e dada a se envolver com toda a sorte de detalhes e questionamentos. Sente tédio se não puder divagar labirinticamente sobre algum detalhe de alguma questão. Por que ela lhe perguntaria isso? Observei bem sua linguagem corporal? Ela estava com os braços em 45º? Rebeca era dentista, ele um secretário. Talvez achasse-o bonito tanto quanto fodido na vida, talvez estivesse com algum ciúme mal disfarçado. Afinal, todo fodido tem o seu charme efêmero. O que ela pensava a respeito daquela situação: “pode me emprestar um grampo do teu cabelo”? Esse tipo de pergunta, logo percebeu, era tremendamente aberta: tirava de dentro da caixa de Pandora uma infinidade de possibilidades que, certamente, brincavam de ciranda na mente de seu interlocutor. Essas brincadeiras, sabia no íntimo, eram os verdadeiros males da humanidade: é o que nos torna, a cada um de nós, o nosso mais formidável adversário. Nunca tinha olhado bem para ela, mas agora até que gostava do aparelho em seus dentes, das borrachinhas vermelhas e das sardas que emolduravam, como um rio flamejante, aqueles dois olhos verdes. Rebeca, então, parecia bela pra um cara solteiro e ilhado em sua ilhazinha doméstica. Parecia bela em meio àquela tormenta marítima, pleno sol de agosto: nada fazia sentido, menos ainda para ele, a súbita curiosidade de Rebeca. Quando recebeu o grampo negro, notou um pequeno grupo de fios muito lisos e castanhos e pensou na provável quantidade de células presentes em cada um daqueles fios. Cheirou-os; esse foi o contato mais próximo que fizeram em seis meses de coleguismo. Cheiro de lavanda e mel.

Sua relação com o objeto não mudara muito. Ao chegar em casa, tratara de esconder o objeto para que ninguém o visse. Nem mesmo ele. Sua ideia de esconderijo, entretanto, era fazer daquele artigo bastante antiquado um elemento comum e adaptado a sua decoração. Tinha um hack de MDF junto à parede: colocara-a na superfície mais alta, com um pano de prato por cima. Em seguida, retirou o pano de prato com a leve sensação de estar sendo um idiota: “as pessoas vão me perguntar porque raios eu decoro o meu apartamento com panos de prato em cima de caixas. Vão tirar o maldito pano dali e olhar bem praquilo. Vão perguntar: que que é isso? Ah! posso abrir? O que tem dentro? Aposto que tem um monte de fotos! Por que pôs um pano de prato aqui em cima?”. A simples fantasia desse momento o deixava irritado: não dividira até então nada daquilo com ninguém e, pressentia, não iria fazê-lo tão cedo. Seria como a Cassandra das histórias antigas: sabia que o prédio inteiro poderia estar condenado, todavia nenhum ser vivo haveria de lhe dar crédito. Ele mesmo não dava-se. Então colocou-o na cozinha, mas a cozinha parecia um ambiente hostil e branco demais para uma caixa daquelas, aqueles brancos papel-higiênico, água sanitária, antisséptica. Não queria vê-la muito exposta, para que não atraísse questionamentos, mas na cozinha tudo adquiria uma aura de desleixo, de subtração do valor que aquela aventura tinha para ele. Decidiu esconder embaixo da cama: se o troço explodisse, ao menos ele morria dormindo.

Antes de dormir, puxara um fumo e deixou-se admirando, com o tato, os relevos da caixa. Já não parecia tão feia ou oriental, até porque a modernidade árabe no século treze fora bastante influenciada pela cultura helenística, pelas proezas de Alexandre e pelas névoas fumegantes de Apolo. Apenas por aquele dia teve a impressão de que aquele objeto conversava com ele: mais do que o objeto, a coisa — a situação, o evento. Ou, pelo menos, era isso que aparentava (tampouco desejava admitir que conversava com a porra de uma caixa e que ela lhe dizia coisas. Não queria tirar crédito a sua aventura, não queria ser taxado de louco nem por si mesmo). Lembrou-se de seus avós e de como eles teriam aceitado de bom grado um presente daqueles. Seu avô estaria, nesse momento, às duas e meia da madrugada, duas e trinta e sete para ser mais exato, passando o verniz na pele sólida da madeira, dando a ela o acabamento de um profissional verdadeiramente mergulhado em sua práxis. A tampa da caixa parecia o telhado baixo de uma casa portuguesa: traços muito finos desenhavam formas eqüinas, isto é, de cavalos). Embaixo dela as inscrições fundas gritavam, em alfabeto latino: EER.

O SEGUNDO DIA foi um dia de folga que Elisandro deu a si mesmo. De acordo com sua voz abatida e embargada ao telefone tinha febre e caganeira, dores abdominais, fraqueza na região da lombar e enxaqueca, uma enxaqueca que não vou nem te contar. Norberto recomendou-lhe nimesulida e canja (canja é soro, ou prefere que seja pra dentro do braço?). Tudo ficou bem. Tudo estava bem. Embora não estivesse com todos os sintomas descritos, seu maior problema naquele dia era o peso da responsabilidade que carregava. Mas que espécie de tarefa é uma tarefa que a gente não pede para realizar, que a gente não assume? Os pais conhecem o peso dessa tarefa, no momento em que percebem que jamais pediram para serem pais? Os grandes heróis, no fim das contas, executam suas proezas heróicas porque não poderiam fazer diferente, nem se tentassem: assim quer o espírito ígneo e sedento de vida de Homero. Há certos seres humanos agraciados com dons que atraem a eles todo o tipo de trabalhos a serem cumpridos. Nascer, em certa medida poética, era ser agraciado com a responsabilidade de existir. O casal suicida do quinto-andar, número quinhentos e onze, foi o maior exemplo de cinismo e rebeldia em relação ao peso tarefa: desejaram a leveza insondável de morrer. Viver é trabalhar, concluía, mas seu desejo de morrer em todas as coisas, pedaço por pedaço, prestação a prestação, fazia de sua vida um sem número de suicídios, de aniquilamentos, de vôos em pleno ar. E o mais prazeroso dentre esses aniquilamentos era, para ele, o exercício de escrever: matar-se para a vida. então recriá-la na morte. E a vontade de morrer entre as palavras, de sumir para dentro do timbre avaliativo do seu narrador, deu vida a este começo de história, que contaria toda a sua pequena experiência com aquele presente que não compreendia:

“Outra manhã chegou uma carta pelo correio. Quem envia cartas pelo correio, hoje em dia? Ah, o banco. Ele procurou imediatamente algum logotipo ou referência desses bancos brasileiros que estocam o nosso dinheiro com todo o zelo do mundo e ,com o mesmo zelo, cobram-nos a fatura desse carinho imenso e energético, mas nada. Se era de algum crediário não tinha como identificar e nem lembrara-se se algum dia quisera envolver-se com crediários — já pagava as parcelas de estar vivo”.

Vamos, porém, abrir um imenso parênteses, aquele parênteses sensatos e honestos, puros, puríssimos como a purinha, como a 51, como as coxas brancas de Rebeca: seu nome estava sujo, enlameado. Tinha lama até o pescoço. Sorte que seus credores telefonavam todos os dias. E davam com os burros na água diariamente. Além do mais, seus pais estavam vivos e ele era um cumpridor rigoroso, em sociedade, de certas normais morais e cívicas, como bater continência ante a bandeira, votar no 45, ajudar as velhinhas a atravessarem a rua (elas também tendem, 87% das vezes, a nos ajudarem a ajuda-las a atravessar a rua e, assim, cumprir com nosso karma cívico), cantar o hino nacional ao brado retumbante de nossas vozes, uma lágrima cadente no olho direito, outras duas no olho esquerdo. Não usar vermelho. E a lista ética, deveras emocionante, segue serpenteando ao infinito. Mas sim, seus pais estavam vivos: morando em Portão. Cada qual em uma casa. Divorciados. São vizinhos hoje em dia. Ela, Madalena Soares, dividia sempre a torta dos domingos com o seu ex-marido. Ele, Alceu Soares Filho, dava graças a deus por ter conseguido voltar a fumar dentro de casa. Ambos eram felizes e tristes e ordeiros e pacíficos e previsíveis e hipócritas e tristes. Ele a traía com o futebol das quintas feiras, com os amigos, a cerveja e o Camel amarelo. Ela o traía com Otávio, corretor imobiliário onze anos mais novo.

De qualquer forma, são escritos sentimentais, dramáticos e inflamados. Seus poemas todos são discursos a turbas imaginárias, turbas demoníacas. Há uma imagem recorrente do sol, dos campos e das montanhas. Há uma recorrência de imagens que tem por ofício descrever e delimitar a solidão. Àquela noite, em que pedira folga da clínica, dar-se-ia folga do bar do Guto, no qual trabalha como garçom e faz-tudo.

O TERCEIRO DIA era o verbo. A prisão de ventre e os vômitos persistiram pela madrugada e a febre tomara as veias de seu corpo, amolecendo toda a musculatura. Estava realmente na bad. Às quinze horas estava na orla de ipanema, desacompanhado. Tirara fotos da caixa e armazenara-as no celular: estava decidido, desde então, a pesquisar em todos os tipos de antiquários ou mobiliários possíveis que soubessem da procedência daquela urna. De que século vinha? Estava decidido, ou meramente fantasiava no diálogo em sua imaginação, a encontrar um senhor de seus 70 e poucos anos, mestre em ourivesaria e historiador especializado em objetos de madeira do século passado. Esse seria o melhor cenário possível para a sua alma.

Descrições esparsas da tarde em que esteve na orla do Guaíba: crianças andavam de roller perto do banco em que estava sentado. Uma mulher de regata branca e shorts muito floridos (flores amarelas e vermelhas e azuis) dava tapas no topo do crânio de seus dois filhos pequenos, se tivesse um açoite eles iam ver só. Seu tom de pele era bastante claro, quase amarelado como as polentas (num tom infinitamente mais suavizado). Aquela cena de violência materna intrigava-o porque incomodava-o. Incomodava-o muito sentir que a cada tapa a mãe regozijava-se de seu papel pedagógico. Sua mão vibrava sobre a cabeça das duas pestes não com sonoridade, não apenas sonoridade: tinha um tesão em espancá-las daquela forma, gostava de sua arrogada posição de punidora, carrasca. Mãe carrasca.

Um vendedor de picolé aproximou-se dele: chicabom? “Que é bom é, mas eu num tem vintém”, pensou Elisandro, se sentindo o Oswald Andrade. Se não fosse tudo tão caótico na vida, dizia de si para si agora que via o vendedor partir, tudo seria perfeitamente ridículo, totalmente imbecil!

Desacompanhado foi, desacompanhado voltou. O ônibus Liberal era uma lata de sardinha esquecida dentro do estômago de um porco. Balançava o tempo inteiro e fedia. Nunca se importava, realmente, com essas indiadas, esses desconfortos urbanos. Pelo contrário: tinha certa tendência a aceitar a adversidade e procurar se adaptar amistosamente a ela. Inclusive, durante a trajetória, conversara com um vendedor de castanhas os mais variados tipos: “macadâmia sempre foi a minha favorita, é o melhor produto”. Seu signo era peixes e eis tudo o que ele poderia saber sobre suas conjunções astrológicas. Já Elisandro era de gêmeos, mercúrio em escorpião, vênus em virgem. Desajeitado no amor e déficit de atenção — mas agudeza, audácia intelectual, investigativa. Assim era Elisandro. Grande Elisandro!

À noite, colocara as fotos no google imagens — pesquisar por imagem. Apareceu um sem número de imagens, mas todos análogos, irmãos defeituosos, alguns com péssimo senso estético. Nos resultados de busca por links, sites, nada que falasse ou mostrasse aquela caixa específica: eram, em sua maioria, páginas da gringa sobre decorativos. Desistindo facilmente de continuar essa briga em seu primeiro dia como detetive, sem nunca esquecer a importância da guerra, Elisadro se perdeu em análises cada vez mais abstratas da caixa: mediu-a em tamanho (29cm por 11cm), em peso (1883g ou 1,883 kilogramas), em importância histórica (império persa ou invasão moura na península ibérica eram duas possibilidades), em importância semiótica (o que está oculto, guardado; os cavalos são animais livres, a liberdade dos prados, dos campos; o trabalho em alto relevo, ondulante, a sensualidade do que está escondido…), em tamanho novamente (28,7cm por 10,8cm), e assim vai. Era, entretanto, incapaz de abri-la. Queria e não queria, para falar a verdade. Talvez sua confusão o impedisse de girar a chave corretamente ou de intuir algum mecanismo que seja muito óbvio. Lembrou-se do grampo que Rebeca emprestou no outro dia e sentiu vontade de transar com alguém. Talvez a libido seja algo intenso e, portanto, esmaeça o senso de equilíbrio ou fineza do ser vivente, mas fato que suas mãos pareciam dotadas de uma vida ansiosa e aérea muito envolvente e o grampo não fez o menor estalido, parecia um brinquedo estúpido aos pés de Buda. A chave, não importava o quanto girasse ou a empurrasse, parecia um enfeite ainda mais grotesco que aquela caixa encerrada, provavelmente receptáculo de algum explosivo nuclear, prestes a detonar Porto Alegre ou, no mínimo, o Parcão. Por alguns minutos cogitou deixá-la mesmo na 24 de outubro.

No quarto dia Antônia entrava em sua casa, meia noite e pouca, hálito de cerveja, corpos suados. Bebeu um copão d’água e ofereceu outro. Ela aceitara de pronto. Os dois, sem dar um pior, beberam suas águas no branco infinito da cozinha.

Elisandro desligou a tevê. Passava um filme sobre uma baleia com comportamentos humanos, com emoções humanas. Vulgar e chato. Pôs uma música pelo ipod, aquelas doideiras psicodélicas. Ela só queria ouvir folk, a delicadeza rural do folk. Beberam um resto de vodka com limão e gelo e açúcar, dividiram uma ponta. Em seguida, no mais esculpido e indelével silêncio, beijaram-se sem voz, sem mãos. Os olhos dela sempre estavam fechados quando os dele abriam-se. Os dele sempre estavam fechados quando os dela abriam-se. Tiraram a roupa maquinalmente, com a eficiência de uma fábrica de automóveis: rápido, indolor, pragmático. O álcool adormecia a consciência para acordar os instintos, mas um instinto ainda mais primevo e superior gritava imagens na imaginação dela. O álcool adormecia a consciência para acordar os instintos, mas ele era puro instinto e seu pênis já estava ereto há uns quinze minutos. Seus corpos resvalavam com cuidado e maestria. Fizeram isso por oito anos, afinal (alguma coisa se aprende). Ele extasiava-se na escuridão de sua mente: estava dissolvido na ação, desintegrado. Buscava, para variar, aquela morte do eu, de Elisandro Soares. Tudo o que ele é, neste momento, são duas mãos segurando dois tornozelos e o movimento frenético, impensado e desmedido de seu quadril. Ela sentia um misto de dor e prazer e dor e prazer e dor. Tinha medo de deixar-se cair na inconsciência daquele ato, na leveza profunda daquele adormecimento. Olhava-o no rosto e via o rosto de um homem, nada mais. Quando olhava para o seu peito, via o que mais temia: cabelos entre os mamilos e entre os dois continentes peitorais: via seu corpo em frenesi, ser não pensante, sem luz. Ao cabo de mais vinte minutos ela estava fumando um cigarro, ele cansado demais para pôr a cueca. Não tomaram banho juntos naquela noite.

Esse cansaço e essa moleza na musculatura logo iriam terminar. Seus olhos estavam quase se fechando quando a voz de Antônia exclamou no outro canto: “por que tem um pano de prato aqui?”. Esquecera-se de mudar a posição da caixa desde a primeira ideia, que era naturalmente a única ideia que ele tentou executar. O fez com muita celeridade, muita rapidez. Sem pensar duas vezes. E a tática do pano de prato, onde estava bordado uma mamãe pato e seis patinhos amarelos, funcionara com terrível eficiência — contra ele mesmo!

Foi pelado mesmo até ela e tirou o pano de prato de suas mãos, meio constrangido. Era só um pano de pratos afinal.

- Por que colocar esse pano feio em cima do baú? Aliás, que legal esse baú. Gostei dele. Comprou quando?
- Comprei esses dias! Mas deixa ele aí quieto. Ainda preciso polir e não quero ter que limpar gordura de mãos dele. Não toca, tá?
- Por que? Que frescura… O que tu pôs ali dentro?
- Só umas fotos bestas de faculdade e da família, mas tu já viu elas… (meio tentando contornar, desinteressar)
- Affe, eu posso ver de novo. Tu nunca mostra essas coisas.
- Mas já te mostrei ué.

Meio se desvencilhando dele, o que não era nada difícil para ela, Antônia pegou a chave e enfiou de pronto na fechadura. Elisandro gelou e teve o sentimento de que um outro Elisandro se precipitava até Antônia, tirava a chave da mão dela, dava-lhe um murro no meio da cara enquanto dizia que ela devia respeitá-lo mais ou ela teria motivos para odiá-lo. Obviamente sua única reação foi a de se aproximar lentamente e pedir que ela parasse ou que, se não, ele iria confiscar o blusão de moletom que emprestara a ela. Ela não deu bola e a chave girou. Ele, num impulso totalmente primal, primata, agarrou com seus braços longos a caixa e a arrancou das mãos dela. Retirou a chave com força da fechadura, quase a arrebentando, e eles não se falaram até de manhã, onde uma luz matutina e cinzenta o acordava sozinho entre os quatro travesseiros.

O quinto dia foi o dia em que Elisandro, de folga e com certa probabilidade de anemia, localizou um chaveiro. O nome do chaveiro era André e André era o nome do chaveiro. Pronto. Não tinha cara de muitos amigos, esse tal André. Não tinha muitos amigos. Usava sempre o mesmo boné azul com uma pequena cruz de malta amarela no canto esquerdo (de quem o olha de frente).

- Traz ela aqui.

Foi tudo o que ele falou depois de toda uma explicação enrolada que Elisandro deu-lhe. Era sucinto, jeito antipático, veterano de guerra: sua barba rala e cinza parecia um dia chuvoso de outono. Elisandro não gostava da chuva e odiava voltar para casa com as meias molhadas. André tinha cara de poucos amigos. André não tinha amigos.

- Amanhã a gente vê.

É. Amanhã a gente vê.

À noite, depois de responder a mensagem de Antônia e a de Rebeca, Elisandro se via deitado com a caixa em seu colo, pensando em que tipo de movimento Antônia teria feito para abrir aquela caixa. E mais: por que reagira daquela forma tão abrupta, tão grosseira? Ressentia-se de todo o seu comportamento, sentia-se uma criança vulnerável em um lar adotivo. Nunca experimentara sequer de perto a realidade da adoção ou de uma criança que tivesse sido adotada, mas sentia-se órfão, por vezes, da compaixão que um dia sentiu por si mesmo e, desamparado desse amor independente, com ganas de libertar-se, sentiu foi pena, uma pena imensa e anojada de si mesmo. E, além de tudo, ele sequer era eleito a abrir aquela maldita urna. Por que Antônia conseguiu fazer isso tão tranquilamente, tão naturalmente? Rapidamente começou a enumerar para si mesmo a lista de todas as pessoas que conhecia e a impossível lista das que não conhecia ou jamais conheceria: todas elas, todas todas, e cada uma delas podia abrir aquele baú (como Antônia chamou. Jamais teria pensado nessa designação, pois baús, para ele, eram grandes caixas medievais onde se ocultavam corpos e tesouros). Todas as pessoas no mundo, de certo, conseguiam abrir a tampa daquela merda daquela caixa, e saber o que tinha dentro dela. Menos ele. Sempre menos ele! Grande Elisandro.

Por meio de alguns minutos, antes de dormir, resolveu tomar decisões bruscas, acertadas, drásticas: amanhã, às oito e meia, vou estar lá no seu André. Ele vai fazer uma nova chave pra mim, uma chave sem defeitos, que eu possa abrir com a minha mão! — dizia de si para si, com gana, com raiva. Brabo.

A outra decisão, muito menos temperamental, pelo contrário! frívola, fria, racional: se for uma bomba mesmo, vou tratar de fazer ela explodir amanhã mesmo. E vai ser no Parcão! Bando de corno.

Sexto dia: it’s raining men, aleluia. Ou então: i’m daaaancing in the rain. La la la. Ou então: chove chuva, chove sem parar. O despertador, depois de ser sabotado umas nove vezes, despertou às onze e trinta e dois. Corpo pesado, feito pedra. A caixa estava jogada aos pés da cama box, meio de cabeça para baixo. A chave devia estar embaixo do armário da cozinha (desde que ele a atirou para longe, tirada das mãos de Antônia, não se dignara a juntá-la dali). Olhou pelo vidro da janela, para fora. Fechou as persianas, os olhos doloridos daquela cegueira ofuscante e opaca ao mesmo tempo. Que luz mais ambígua! Tudo era ambíguo, até mesmo o umbigo, o próprio umbigo. Tirara o dia para escrever um poema sobre a chuva. A clínica não atendeu naquela tarde: os ventos tinham arrebentado as fontes de alimentação ali na rua ao lado, impondo a mais severa tênebra a toda a região.

Fumou mais. Um pouco de tudo. Assistiu o Feitiço do Tempo pela terceira vez, no Netflix. Preparara uma bandeja generosa de batatas sorriso. Seu interesse pela história ou procedência do fardo hercúleo de sua existência terrena, naqueles sete dias, esmaeceu de um jeito meio morno, meio blé. Não pensara em nada. Fumaça densa, vidros cerrados, dezoito e onze da noite. Clive Owen interpreta um médico cirurgião e as mensagens de Rebeca multiplicam-se no Tinder. Do Tinder para o Facebook. Do Facebook para o Whatsapp. Do whatsapp para as sms. Quem é que envia sms hoje em dia? Quem envia torpedos? Nada disso importa. Rebeca era dentista e fazia questão de pagar por cada obscenidade que descrevia para ele e só para ele.

Lá fora as calçadas eram rios sem peixe, a Foz do Iguaçu. Peraí: o que é uma foz mesmo?

O SÉTIMO DIA era o dia da verdade. Gostava do número sete, da palavra sete. Sétimo, para ele, lembrava seta, aljava, precisão. Sétimo Selo era o nome do filme que ele, Elisandro, mais gostava de arrogar ser seu favorito. Sobretudo, é também a hora de entrar no ringue, Elisandro. A madrugada do sétimo dia emendada com a finaleira do sexto emendara-o também em devaneios singulares, dos quais não se lembrava muito bem agora. Era sábado, dia em que pegaria firme no bar, onde todos os seus colegas lamentavam possível sífilis. Nos grupos de whatsapp, inclusive, lamentavam sua ausência, tanto na vida cotidiana quanto no próprio grupo. Mal sabiam eles que Elisandro era do tipo de silenciar por um ano cada um dos grupos. Barulhos constantes de mensagem atiçavam sua imaginação romântica, erótica. Oitenta por cento das vezes em que verificava, seu celular automaticamente fazia o download da imagem de uma boceta. De uns peitos. Uns peitões. De um anão transando com uma gorda em cima de um chevrolet. Uma porrada de imundície.

Agora que preparava o café às duas da tarde (em ponto!) e comia um pão com geleia de framboesa, começava a tentar rememorar todas as viagens que tivera na noite anterior. Agora que olhava para trás, percebia que sonhos também tinha assomado em sua inconsciência: persuadia-se de que esses sonhos tinham relação com o baú (agora só o chamava de baú). Inventava, em certa medida, que tivera sonhos com objetos cúbicos, retangulares, lisos, apolíneos. Sentia que pensava que lembrava de uns arqueiros montados em cavalos partas que o chamavam para a liberdade mórbida de suas setas. Devia estar rememorando que se lembrava de areia, muita areia. Queria escrever, mal o café aprontava. Puxou o computador, com a agilidade de uma criança, e abriu o txt. A página eletrônica, porém, não saía do branco. Queria inspiração, queria inspirar-se. Começou a estudar sobre as árvores, sobre a seiva elaborada e a seiva bruta. Estudou por cima os tipos de madeira: estava faminto de nomes, novos substantivos. Queria escrever algo que se intitulasse MADEIRA DE LEI. Jacarandá era uma palavra que excitava-o. Tinha essa sonoridade inteiramente vocálica, que o fazia pensar numa canoa despencando entre as rochas e resvalando em água doce. Já-Cá-Rãn-Dá. Queria algo que lhe desse alguma coisa. Logo seus instintos auto-críticos o fizeram lembrar que nada daquilo fazia real sentido e a simples ideia de que ele não passava de uma cobaia de algum experimento cognitivo o impelia a buscar na prosa o que não encontrara na poesia: a necessidade de expressar a inexistência de sentido.

Para expressar essa inexistência, entretanto, Elisandro carecia de mais releituras de Camus e de Sartre, únicos personagens do existencialismo que conhecia de vista. Tão logo abriu o pdf de O Mito de Sísifo, tão logo um gole morno de café foi dado de sua caneca, tão logo o longo cigarro tornou-se cinzas, veio à memória um de seus devaneios mais caros da noite anterior: a de que, certa vez, dissera a uma namorada que tivera, com o intuito de impressioná-la com a profundidade complexa de sua visão, que “minha alma é como duas almas, como dois irmãos gêmeos. Só que um se perdeu. Um deles está ausente. E a minha alma é como esse irmão que ficou, que sente uma saudade inconsciente e poderosa de sua outra metade, de seu irmão ausente. Por isso a minha alma é uma busca, uma eterna busca pelo que está ausente”. Escreveu exatamente assim, mas em versos. Voltou ao plano original da poesia, desistiu da prosa. Apagou. Reescreveu de outro jeito, os dedos batendo céleres no teclado, uma matilha de corredores quenianos. Releu. Sentiu um mal estar. Uma necessidade súbita de sair. Levou a caixa ao André. O André era o cara certo.

Vestiu-se com uma calça de brim, chinelos havaianas, camisa xadrez, casaco jeans. Sentia-se um junkie, um malucão, um “crazy”. E como se sentia com frequência um desajustado entre seus comparças, era visto frequentemente como um. Olhavam em seus olhos e diziam: cara de louco! Olha o Eli que doidão! Fumou muito ontem? Ele sabia disso. Elisandro Soares era, como diria o demônio mais ganancioso de Doistoiévski, um ser super consciente, com uma super lucidez sobre a cara de louco que tinha. Olheiras enfeitavam o carro chefe do seu rosto: seus olhos argutos, meio cerrados, seus dois olhos côr-de-avelã. Entrou pela terceira rua, à direita. Em duas quadras o André. Vai André. É tua André. É penta! — logo a torcida, em coro vibrante, murchava: “fechado”. Fechado para almoço, decerto. Acendeu um crivo e ficou ali com a caixa (voltara a ser caixa recentemente) de quase dois quilos no colo. Sol de rachar. Lamentava amargamente ter colocado roupas tão pesadas, mas jurara que estava frio. O frio sempre o apeteceu.

- Ó.

Uma hora e meia depois André apareceu, olhos pequenos e cinzentos como sua barba, aquele azul russo das geleiras. Ele simplesmente abriu e foi entrando, sem dizer mais palavra. Elisandro se levantou, depois de eliminar a quinta bituca. Entrou para meia hora depois sair, caixa na mão, segunda chave no bolso. 60 reais a menos na carteira. Serve débito? Débito só dessa vez. Não gosto quando me forçam a ter que usar essas máquinas. Só aceito dinheiro. André tinha realmente muito poucos amigos.

“A pressa é sempre inimiga da perfeição. A pressa é sempre inimiga da perfeição” — repetia mentalmente, enquanto entrava em casa banhado de suor. Esquecera-se de que poderia ter feito um simples teste com a chave lá mesmo e, caso não funcionasse, estando lá mesmo exigiria que seu trabalho fosse bem executado, tudo com muita educação e temperança. Elisandro Soares primeiro tirou a roupa com a mesma voracidade com que engolira uma bisnaguinha e bebera o resto de pepsi-cola. O sol penetrava entre as persianas, acalentava o reflexo das gotículas de água no box. Listras eretas, impecáveis, espalhavam-se pelo JK e transformavam aquele lugar num jogo de xadrez oriental. Pôs um calção, depois o desodorante. Estava pronto para fazer o teste, sim, no entanto não tinha mais a menor energia para refazer o trajeto e encarar o temperamento de André. Nunca mais queria ver aquele homem em toda a sua vida.

O momento antecessor ao teste final daquele sábado: sentiu um calafrio longo, longuíssimo. Se fosse uma bomba, a levaria até o Guaíba e que se explodam as ilhas. Ou levaria até a polícia, mas a polícia poderia prendê-lo sob suspeita de terrorismo “por que um cara normal, um bosta, como tu manteria um artefato bélico, militar, um explosivo, por dias dentro do teu armário? Quero que o sr. explique isso agora”. Não: precisava levar para longe, para um lugar desabitado, onde não houvesse nem os pássaros de testemunha quando ele marcasse o xis branco na terra, à moda dos piratas. Também existia o medo de encontrar algo tremendamente sensível e particular dentro daquela caixa, de ser alvo de uma experiência psicanalítica, de encontrar uma chupeta ou o livro infantil cuja história sua alma narra todas as noites, enquanto sonha. Tudo era delicado. Poderia ser um bando de fotografias de Antônia com algum cara. Um que outro. Poderia ser uma tentativa de destruí-lo. Vastidão semiótica de uma caixa: encerra o que está oculto, o que existe mas não está. O que está ausente. Proteção. Mistério. Furtividade. Segredo. Queria descobrir aquele segredo que pousara em sua vida de maneira tão assertiva e tão absurda. Girou a chave, no mesmo impulso deste fluxo de consciência, e em seu fundo teve uma visão terrível.

No fundo insondável da caixa, no fundo escuro e cego da caixa, tinha um abismo. Um abismo invisível e que, de alguma maneira, era ele mesmo. Não tinha nada ali: apenas um silêncio guardado. Apenas a epifania de que ali, dentro daquela caixa, jamais poderia haver qualquer outra coisa que não ele mesmo. Que não ele, ele e apenas ele. E explodiu.