“Talvez tenha sido uma criança quem pintou as nuvens de azul em seu caderno de colorir. Um analista tomaria este caderno em suas mãos com a mesma insensibilidade com que agora enrola o cigarro. No sossego de suas sandálias, da sua varanda fresca, do seu divórcio… Sim, ele tomaria este caderno em suas mãos e o enrolaria… Na órbita da lâmpada fluorescente, a obsessão de uma cigarra perdida se nutria de frustração. O analista não será o pai da criança, mas verá, com a riqueza de quem busca nas esfinges um pouco de poeira humana para assoprar, o rosto luminoso de sua mãe, um seio de céu líquido absorvendo uma casinha bidimensional onde mora uma família, córregos de leite e esperma — misturados, misturados. O céu impossível da página; a prata de uma pequena bacia onde o cordão de ouro sangrento foi esquecido.

As páginas desse caderno serão esquecidas. O apartamento tem poucos estofados; é difícil buscar um lugar confortável para se sentar. Outrora, sentar-se seria amargurar a espera. Hoje, essa mesma criança pesca o seu rosto fragmentado no reflexo de um aquário… Olhe! Os peixes parecem nadar atrás dos meus olhos, dentro de mim! Um peixe amarelinho tem cara de brinquedo. É o próprio brinquedo, alvo de fantasias grotescas, do proibido. Tirania: o menino tem guelras e está pronto para conquistar todos os mares. O gato come o peixinho, mastigando sua cartilagem de borracha, de massinha de modelar. A imaginação infantil atira os dedos no vidro; desenhos que parecem pinturas rupestres. Uma aquarela de gordura, de pele morta. O chão: um longo deleite cinza, romano — guarda pretoriana e um escudo frio contra as palavras, com rosto de anjo. Nas janelas, na luz ensurdecedora das lâmpadas, o Egeu vibra o silêncio das ruínas. Ninguém. Nos armários de toda a casa, roupas estupidamente bem dobradas. Um cheiro de nada, um rosto mineral espreitando o quarto como um espelhinho. Antigamente se podia reconhecer a vida pelo seu cheiro, na dobra amarrotada de uma manga, numa traça que se pisa de raiva. O chão: um deserto sem história, sem tempo. Branco como a luz de uma caixa virtual de texto, como o constrangimento de se estar descalço na rua. Súbito, uma sombra. As escadas não mostram-se. As portas estão sempre abertas, ninguém tem segredos para guardar atrás de uma fechadura, porque ninguém está lá. O paletó. Uma mão que acena, na esquina de dois corredores. Pensou que fosse alguém chegando, colocando a mão tipo “ô cheguei em casa”. Na cabeça de um manequim, o chapéu. Essas bocas pálidas, esses sorrisos plásticos. A lua, um halo na testa de um vulto que assoma no vidro. Coroa de folhas, uma grinalda sem espinhos para o nosso querido mártir. Uma solidão que não sintoniza, que não faz sentido. Música no repeat; um disco arranhado, que parece um iogue asfixiado, com a garganta na ponta de uma montanha. Golas sem pescoço; um temor da linguagem, de estalar os lábios. Bá bá bá, pá, pá… o espelho mente, mesmo quando pareces um macaco, um jabuti, um guri sem roupa. E aquele homem, que julgava entrar pela porta, não passava de uma gente morta, de um pedaço morto de cabideiro onde alguém esqueceu roupas de pai. As roupas estupidamente dobradas. A geladeira sem bilhetes, com um monte de telefones incompreensíveis. Nenhuma prova de matemática, nenhum recadinho na secretária. O vento está atordoado lá fora. Luas redondinhas de naftalina falam de permanência, eternidade. E as mesinhas baixas na sala, e as luzes sempre petrificantes no teto, e essas janelas travadas nos trincos de gaiola, esse meio-dia insuportável, sem sombra, onde os nossos tornozelos sempre se batem em alguma coisa que não esperava que a gente quisesse estar lá…” (datado de janeiro, 18)

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