O "kora" do Monte Kailash e o Brasil

Monte Kailash, Tibete

No final de 2006, fiz uma viagem de mochila pela Ásia. Foram quatro meses visitando diversos países e culturas em uma experiência inesquecível. O ponto alto da viagem foi a visita ao Monte Kailash, no Tibete, perto da fronteira tríplice com a Índia e o Nepal. O Monte Kailash é uma montanha sagrada para os hindus e budistas. Ele chama a atenção por ter uma forma quase perfeita de pirâmide e é considerado o “centro do universo” para os budistas e a “morada de Shiva” para os hindus. Nunca foi escalado, por respeito ao que ele representa. Como forma de reverência à montanha, os visitantes andam em sua volta, o que para os budistas é chamado de kora. Dizem que três koras são suficientes para acabar com os karmas de algumas vidas, enquanto 108 delas fazem com que a pessoa se ilumine. Não cheguei a tanto. Uma volta, de 52 km, já me pareceu suficiente, com suas nove horas diárias de caminhada por três dias, a uma altitude média de 4.800 metros e dez graus negativos de temperatura. Ao final de cada dia, parávamos para comer (pouco) e dormir (mal) em um dos monastérios que ficam ao redor da montanha sagrada. A viagem completa dura cerca de 15 dias, contando o tempo para chegar até a região a partir de Lhasa, a capital do Tibete.

O momento mais desafiador da travessia acontece no segundo dia. Em um determinado momento, ainda pela manhã, temos uma subida muito forte: de cerca de 5.000 metros para 5.600 metros de altitude em um espaço relativamente curto de tempo. Ou seja, uma verdadeira pirambeira, com metade do oxigênio disponível ao nível do mar. A cada cinco passos eu precisava parar para respirar e retomar o fôlego. Como se não fosse o suficiente, após essa subida, ainda tínhamos cerca de 6 horas a mais de caminhada adiante. Foi muito difícil para mim. Na tarde desse dia eu estava esgotado. Por muitos momentos pensei em desistir. A cada “esquina”, eu dizia para mim que, se não avistássemos o monastério naquele momento, iria parar e desistir. Acontece que, de fato, essa não era um alternativa nem um pouco viável. Durante a noite, a temperatura pode cair a menos 40 graus e ficar ao relento significaria morrer congelado. O jeito era tirar forças de onde era possível e impossível para chegar até o final da caminhada. Aos trancos e barrancos, consegui chegar ao monastério. Naquela noite, exausto, saí do quarto em um certo momento e olhei para o alto. O céu que vi foi o mais bonito da minha vida. Estrelas com uma nitidez e em uma quantidade tais que foi impossível não derramar lágrimas. E, no final dos três dias, a satisfação e a força que senti foram poucas vezes igualadas em outros momentos.

Lendo os noticiários, sofrendo com os efeitos da atual crise brasileira e, principalmente, ouvindo muitas pessoas pensando em desistir e em sair do Brasil, essa lembrança me veio à mente. Sinto que, nos âmbitos econômico e político, o Brasil está passando pelo segundo dia a tarde do kora do Kailash. Parece que não temos saída. Parece que não vale mais a pena apostar no país e, muitas vezes, temos vontade de sentar e desistir. Acontece que é exatamente nesse momento que precisamos aumentar o nosso comprometimento e esforço. A outra opção é sentar e esperar para congelar durante a noite. A única certeza é de que vai haver um amanhã e agora é a hora de decidir que tipo de amanhã queremos viver. Um futuro em que entregamos o país para essa força negativa que está construindo uma realidade triste ou um outro futuro em que os frutos dos nossos esforços e nossos investimentos em um mundo melhor começam a florescer e a fazer a diferença. Ao meu ver, não é hora de sermos vitimas das circunstâncias ou dos atos e escolhas de outros. É hora, sim, de tomar nosso futuro nas mãos e colocar nosso tempo e nosso dinheiro em realidades desejáveis e possíveis.

Um Brasil melhor não vai se materializar do nada. Tampouco algum efeito positivo vai vir de confrontar e reclamar. Isso é necessário, sim, mas não suficiente. É hora de arregaçar as mangas e aceitar nosso papel no grande esquema das coisas. Levantar, mesmo desanimado e cansado, para seguir caminhando, com a certeza de que fizemos o que estava ao nosso alcance e começar a materializar um melhor futuro para nossos filhos e netos. Não acho que vai ser fácil, mas não consigo enxergar nenhuma opção melhor do que essa.