Chutar ou não pro Gol?

Vítor Renck
Sep 1, 2018 · 5 min read

Sabe quando você tá numa encruzilhada e tem que tomar uma decisão?

Entre a justiça e a ética.

Qual você escolheria?

Aí vai mais um relato. Desta vez não tem final feliz.

22 de julho de 2018. III Etapa do Campeonato Baiano de Corrida de Orientação. 12 minutos tentando encontrar o primeiro prisma. Completamente perdido. Último colocado. “Mantém a calma Vítor!”. Foco. Rasgo mato. Sangue. Busco. Bato a cabeça como se não houvesse o amanhã em um tronco. Desmorono. Tudo preto. “Fica no chão, eu vou chamar ajuda”. Levanto. “Não, vai embora, você não pode perder tempo”. “Tá tudo bem?”. Sangue de novo. “Não sei”. Foco. Garra. Busco novamente. Primeiro colocado.

Comemoro. Depois de tudo o que passei nessa prova, colhia o fruto. A primeira colocação nessa etapa me colocava de novo em primeiro lugar no campeonato e de volta ao jogo. Mas aparentemente, o resultado não agradou muita gente. Aparentemente havia interesses escusos em me desclassificar.

Alguém lá no fundo bradou: “Mas ele está de bermuda e meião!”. A confusão se instalou. Uma verdadeira lambança seguiu. Aparentemente ninguém sabia as regras: diretor geral, árbitro da prova, assistente do árbitro, júri técnico, coordenadores de partida. Diretor geral convoca júri técnico. Júri técnico diz que diretor geral não tem que chamar júri técnico. Júri técnico diz que diretor geral tem que tomar uma decisão. Essa situação se repete por duas vezes seguidas. Todos leem a regra. Árbitro fala que minha bermuda está em conformidade. Diretor geral me desclassifica. Kafka ficaria orgulhoso.

Fui desclassificado por usar uma bermuda!

Pequeno detalhe: bermuda e meião esses que uso desde a minha primeira corrida de orientação, em 2015.

Ora, se minha vestimenta estava em desconformidade com as regras, por que então não me falaram isso antes de partir? Ou por que simplesmente não me impediram de partir? Ou então por que nesses 4 anos de corrida de orientação, os organizadores nunca haviam sequer chamado minha atenção por usar essa vestimenta?

Detalhe 2: todos os envolvidos, com exceção do árbitro (que é neutro), pertencem a equipes concorrentes.

Preciso falar mais alguma coisa?

Mas o que o vídeo acima tem a ver com esse relato desconexo?

Tudo.

Soa o apito final.

O jogador pega a bola nas mãos.

O apito veio da torcida.

O pênalti é marcado.

O adversário cobra.

Pra fora.

Deliberadamente.

Tantos outros casos similares na história do esporte.

Aquele corredor espanhol que teve a oportunidade de ficar em primeiro nos metros finais da corrida, mas não o fez. Ao invés disso, guiou seu adversário perdido para a linha de chegada. E tantos outros…

Acontece que tive a oportunidade de combater uma injustiça com outra. Um erro grotesco do montador do percurso colocou um prisma em um local totalmente deslocado do mapeado. Isso prejudicou não só a mim, mas a todos. Os atletas que se sentiram prejudicados pediram anulação do percurso em suas categorias. Era ganho de causa. Acontece que eu me senti extremamente prejudicado. Não por essa situação em si. Mas pela desclassificação, também grotesca.

O pedido de anulação da prova foi feito em meu nome. Como disse, era causa ganha. Isso faria com que todos da minha categoria recebessem a mesma pontuação do último colocado (com exceção de mim, claro, que fui desclassificado). Praticamente como se a III Etapa do Campeonato Baiano de Corrida de Orientação nunca tivesse acontecido. Da II Etapa direto para a IV. E diante da injustiça cometida comigo, eu colocava todos, do segundo colocado ao último, com a mesma pontuação.

Eu disse não!

Anulei o pedido.

Anulei porque tenho amor ao esporte.

Anulei porque acredito no fair play e no espírito esportivo.

Anulei porque tenho valores como a ética e a moral.

Anulei porque uma injustiça não deve justificar outra injustiça.

Que eu sofra sozinho essa desonestidade e não puna os outros. A prova deveria permanecer íntegra para que os meus companheiros de categoria (que por sinal pertencem a equipes concorrentes), que também lutaram muito pra chegar lá, tivessem seus méritos reconhecidos.

.

.

Desde que conheci a Orientação, há 4 anos, doo meu suor e sangue a esse esporte. Mais do que o resultado, mais do que o pódio, tinha um enorme prazer em competir. Trouxe muitas pessoas à Orientação, inclusive a senhora minha mãe, Neiva Renck, “atleta mais idosa” do certame, campeã logo na primeira corrida que participou.

Quando estava com a cabeça quente disse a todos em alto e bom som que não voltaria mais a competir orientação. Não me levaram a sério.

Talvez a maioria das pessoas que estivessem no meu lugar tomasse uma atitude diferente. Talvez essas pessoas fossem pra IV e próxima Etapa com raiva, dando o seu melhor. Eu sou diferente. Eu sempre dou o meu melhor. Eu não compactuo com injustiça. Eu não compactuo com deslealdade. E a partir do momento que não tenho mais prazer ao competir, a partir do momento que não ganha o melhor, a partir do momento que os resultados não são resolvidos dentro de campo e são amanhadas por umas poucas mãos, já não me atende mais.

Por esses motivos, eu, Vítor Renck, me retiro das corridas de orientação na Bahia.

A Federação Baiana de Orientação não me representa!

Já sei até o que vão dizer. “Não sabe perder”. Acontece que eu não perdi. Acontece que os mesmos que irão dizer isso, serão os mesmos responsáveis pelo golpe, ou que consentiram com ele. Vocês conseguiram conquistar com braço forte (ou mão de ferro), mas verás que um filho teu não foge à luta. Entendam isso como quiser.

Essa é uma carta em meu nome, e minha equipe nada tem a ver com ela.

Faço votos sinceros que esse esporte continue crescendo no Brasil, bem como se torne uma modalidade olímpica. Quem sabe assim o esporte chegue ao nível de seriedade que merece.

Se tem algo que eu aprendi com essa experiência, ela se resume a esta frase:

“A vida não é sobre metas, conquistas e linhas de chegada. É sobre quem você se tornou nessa caminhada.”

Eu chutei e continuarei chutando pra fora.

E você?

Vítor Renck

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