história cotidiana de uma sociedade doente e sexista

Ou uma jornada de autoconhecimento que segue

(TW- gatilho de: abuso infantil)

Tive a minha primeira crise de depressão aos 12 bem na época em que me apaixonei pela primeira vez. Desde lá não entendia porque todos os seguintes momentos que me levariam a acessar o amor ou o prazer e intimidade me amedrontavam, ou assustavam. Procurei terapia pela primeira vez com 19 e até então ouvia dos meus pais que depressão não existia, que “eu tinha tudo, porque ainda queria mais? Por que não podia só ficar feliz?”. De lá até agora, com 25 anos, fui descobrindo casos seguidos de repressão do meu próprio ser e modo de existir, machismo, lesbofobia, violência gratuita. Foram camadas e mais camadas que cederam e ainda cedem.

Ano passado eu fiz 24 anos e no meu aniversário raspei a cabeça. Pela ideia de renovar e retirar os cabelos, que pra mim representa abertura do chacra coronário, conexão direta com o divino e a luz. Foi também um “não” inicial, a tudo o que me ensinaram ser de menina. Desde a mesma data parei de tomar antidepressivo e fui a procura de formas alternativas de medicina. 
Já conhecia acupuntura, mas acessei massagens, aromaterapia, reiki, entendi a preciosidade da maconha. Que me abriu para diversas outras percepções, como a busca espiritual e por fim: o tantra, que é justamente um estudo da energia sexual.

Felizmente no meu caminho apareceram diversas mulheres sábias e muito fortes, curandeiras, mestras, bruxas, terapeutas. Todas compartilhavam as mesmas feridas, o mesmo sagrado invadido e desrespeitado. Todas vivem e passaram por esse recente sistema desumanizado de educação e de sociedade, passaram por seguidas gerações de mulheres oprimidas, violentadas, silenciadas. E todas resistiram e continuam resistindo da maneira como podem.

Com uma terapia chamada Brainspotting acessei uma das maiores supressões que aconteceram comigo: a minha primeira violência sexual. E isso foi um abuso aos três anos de idade, por parte do meu avô. A minha inocência, a minha liberdade, a minha capacidade de identificar o limite entre o outro e eu, de entender que afeto e violência são duas coisas opostas e não parte de um mesmo pacote, enfim, foram modificadas por esse acontecimento.

Mas com três anos de idade minhas orelhas já estavam furadas, minhas roupas eram rosa cor de bebê e toda a trajetória da minha vida já se baseava em um primeiro fato de condição social: eu sou mulher. Disso me vem que preciso me desprogramar, disso me vem a já condenação, ou necessidade de resistência contínua. E me vem a força para continuar respirando, sendo muito sapatão e me desconstruindo passinho por passinho.

Fora olhar para cada camada que cede, a gente só vai conseguir mudar a forma como tudo é direcionado se a proposta for modificar a si primeiramente, o todo é só um reflexo da parte e versa vice - vice versa. Nossa forma de pensar, nossa forma de comunicação, relação com a natureza e tudo o que é sagrado reflete a nossa existência. É agora o tempo de curar, de reconectar, de resistir e gerar transformação. Nós estamos doentes, mas juntas nós somos mais fortes e nos curamos. A minha dor não é maior que a sua, nós não precisamos competir e, a partir disso, podemos nos transformar, destruindo um dos pilares que compõe a base da nossa opressão e que é a ideia de competição ou disputa entre mulheres pelo que quer que seja.

Foi um processo dolorido e ainda é, mas aprendi por enquanto que o amor — especialmente o amor próprio — cura e a união verdadeira entre mulheres liberta. Que estar só é também necessário quando se sangra pelos cortes finos das violências sofridas desde que nasci.

(https://the-veda.deviantart.com/favourites/55833966/Kali)

Aprendi a admirar a minha revolta e a reverenciar a minha raiva, muito justificada, para assim usá-la como força de ação. Mais importante de tudo foi que aprendi a respeitar meus lamentos, esses verdadeiros, que deixaram marcas e moldaram toda a minha vida e forma de me relacionar com meu corpo, com a afetividade de um modo geral, com o sexo e o que ele representa. Sinto meu cérebro com menos bloqueios energéticos, sinto meu corpo com menos tensões, sinto a vida voltando a fluir em mim.

Rebele-se também, mergulhar nas profundezas do que somos é um ato de coragem e rebeldia quando esperam que os retalhos nunca sejam emendados. Reconheço hoje minhas dores e dessa forma sigo mais consciente para agir na parte que me cabe do mundo. E falar. Para todas que puderem ouvir que elas não estão sozinhas e que essas feridas cicatrizam.