V DE VINGANÇA E A ICÔNICA IMAGEM NOS MOVIMENTOS DE PROTESTO

A Simbologia da Máscara de Guy Fawkes

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo abordar a influência da imagem do anti-herói de “V de Vingança” (série de história em quadrinhos e também produção cinematográfica) em protestos ao redor do mundo. A abordagem será feita através do estudo da simbologia da máscara, análises do protagonista V e da inspiração Guy Fawkes, e a relação com a Teoria da Reprodutibilidade Técnica, de Walter Benjamin. A partir dos estudos feitos, o trabalho irá debater a força com a qual essa imagem está sendo utilizada, dependendo de seu cenário.

PALAVRAS-CHAVE: imagem; influência; revolução; história em quadrinhos; reprodutibilidade.

A máscara inspirada no rosto de Guy Fawkes vem sido utilizada com mais frequência em greves, movimentos e manifestações na última década. Fawkes foi um soldado católico que participou da Conspiração da Pólvora em 1605, com o objetivo de assassinar o rei protestante Jaime I. Seu rosto tornou-se mais conhecido após o lançamento de “V de Vingança” na década de 80. Alan Moore e David Lloyd utilizaram Guy como modelo para V — o protagonista da história — em muitas formas, sendo as mais notáveis a máscara e a tentativa de explosão o parlamento inglês (inspirada na principal ação da conspiração, que também planejava explodir o parlamento. Em ambas histórias a tentativa não é falha).

A figura do anti-herói foi notada pelo mundo e aplicada em inúmeras convenções após a produção cinematográfica lançada em 2006. Logo foi ganhando outros significados e acabou se tornando um símbolo de revolução. No Brasil, durante as Jornadas de Junho em 2013, quando o país inteiro pode contemplar e participar das manifestações contra o aumento do passe de transporte, a máscara foi um signo da revolta de cada um em relação à situação política atual da época. Também houve a transmutação “V de Vinagre”, ideia que surgiu logo após a prisão de manifestantes que carregavam a substância para abastar os efeitos do gás lacrimogênio.

Partindo das análises de imagens, protestos, manifestações e outros, o presente trabalho irá discutir a representação da máscara de V nestas cenas. O objetivo do artigo é discutir como essa representação se mantém atualmente, porque se mantém e quais são as influências de seus utilizadores.

O trabalho também tem como foco fazer a relação do ícone de V com a teoria da reprodutibilidade, de Walter Benjamin. A imagem de V/Guy Fawkes tem sido explorada em muitos contextos e o artigo abordará essa sensação de uso em excesso, o que compromete ou não a força da visualização do anti-herói e revolucionário.

Figura 1: Adolescentes carregam o cartaz “V de Vinagre” durante protesto em São Paulo — Imagem retirada da reportagem do site Folha de São Paulo
  1. AS SIMBOLOGIAS DA MÁSCARA

A imagem de Fawkes junto à máscara de V tornou-se um símbolo da insatisfação e indignação social, sendo posta à frente de ações governamentais, de grandes corporações e do sistema financeiro. É uma representação múltipla, apropriada por vários grupos, que assume incontáveis significados e faz com que seja possível ter uma infinidade de interpretações. Muitos dos usuários da máscara podem até mesmo não saber, mas a apropriação dela é uma releitura de um fato histórico, que traduz ideais de revolta contra o sistema. É agora um elemento que intermidiático, que assimila sentimentos do passado com o descontentamento do presente e a possibilidade de transformação para o futuro.

Além da questão política, um dos símbolos mais fortes da máscara é em relação à ganância corporativa; é basicamente um ícone de anticorporações, mesmo com os valores das máscaras compradas sendo direcionados à empresa Time Warner, responsável pelos direitos autorais de “V de Vingança”. O uso da máscara também se relaciona com a intenção de revolução, à favor de novas ideias, da liberdade e contra qualquer tipo de tirania. O desejo de ter um mundo melhor e mais justo, tendo espaço para novas ideias também está conectado ao signo.

1.1 GUY FAWKES

Guy, a maior inspiração para a criação de V, foi um inglês católico que participava de um grupo religioso que desejava restaurar o poder da igreja na Inglaterra. O objeto do grupo era explodir o Parlamento Britânico, assassinando o rei Jaime I e aproveitando o caos para dar início ao levante católico. Essa conspiração ocorria devido à perseguições cruéis aos católicos comandadas pelo rei. Existia também certa divergência do povo com a origem escocesa de Jaime I. Fawkes era responsável por guardar os barris com pólvora que iriam ser usados na explosão. A Conspiração da Pólvora foi descoberta em 5 de novembro de 1605 e Guy foi preso, torturado e condenado à morte.

A figura dele foi vista de várias formas; terrorista por um lado, revolucionário por outro. Aos olhos britânicos ele é visto como um traidor, mas a escolha inspiracional dos criadores não foi receosa. Foi essa dualidade retirada de Fawkes que tornou V um anti-herói; ele não é perfeito, ele toma decisões extremas e acima de tudo, ele é humano. E quanto mais próximos da realidade, mais nos conectamos a esses personagens. E, mesmo visto com maus olhos por alguns, V é, indubitavelmente, a representação da luta da sociedade contra o totalitarismo e qualquer sistema opressor, sejam governos ou instituições.

1.2 USUÁRIOS DA MÁSCARA E O ANONYMOUS

Assim como citado anteriormente, V de Vingança alcançou um público muito amplo após o lançamento do filme, que conseguiu uma arrecadação de mais de 130 milhões de dólares. (IMDB, 2013). Não foi muito tempo depois que além dos movimentos de protesto, organizações começaram à adotar a imagem de Guy Fawkes. Uma das mais famosas é o Anonymous, um grupo de ativistas que querem liberdade e democracia, tanto no mundo online quanto no off-line, e buscam isso através de ações que façam com que as pessoas sejam incentivadas à lutarem por interesses coletivos. Eles também são considerados uma legião, e funcionam como unidade.

Além disso, temos os próprios manifestantes, de protestos que ocorrem todos os dias e que permanecem utilizando a imagem de Guy e V. O fato de que a máscara trás o anonimato da pessoa é pertinente; as mídias acabaram desenvolvendo uma realidade generalizada da circulação de conteúdo e informação. A apropriação da imagem e a ideia do uso de uma máscara favorece os falsos protestos ou protestos anônimos.

Não só online e através das redes sociais, o anonimato durante os protestos pelo uso de uma máscara permite que alguém manifeste seus ideais e preserve sua identidade. Isso dificulta as possibilidades de repressão policial. Existe um caráter extremamente dialético sobre, mas foi usado em diferentes contextos de revolta. Além do Brasil, esteve presente em grandes manifestações da Tunísia, Espanha, Islândia, Egito e Estados Unidos.

Alan Moore chegou a comentar que estava acostumado a ter criações infiltradas no mundo real e que quando estava na etapa de produção da história, ele imaginava que seria incrível se essas ideias tivessem impacto. Hoje ele sente que o personagem criado há tantos anos já “escapou” do mundo da ficção. (O GLOBO, 2011).

David Lloyd, o desenhista da história em quadrinhos, também falou sobre o assunto:

“A máscara de Guy Fawkes tornou-se uma marca, um cartaz conveniente para ser usado em protestos contra a tirania. […] Fico feliz com seu uso pelas pessoas, parece uma coisa única, um símbolo da cultura popular sendo usado dessa forma”. 
 (LLOYD, 2011)
  1. REPRODUTIBILIDADE DA IMAGEM E A CONTINUIDADE DE V

O ícone de Fawkes vem sido utilizado há mais de anos de maneira incessável por seus usuários. De acordo com a teoria da Reprodutibilidade Técnica de Walter Benjamin, a obra de arte já é algo por si só reprodutível. A imitação é sempre possível, e o que os que imitam e reproduzem obras de arte visam apenas o lucro que ganharão. (BENJAMIN, 1955).

Além disso, o autor da teoria também acredita que acontece uma desvalorização da peça criada após sua reprodução contínua. Ele se refere isso falando sobre a “aura da obra de arte”, que seria sua autenticidade. A partir da criação de outras peças semelhantes, a primeira acaba sendo prejudicada, e seu significado é abalado. Com a “atualização” na cópia, o primeiro fundamento, o princípio original vai sendo deturpado com suas outras versões.

Entretanto, a imagem de Guy e V é utilizada de inúmeros jeitos e ainda se relaciona com um mesmo conceito e não perdeu sua força. Revolta, justiça, direitos iguais, luta contra tirania, grandes corporações e etc. Ela se mantém em uma linha singular, e continua sendo vista com admiração e usada da mesma forma.

Uma das perdas de significado é quando os usuários não sabem de onde ela vem e a usam mesmo assim. Isso se relaciona com o fator de massa que envolve a reprodutibilidade, que visa alcançar públicos maiores e proporcionar a facilidade de tornar as coisas mais próximas aos indivíduos. Acredito que esse é um dos únicos pontos que se encaixam com as questões negativas da teoria de Benjamin, além da popularização de V de Vingança ter acontecido apenas com a produção do filme. Também é relevante lembrar que a força que o rosto de Fawkes mantém após décadas demonstra a malealidade da cultura e tradições populares.

3. PROTESTOS

Essa figura foi ampliada de uma forma tão abrangente que é difícil não encontrá-la sendo reproduzida em qualquer movimento atual. Ela surgiu pela primeira vez no “Ocuppy Wall Street” de Londres e Nova Iorque, protesto que tem o objetivo de dar fim à ganância corporativa, criado em 2011.

Foi criada também a “Marcha dos Milhões de Máscaras” que ocorre junto à “Noite de Guy Fawkes”, 5 de novembro e continua acontecendo há alguns anos. O Anonymous foi indicado como inventor do movimento, mas eles são apenas parte do movimento. Não existe hora ou local, a única instrução é sair às ruas. Esse dia é considerado mundial de resistência e rebelião contra a corrupção e tirania.

O rosto de Fawkes também apareceu na “Primavera Árabe”, em 2011, que foi o conjunto de manifestações que ocorreram contra os governos árabes da época.

Figura 2: Manifestantes ao redor do mundo utilizando a máscara de Fawkes/V — BBC News
Figura 3: Manifestantes assumem o centro da cidade em Viena — Daily Mail

3.1 NO BRASIL

Os protestos que eclodiram no Brasil em 2013 tiveram início devido ao aumento de passagens de trem, ônibus e metrô e depois dessas manifestações, muitas cidades tiveram redução dos valores. Entre as muitas formas de expressão usadas pelos manifestantes, incluindo a máscara de V. Após a revogação do aumento, além de “V de Vinagre”, houve mais uma transmutação: V de Vitória.

Figura 4: Máscaras do V sendo vendidas por ambulantes em São Paulo. — Terra

Além de 2013, a máscara continua sendo utilizada em protestos recentes, como o “Fora Temer” e outros, não tão divulgados pela mídia.

Figuras 5 e 6: Manifestantes durante os protestos contra o aumento da passagem de ônibus em 2013 — Terra
  1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Um símbolo de revolta, de busca por justiça, de insatisfação com o governo, Guy e V influenciaram uma geração, que tem a vontade do bem. A imagem deles se tornou um ícone após a reprodução de massa do cinema, o que é um tanto dialético na situação em si. Entretanto, se esse ponto negativo da Teoria da Reprodutibilidade Técnica não houvesse acontecido, a probabilidade de que a figura não tivesse ganho as proporções de conhecimento que tem hoje seria alta. O público que consome histórias em quadrinhos no papel não é muito vasto, e grande maioria já consome estas de forma digital.

A imagem de um terrorista britânico foi atualizada para a de um líder anarquista, revolucionário. Ela circula pelo mundo graças à um dos malefícios capitalistas, mas com sua vantagem. V se tornou um ideal para muitos, e modelo para outros. É graças à todos esses infortúnios e fortúnios, que esse conceito acabou tomando conta de tantos movimentos pelo mundo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LLOYD, David; MOORE, Alan. V de Vingança.
São Paulo: Panini Brasil, 1 edição, 2012.­­

FINOTTI, Ivan. V de Vingança: Máscara usada em protestos foi criada em quadrinhos dos anos 1980.
São Paulo: Folha Uol, 2013.
Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2013/06/1299052-v-de-vinganca-mascara-usada-em-protestos-foi-criada-em-quadrinhos-dos-anos-1980.shtml

NOGUEIRA, Paulo. Quem é o homem por trás da máscara que está nos protestos do Brasil.

Diário do Centro do Mundo, 2013.
Disponível em: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/como-guy-fawkes-se-transformou-de-vilao-em-simbolo-da-liberdade-e-da-justica/

FRASER, Antonia. A Conspiração da Pólvora (The Gunpowder Plot: Terror & Faith in 1605).
Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

PAYÃO, Felipe. Entrevista com Anonymous: o que eles querem, fazem e o que são OPs?
TecMundo, 2015.
Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/polemica/91540-anonymous-brasil-ops-eles-querem-o-que-eles.htm

Alan Moore comenta máscara de “V de Vingança” em protestos.
O Globo, 2011.
Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/alan-moore-comenta-mascara-de-de-vinganca-em-protestos-3339498

WAITES, Rosie. Máscara inspirada em personagem histórico inglês é adotada por manifestantes. 
BBC Brasil, 2011.
Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2011/10/111020_mascara_protestos_mv.shtml

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua Reprodutibilidade Técnica. Porto Alegre: Editora Zouk, 2012.