Criatura n. 0657604808871780¹²³

Oi

Ele não queria sair do casulo do edredom, onde digladiava com todos os seus demônios no aconchegante calor de uma roupa de cama macia e cheirosa, que nos piores momentos ele considerava a antecâmara do fim eternal.

Ele não conseguia dormir, e a perturbação do espírito era tão forte que ele tinha medo de levantar e deslocar-se para a varanda, onde fatalmente sentiria o gélido, misterioso e convidativo ar da madrugada, que sempre despertava nele - talvez por um primitivo resquício evolutivo de ave — uma vontade de desbravar o éter, sentir o gosto do vento num voo reconfortante e fatal, desprovido de asa e bom senso.

(Mas eu estou a observar esse jovem, na minha confortável condição de deus. Posso fazê-lo feliz e dar-lhe, depois de dias de angústia, um sono profundo e reparador. Mas por qual razão farei isso? Meu poder é o Verbo com ele posso mudar a condição de qualquer coisa que crio, e a criação desse personagem me causa prazer devido a força de suas emoções, da imprevisibilidade do olhar que ele carrega, da diversidade das questões que o afligem… confesso, meu lado sádico se satisfaz com isso. Meu lado cruel se compraz com essas pequenas desgraças do cotidiano. Não estou imune à escravidão dos desejos só porquê sou deus, ora essa. Para o meu deleite, mãos à obra!)

O jovem pega o celular e procura o perfil de uma ex-namorada numa rede social em busca de alguma novidade. O que interessa para ele não é o teor da postagem, mas sim a necessidade de saber que ela está viva e interagindo com alguma coisa. O interesse por ela não é motivado pelo ciúme, por isso, ele não se importaria em ver ela ao lado de outro homem. O que ele sente é uma preocupação genuína, inerente à um amor puro que por razões extremamente complexas ele renunciou, para seu alívio e desgraça. Ele só queria saber se ela estava feliz, mas a última postagem tinha 2 anos e aquilo deixou um hiato em seu coração insone).

4 da manhã e ele se levanta. Enche a taça de vinho e bebe como se acabasse de receber água no deserto. Hora complicada para começar a beber, mas bateu o desespero. Quer viver, mas sem dormir não é possível continuar. Não se vive sem pequenas doses de esquecimento. Bebe mais uma taça. E mais outra. Esvazia a garrafa e sente a ambicionada tontura alcoólica. Sorri, mas não consegue chorar. Chegou naquela altura da vida que a descrença o impede de verter lágrimas de autocomiseração (Não sem plateia). Vomita. Volta para cama. Olha para o teto e no escuro parece ver num voo circular o “morcego do poeta”.

(Canalhinha interessante, me orgulho dele hehe Eu construí um ser com profundas capilaridades, e apesar de olhar para o conjunto das minhas criaturas e me entendiar com o clichê das emoções básicas reunidas, é interessante tirar uma amostra e desbravar as particularidades daquilo que olhando a grosso modo é banal. Vou trabalhar mais nele. Vou espezinhá-lo. Vou esticar a corda até o máximo da tensão. Quem nunca se divertiu com uma formiga tentando se salvar na água de um vaso sanitário? Ah, não me recriminem, demais deuses. Eu sei o que realmente diverte cada um de vocês! Eu sei!)

A madrugada é terrível para mentes inventivas. As conjecturas da insanidade são incrivelmente bem elaboradas. O jovem tenta aquietar o self com o truque oriental da meditação. Ele até consegue um alívio passageiro na inspiração, mas no break antes da expiração, com os pulmões cheios de vida invisível, ele recomeça a ligar as pontas da sua intrincada neurose. Ele é viciado nisso. É isso que o faz sofrer, mas também é isso que o faz viver. Ele precisa forjar para si uma história que faça sentido, um história que o faça sentir-se um herói. Por isso apela para a hipocondria, para a mania de perseguição, para o diálogo histriônico no espelho. Monta um enredo trágico, insere-se nele e depois finge ser um guerreiro da vida. Tudo no anonimato de uma trajetória estéril. Mas por hoje, chega. A claridade que invade o buraco da persiana decreta: “acorde desse sono insone, moleque. Acorda pra vida real, seu merdinha!”.

O sol brilhou mais uma vez. E há de brilhar, sempre.

(O babaca vai para o trabalho com uma olheira horrível, e tentará disfarçar sua dor com uma cordialidade fingida e uma ironia cortante. Eu adoro essa sofisticação hehe. Eu sou o máximo! Olha só, nesse coitado eu caprichei tanto que ele sequer acredita que eu existo. Ele não acredita que estou aqui mexendo os pauzinhos da vidinha miserável que ele leva. Mas eu gosto é desses, os crédulos me entendiam com suas resignações rasas. É, eu erro na mão quase sempre, tenho preguiça de moldar a maioria. Mas depois termino essa história. Estou borbulhando de ideias que se encaixam melhor em outras circunstâncias, ou melhor, em outas criaturas. Vou dar corda nesse e deixá-lo no automático até eu enjoar de outro e voltar nele. Au revoir!

Diário de deus em 00/00/0000
Criatura n. 065760480887178⁰¹²³.)