Aleksei Maksimovich Peshkov (Máximo Gorki)

Três meses com Gorki

A Arte envia seus profetas e nós devemos glorificá-los.

Eu tenho dificuldade de ler bons livros rapidamente. Admiro aqueles que extasiados diante de uma bela obra a consomem em volição incontrolável. Sou mais fleumático nessa questão. Capítulos escritos com maestria precisam ser vivenciados com calma, reflexividade, paixão, entrega. Sei que tal condição requer do espírito uma maleabilidade perigosa, já que nem todos possuem o mesmo nível de resiliência. Nessa questão, confesso que embarcando nessas viagens literárias muitas vezes tive dificuldade de voltar ao porto seguro. Mas sou atraído por esse perigo e o intensifico lendo vários livros de uma vez, lentamente, deixando que uma nova perspectiva faça a impressão anterior envelhecer dentro do barril ígneo das experiências pessoais, trocando com ela elementos que enriquecerão a solução original, tornando-a única. E assim vou me promiscuindo entre uma mente e outra.

Cada livro da trilogia de Gorki me custou um mês. No período que li esta obra terminei a leitura de outros seis livros. Por coincidência ou erro de seleção, nenhum dos outros livros rivalizou (talvez por minha culpa, falarei disso) em profundidade com a autobiografia do russo, tornando a leitura cada vez mais prazerosa, sensitiva e consequentemente, lenta. Pequenos parágrafos me colocavam em transe, então era necessário fechar o livro e meditar profundamente sobre aquilo. Era preciso sentir as nuances. Não se degusta um bom charuto com pressa, exposto ao vento forte e sorvendo bebida reles. O Sublime é uma dama que só irá revelar seus encantos após ser cortejada com cuidado, inteligência e devoção. Grandes experiências sensitivas requerem contrapartidas extremas e não me furtei em oferecer meu melhor para compreender aquele violento mundo de ternura.

Mas algo aconteceu logo no início da leitura, e isso por vezes acontece com esse pobre diabo, ressentido com a Vida que lhe negou o talento. Quando me dei conta da grandeza da obra senti o despeito vil daquele cuja a existência inevitavelmente passará em branco e que, para sua maior desgraça, ainda é açoitado por um orgulho doentio. A verdade é que quando um “escritor” completamente frustrado como eu se depara com o BELO pelas mãos de um estranho, irrompe na alma um sentimento de angústia oriundo da impotência. Senti a necessidade de colocar aquilo a prova para saber se havia ali realmente valor. Com as armas que tinha em mãos tentei alvejar mortalmente aquele filho da mãe russo usando a artilharia alheia. Passei a ler outros livros como tentativa demente de esquecê-lo, queria um distanciamento daquela SUPERIORIDADE que me angustiava e deixei de lado o uso correto da harmonia literária ao fazer mal uso de boas ferramentas numa empreitada ignóbil. Que piada, nenhum dos projéteis lançados acertaram mortalmente o alvo. Nem a bala cravada no peito de Gorki pelo próprio alcançou esse feito, quem dirá eu! Sempre que voltava para aquelas páginas carregadas de “desespero russo” eu deixava mais o “russo” de lado e me deparava mais com o “humano”, afinal, a característica de uma grande obra de arte é ser universal, e Gorki assim o fez. Tive que me render e cair de joelhos diante do Talento, que é a sina de todo ser humano.

Três meses se passaram e a viagem acabou. A Trilogia foi consumida, digerida e agora estou revigorado com os nutrientes que dela extraí. O gosto foi majoritariamente amargo, mas qual criança gosta de Jiló? O ser humano é bem clichê, suas motivações são muito previsíveis, assim como suas angústias, e no decorrer da vida é que vamos (uma minoria, ok) tomando ciência de como somos chinfrim apesar dessa excessiva autoconsciência que tenta nos convencer do contrário. Na Trilogia de Gorki vemos claramente as motivações do servil, do conservador, do liberal, do religioso, do amante, do suicida, do idealista. Vemos que regionalizar certos comportamentos tão inerentes ao bicho homem é um grande sinal de ignorância, já que a luta entre o humano e o animal no palco escarlate do espírito produz o mesmo espetáculo — geralmente horrendo — em todas as partes do globo.

Ah, mas felizmente ainda temos a ARTE - essa sim a deusa salvadora dos homens - que por meio dos seus profetas se encarrega de juntar elementos tão banais e transformar em coisas profundas para nos encantar e tornar a existência menos indigna. Gorki foi um gênio, um profeta da ARTE, talhado com severidade pela Vida e vencedor, como um verdadeiro enviado divino que milagrosamente é capaz de superar tudo, até a morte. Agora estamos aqui quase um século depois sentindo suas emoções e glorificando sua missão. Três meses com Gorki… Me desculpe o pastor, o padre, o padeiro, o político, o médico, o engenheiro, o advogado, Jesus, Shiva, Jeová ou qualquer outro exemplar humano (ou não) do mundo físico (ou imaginário) que porventura é digno de louvor, agradecimento ou adoração… O POETA é o maior de todos. Obrigado, Gorki.

Trilogia Autobiográfica — Gorki