Bom dia

Sentado no primeiro banco do ônibus, logo atrás do motorista, me esforço para devolver o bilhete único ao bolso de trás da bermuda, enquanto seguro Vicente em meu colo e tento colocar a mochila em um lugar em que não atrapalhe muito — além de um pouco mais vazio, passei a admirar outras benesses de estar próximo ao ponto de partida do ônibus, tal como o fato de poder fazer tudo com ele absolutamente parado (algo que, depois de me tornar pai comecei a apreciar muito).

Terminada a manobra, não demorou muito e o ônibus iniciou seu percurso.

Bastante falante, o motorista conversava com a cobradora sobre trivialidades da garagem, num tom que, para ultrapassar o barulho do motor, se fazia bem (mais beeeem) audível… Vicente olhava para sua nuca, através do vidro, com muita atenção. Nunca tinha visto uma cabeça sem boca com tamanha capacidade vocal.

Passávamos ali pelo segundo ou terceiro ponto da Rua Faustolo. Depois da entrada de quatro passageiros, que passaram rapidamente, um homem enfiou a cabeça pela porta e disse:

— Este ônibus vai para a região da Paulista?

Apoiando o braço direito sobre a barra de ferro que o separa do corredor, o motorista respondeu apenas:

— Bom dia!

— Vai para a região da Paulista?

— Bom dia!

— PAU-LIS-TA! Vai pra Paulista?

— BOM DI-A!

Percebendo tardiamente o que se passava, o homem balbuciou:

— Oi. Tudo bem?

E recebeu de volta um:

— Tudo bem! Olha… Este aqui não passa, mas pega o Paraíso quem vem vindo logo aí atrás. Boa sorte.

Nos segundos que separaram o fechamento da porta e a partida do ônibus uma expressão desconfortável fixou-se em seu rosto. Só não sei se o que a causou o desconforto foi a educação irônica do motorista, ou a sua falta de educação acidental.

Olhei para o Vicente para perguntar o que ele achava, mas ele seguia de olhos fixos na nuca falante… Rindo como se entendesse muito bem o que tinha acabado de acontecer.

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