Nos dias atuais, saber dialogar é arte

Em tempos de lado A lado B ideológico, fica difícil extrair consistência nos debates. Não tenho muito o que falar sobre a menina do turbante. Sou homem, não tenho ligação com religiões africanas, nem sofro nenhum tipo de doença da gravidade da protagonista de toda polêmica. Teve textão (inclusive de amiguinhos completamente fora do lugar de fala), tuite, memes e uma série de formas de desqualificar o debate. Algo que, no fim das contas, serve a um propósito específico: menosprezar as agendas levantadas pelos movimentos sociais.

Afastando-me (detesto ênclises) um pouco do episódio citado, o que se viu foi o comportamento de sempre, pessoas criminalizando os movimentos pela falta de sensibilidade ou de noção mesmo, sem ao menos pensar nos desafios enfrentados pelos militantes e que tipo de violência eles sofreram. Vivemos numa estrutura social de poder que se apropria de comportamentos e culturas transformando-os em combustível para a movimentação do capital. Assim, qualquer traço de individualidade real ou de resistência deve ser perdido. As estratégias são simples: levante de dadas agendas por celebridades, produtos midiáticos, saturação dos assuntos através de visões viciadas até a chegada do ostracismo discursivo. Essas abordagens garantem o norteamento ideológico necessário para que através de silogismos, a grande população compre o engajamento das Sociedades Anônimas e Limitadas. Obviamente, apesar de a mira ser em setores específicos, há reflexos subsequentes que seguem o comportamento denunciado na teoria do caos.

Retomando o caso inicial, jornais, revistas, algoritmos de redes sociais e sites apontaram a questão do turbante e da apropriação cultural através da visão relativista do mercado. Visão está que, discursivamente, põe em pé de igualdade Sistema e Cidadãos, mas saindo da Matrix dá pra ver que o cenário é diferente.

A classe média (pensando de forma beeeeeem generalizada) encontrou nos discursos de extrema direita e supressão de minorias o sentido da própria existência. O papo de sempre é que grupos sociais colocaram em xeque a existência das instituições. Assim, candidatos, que propõem o fim da opressão das diferenças, são celebrados. A ideia de manutenção das instituições, por exemplo, atende à necessidade de retorno ao antigo modelo binário em que a minoria numérica, porém, maioria representativa, tem o poder de acatar ou refutar a existência social. Basta pensar nas telenovelas e nos papeis dados a determinados tipos. Nesse contexto, respeitar a existência e a experiência do outro passa a ser um ato de rebeldia.

Se 2016 foi apresentado como o ano da pós verdade, a minha esperança é de que esse ano seja lembrado como o ano da empatia. Assim, segue a única crítica possível (ao meu ver) acerca do episódio em questão, as militâncias devem repensar as formas de atuação. A dobradinha constrangimento/exposição só reproduz a mesma violência sofrida por anos. Talvez isso seja produto de uma leitura hostil da realidade. O cidadão comum reproduz um comportamento valorizado de inúmeras formas por um sistema que precisa da cisão para a manutenção da existência.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.