Sobre a obturação existencialista

Sábado foi um dia ruim. Domingo a mesma coisa. Na segunda, me agarrei na crença de que algo de bom aconteceria, mas foi um ledo engano. De forma geral, um coletivo foi responsável pela inevitável bad. Entre as mentiras, esquecimentos e promessas não cumpridas, eis que chega terça. Historicamente o pior dia da semana pra mim. Não sei bem o porquê, mas na minha cabeça todas as decisões que acabaram com a humanidade foram tomadas neste dia específico da semana. A sensação foi intensificada pela necessidade de fazer uma obturação num dente completamente sensível, com uma dentista da minha confiança, mas que tem a mão extremamente pesada para esses procedimentos. Somado a isso, ainda havia o terror do barulho, que lentamente moeria cada camada óssea. Assim, passei a manhã. Sofri como se estivesse seguindo num corredor da morte. Irritadiço, tentei ocupar todo o tempo disponível com demandas. O horário chegou. 14h30. Sentei no consultório e a dentista esbravejava com uma atendente de algum plano de saúde.Minha tensão aumentou. Ela desligou abruptamente o telefone e me conduziu até a cadeira. Sentei, abri a boca, ela começou o procedimento. A broca encostava na dentina. Doía muito. Mas tentando me agarrar em qualquer lampejo de esperança, o cérebro anunciou: calma. Tudo acaba. Assim consegui respirar e pensar novamente com calma: tudo acaba. Resisti esmagando o guardanapo que estava encharcado nas minhas mãos, tentando conter a lágrima que estava desesperada para conhecer o mundo exterior através do olho esquerdo. Pensei na vida e nas pessoas. Em como estava me abatendo por coisas que não tinha controle. O curativo foi feito e as dores passaram. A lágrima teve seu momento e vazou furtivamente. Saí do consultório aliviado. A dor tinha sido a minha terapia.

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