Sobre a Vida o universo e tudo mais

Vez ou outra, quando fico muito fora da realidade, utilizo dois itens que, pra mim ao menos, equivalem a longas sessões de terapia. O primeiro recurso é um vídeo chamado “dancem, macacos, dancem”, que nada mais é do que uma ode à mediocridade humana. Em que nós somos pensados enquanto descendentes de primatas, a partir dos nossos erros e incoerências. O segundo exercício, que acaba sendo mais profundo, é a leitura de um livro chamado “O Salmão da Dúvida”, que se trata de uma coletânea de textos escritos por Douglas Adams, com base nos arquivos encontrados no notebook do autor após a sua morte.
Fiz Comunicação e nas rodas de conversas com colegas de profissão, acaba sendo quase uma heresia dar status de autoridade a uma literatura infanto-juvenil. Eu que sou meio desconectado dos academicismos e urgências relacionadas à pseudo superioridade atribuída à literatura erudita, muitas vezes busco no humor a resposta para dramas cotidianos. Tenho verdadeira adoração por autores que não tem o menor apreço pelos seus personagens. Acredito que por isso goste tanto de Douglas Adams e Dostoievski.
No caso do Adams, uma coisa salta os olhos: o uso da descontextualização como instrumento narrativo questionador e subversivo. Quem já leu a coleção do Guia ou Dirk Gently sabe da capacidade de abstração apresentada pelo autor. Nos livros originais, há uma série de camadas que exigem um dado poder de abstração para o entendimento completo dos conceitos. Paradoxalmente, no Salmão da Dúvida, que é um dos meus livros preferidos, não existe isso. É um autor falando das experiências cotidianas e de como dados eventos se tornam gatilhos criativos. Li esse livro pela primeira vez em 2013. Estava esgotado, saindo de uma rotina de 60h de trabalho semanais, acrescidas de uma pós-graduação, uma segunda faculdade e tentando reestruturar um relacionamento à beira do colapso. Estava meio sem graça de reclamar das mesmas coisas com os amigos e ouvir respostas previsíveis. Numa das minhas andanças, descobri que existia este livro e na curiosidade, comprei. Li em pouco tempo e no fim fui consumido pela angústia.
Pra mim, era quase um bate papo com o autor. Nos relatos, ações ligadas a causas ambientais, breves relatos de relacionamentos, incoerências da cotidianidade e, principalmente, projetos futuros. Eram vários. Desde filmes e séries previstos, continuações de livros e reedições. No meio de tudo isso, um ataque cardíaco. Douglas Adams faleceu em 11 de maio de 2001, aos 51 anos.
No geral, a gente faz uns projetos de curto, médio e longo prazo. Pensa, corre atrás, desiste, sempre tendo como norte uma pretensa imortalidade e a conclusão desses ciclos. Infelizmente, a vida acaba sem que as portas sejam fechadas ou os problemas solucionados. No fim, a existência pode ser resumida em uma só palavra: incompletude.