Sobre Chão

A fila estava pequena. Eu estava no atendimento e mais um aguardava. A interlocutora, afobada, manuseava os papeis com pouca destreza, mas de forma rápida na tentativa de encerrar o mais rápido possível o meu atendimento. Já estava perto das 17h, fim do expediente. No olhar dela, o medo e a euforia de quem só queria o próximo passo, que seria acompanhado por aquele que a observava de uma cadeira no canto da sala. Nervosa, fez tudo a toque de caixa com um único objetivo: desocupar o posto para que aquela pessoa querida se aproximasse. Eu, ainda no atendimento, tentava articular as ações para agilizar ao máximo. Paralelamente, uma angústia crescia, como se estivesse num espaço o qual eu não pertencia e principalmente, que não pertencia a mim. Na parte que me cabia, tentei resolver tudo de forma célere. Empacotei, peguei documentos, agradeci pelo tempo gasto, exatos sete anos, e saí silenciosamente. A promessa de plenitude feita no início, se tornou a epifania de gosto amargo, promovido por uma divindade afeita a requintes de crueldade. O contrato findado não fazia mais sentido, bem como a coexistência daqueles entes no mesmo tempo/espaço, mas na cabeça, a despeito de qualquer vontade, uma história seguia mesmo sem nenhuma comprovação visual. Nos intervalos, pensamentos de morte. Estes que eram antigos companheiros, pareciam ter ficado pelo caminho, mas, na verdade, estavam camuflados abaixo das camadas finas de otimismo. Pensei em formas de anestesia, mas preferi fugir de todas elas deixando o corpo e alma se relacionarem com a perda. Numa retrospectiva, percebi que o problema nunca havia sido o fim do contrato e sim, o fim de todo o pensamento de estabilidade que ele representava. Finalmente estava vivendo aquilo que sempre quis: o renascimento através da suspensão.

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