Sobre dar lição de moral e estar errado
Num sábado desses à tarde, estava com a minha avó. Como vou pouco na casa dela, cerca de 4 ou 5 vezes num ano, tento dar atenção. Ela mora em Nova Iguaçu, num pequeno sítio. Depois do almoço e curtindo uma depressão pós-prato, fomos para a sala. Estava passando Raul Gil. Um dos programas de TV que eu mais detesto no mundo. Sentei no sofá e comecei a mexer no celular. Como sempre procurando uma paz interior que não existia em nenhum aplicativo. Abri um jogo e comecei uma disputa online. Minha avó pedia atenção a cada dois minutos. Eu tentei me concentrar, mas resistir era inútil. Ela queria companhia e eu estava sendo insensível. Parei de jogar, guardei o celular e comecei a acompanhar o programa. Eu que sou acostumado a bandas Indie e Eletrônicas, estava segurando o sono enquanto pessoas urravam músicas gospel. Nada contra, mas não seria algo que ouviria voluntariamente.
Depois de mais ou menos uma hora de programa, uma das participantes fez a sua apresentação. Finalizar e foi conversar com o Raul Gil. Era aquele papo de sempre, em que o apresentador do programa faz o drama necessário para cativar a audiência e o participante faz suspense sobre a decisão. Mesmo sabendo aonde aquilo ia dar, estava prestando atenção no programa. Minha avó, que estava quieta até então, soltou:
- Agora você vê… essa não é ela…
Eu, que estava meio desligado fiz a pergunta fundamental em qualquer diálogo estranho:
- Como assim?
Ela respondeu:
-Olha só… Ela está toda maquiada. O riso forçado… Essa não é ela…
Dei uma pausa e pensei na frase. Sem a pretensão de dar lições de moral para alguém de quase 80 anos, perguntei:
- Mas o que leva a senhora a crer que pelo fato de estar maquiada, vestida dessa forma e com esse sorriso, ela não é ela?(já sabendo que a minha avó é uma leonina de raiz, imaginava a resposta).
Ela manda:
- Eu, por exemplo? Sou isso daqui. Posso colocar uma roupa ou outra, mas a coisa não muda muito. Gosto de ser autêntica.
Minha resposta foi simples:
- Mas ué, vó? Ela escolheu a roupa, a maquiagem e, se duvidar, até mesmo o sorriso. A forma que ela deseja que a sociedade a veja também faz parte de quem ela é. Não existe essa história de tirar todas as camadas e existir uma bolinha luminosa com a etiqueta: ‘essência verdadeira deste dado ser humano’. A senhora prefere ser associada à simplicidade e ela à sofisticação. Não existe melhor ou pior nesse caso. Só diferente.
Ela fez uma pausa e mandou “um é verdade”.
Sou canceriano, mas minha lua é em leão e eu gosto de estar certo. O assunto foi pacificado. Esses dias, numa das crises existenciais super recorrentes, me toquei que, no geral, também analiso as pessoas pela dicotomia natural/artificial usando, inclusive, observações preconceituosas, já que fazia uma associação direta entre artifício e futilidade. Este ano, (re)conheci pessoas que me fizeram perceber o quanto eu estava errado. Ainda bem.