Sobre dar lição de moral e estar errado

Wagner Dornelles
Aug 22, 2017 · 2 min read

Num sábado desses à tarde, estava com a minha avó. Como vou pouco na casa dela, cerca de 4 ou 5 vezes num ano, tento dar atenção. Ela mora em Nova Iguaçu, num pequeno sítio. Depois do almoço e curtindo uma depressão pós-prato, fomos para a sala. Estava passando Raul Gil. Um dos programas de TV que eu mais detesto no mundo. Sentei no sofá e comecei a mexer no celular. Como sempre procurando uma paz interior que não existia em nenhum aplicativo. Abri um jogo e comecei uma disputa online. Minha avó pedia atenção a cada dois minutos. Eu tentei me concentrar, mas resistir era inútil. Ela queria companhia e eu estava sendo insensível. Parei de jogar, guardei o celular e comecei a acompanhar o programa. Eu que sou acostumado a bandas Indie e Eletrônicas, estava segurando o sono enquanto pessoas urravam músicas gospel. Nada contra, mas não seria algo que ouviria voluntariamente.

Depois de mais ou menos uma hora de programa, uma das participantes fez a sua apresentação. Finalizar e foi conversar com o Raul Gil. Era aquele papo de sempre, em que o apresentador do programa faz o drama necessário para cativar a audiência e o participante faz suspense sobre a decisão. Mesmo sabendo aonde aquilo ia dar, estava prestando atenção no programa. Minha avó, que estava quieta até então, soltou:

- Agora você vê… essa não é ela…

Eu, que estava meio desligado fiz a pergunta fundamental em qualquer diálogo estranho:

- Como assim?

Ela respondeu:

-Olha só… Ela está toda maquiada. O riso forçado… Essa não é ela…

Dei uma pausa e pensei na frase. Sem a pretensão de dar lições de moral para alguém de quase 80 anos, perguntei:

- Mas o que leva a senhora a crer que pelo fato de estar maquiada, vestida dessa forma e com esse sorriso, ela não é ela?(já sabendo que a minha avó é uma leonina de raiz, imaginava a resposta).

Ela manda:

- Eu, por exemplo? Sou isso daqui. Posso colocar uma roupa ou outra, mas a coisa não muda muito. Gosto de ser autêntica.

Minha resposta foi simples:

- Mas ué, vó? Ela escolheu a roupa, a maquiagem e, se duvidar, até mesmo o sorriso. A forma que ela deseja que a sociedade a veja também faz parte de quem ela é. Não existe essa história de tirar todas as camadas e existir uma bolinha luminosa com a etiqueta: ‘essência verdadeira deste dado ser humano’. A senhora prefere ser associada à simplicidade e ela à sofisticação. Não existe melhor ou pior nesse caso. Só diferente.

Ela fez uma pausa e mandou “um é verdade”.

Sou canceriano, mas minha lua é em leão e eu gosto de estar certo. O assunto foi pacificado. Esses dias, numa das crises existenciais super recorrentes, me toquei que, no geral, também analiso as pessoas pela dicotomia natural/artificial usando, inclusive, observações preconceituosas, já que fazia uma associação direta entre artifício e futilidade. Este ano, (re)conheci pessoas que me fizeram perceber o quanto eu estava errado. Ainda bem.

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Wagner Dornelles

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Pequeno ser que vive dentro de um planeta azul perdido na região mais brega da Borda Ocidental da galáxia.