Sobre engolir risos irônicos para não desqualificar os debates

Tarde de sábado. Dia agradável, clima ameno. Fui à casa de um amigo. Era um open house feito tardiamente, já que ele residia naquele endereço há uns 4 meses. Lá, fui apresentado a algumas pessoas, que dividiam o espaço com grandes amigos. O encontro acabou fadado ao mesmo destino de sempre: vários subgrupos se constituíram e iniciaram diálogos paralelamente. Um dos amigos (deste meu amigo) puxou uma conversa, meio que aleatoriamente numa tentativa de estabelecer contato. Foi uma jornada exaustiva semelhante àquela feita numa pesquisa pela grade do Netflix. Tateamos uma série de assuntos, até que chegamos inadvertidamente à lei de cotas. Falei todo meu pensamento acerca deste tema tão caro atualmente, explicando as pretensões da proposta e os efeitos, tendo como base tanto a leitura do texto da lei quanto o relato de professores da universidade que eu estudo (UFF). Num tom de revelação bombástica, meu interlocutor respondeu que concordava com a minha fala, mas (sempre tem um “mas”) a realidade era diferente, já que na experiência dele, houve um caso em que seis pessoas ingressaram na universidade pela lei, mas não davam valor à oportunidade, já que só passaram a frequentar as aulas após 3 semanas. Logo questionei se ele conhecia a realidade destas pessoas. Em muitos casos, não há condições de manutenção dos estudos por uma série de fatores. Ele logo desviou o assunto. Percebendo o desconforto gerado, me fiz de louco e interceptei um amigo que passava com alguma guloseima. A tarde seguiu. Comecei um diálogo com uma amiga feminista que estuda as diferentes correntes do movimento e estava me explicando as visões sobre a abordagem da militância. Papo vai, papo vem, chegamos ao ponto de falar sobre o vagão feminino no metrô e no trem. Expliquei como acreditava que a criação de um vagão específico (através da delimitação de uma barreira física) responsabilizava a mulher por situações de violência e abuso, já que, muitas vezes, o aprisionamento nesse espaço em especial implica numa forma desumana de transporte tendo como objetivo evitar o abuso e o assédio masculino. É (na minha triste e humilde opinião) uma atitude disciplinar, mas que passa a mensagem errada, já que as penalizadas são as mulheres, enquanto o Estado não trabalha a educação masculina. No meio da fala, percebi uma mão levantada. Olhei e era o meu interlocutor da conversa de logo cedo. Ele entrou no diálogo e antes que pudesse finalizar a frase seguinte, disparou “O vagão feminino é um exemplo de privilégio. Assim como as cotas também são”. Fiz uma longa pausa. Daquelas que silenciosamente soletram o maior palavrão que você conhece, mas respirei e deixei que ele concluísse o raciocínio. Ele seguiu: “Veja o movimento LGBTIQ, por exemplo? Nosso lema é orgulho e assim conseguimos transpor uma série de barreiras e impor a nossa presença na sociedade. Nesse sentido, a mudança vem de dentro. Não podemos deixar que a sociedade nos defina ou nos acue”. Com o rosto rosado e possivelmente ódio no olhar, respondi: nenhum dos casos são privilégios, já que são medidas necessárias para garantir condições de existência mínimas. Se existe uma lei de cotas raciais, ela responde a falta de pluralidade nas universidades. Algo denunciado por antigos professores e que hoje, observo claramente na pós-graduação. É uma tratativa para resolver um descompasso histórico. Sobre vagões femininos ou qualquer outra política para preservar a integridade das mulheres, é inadmissível que seja necessário criar barreiras físicas para que um homem entenda que o corpo de uma mulher não é de domínio público. Estamos falando não só de violências decorrentes da fala e sim de marcas físicas. Por fim, houve uma série de avanços nas pautas LGBTIQ, mas a hostilidade continua, já que, para muitos, esta comunidade é restrita ao seu potencial de consumo e não vista de maneira cidadã. Ou seja, não existe a possibilidade de pasteurizar e esquecer as diferenças das violências em cada segmento a partir de uma fórmula. Ele tentou interromper, afirmando que mulheres e negros são maioria, mas logo rebati “não nos espaços de poder”. Ele seguiu: “a exemplo das mulheres americanas, vocês podem dominar o mundo”, afirmou apontando o dedo para uma amiga minha e olhando firmemente nos olhos dela. Sufoquei um riso, que passaria como uma forma de desqualificar o argumento e afirmei: “mas estamos no Brasil”. Por um momento, houve um silêncio que foi interrompido pela despedida de uma amiga. Mais uma vez, respirei fundo, peguei algo pra beliscar e, novamente, me fiz de louco. Não queria prolongar o assunto. Conversamos coletivamente sobre algumas amenidades e fui embora. Ultimamente, tenho percebido o grande esforço que é dialogar com pessoas sobre questões óbvias (pra mim, pelo menos), como formas de violência do Sistema, por exemplo. Meu interlocutor, deve ter mantido o mesmo pensamento sobre o mundo, mas acredito que se eu tiver plantado a sementinha da dúvida, já fiz um bom trabalho.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Wagner Dornelles’s story.