Sobre meu pirão primeiro

Acordou, mas não abriu os olhos. O sol queimava lentamente a pele. O som das ondas e o balançar da jangada estavam em sincronia com o balé das luzes que de forma atabalhoada tentavam acompanhar a falta de cadência dos sons. João tentou aos poucos encarar a luz e, na medida do possível, se levantar. Mais duas pessoas tentavam inutilmente lutar contra o mar. Não sabia quem eram. Elas especulavam o que eram os contornos ao longe. Estavam desesperadas. À sua frente, apenas um pé de cabra e alguns peixes num balde velho. Veio uma onda. A jangada virou. Ainda com reflexos lentos, João agarrou o balde e o pé de cabra com uma das mãos e a jangada com a outra. As farpas cortavam seus dedos e a intensidade da pancada não permitia entender o que era céu ou chão. O mar se acalmou. Pediu ajuda ao único sobrevivente, além dele, para reorganizar. Ambos estavam agarrados à jangada e não tiveram tempo para o luto daquela vida desconhecida. Estavam se consumindo pelo futuro assombroso que se formava. Os dois conseguiram estabilizar a situação e retomaram a navegação em silêncio. Nosso protagonista se consumia. Pensava na pouca comida e no tempo que viveria naquela condição até ser resgatado. Uma onda veio. O outro viajante puxou os peixes para si. Mantinha a alça do balde sob a pressão da mão em contato com a madeira. Como uma bala que mergulha os miolos, João foi consumido pelo pensamento: ele me quer morto, assim vai conseguir ter comida por tempo suficiente para o resgate. O silêncio foi terreno fértil para arquitetar os maiores absurdos. Anoiteceu. Ardilosamente, nosso protagonista propôs o revezamento na vigilância. O momento era de calmaria. Meio desconfortável, o parceiro de navegação se acomodou deixando as panturrilhas na água e em poucos minutos depois adormeceu. João segurou o pé de cabra. Pensou no que faria. Dialogou com princípios, religiosidade, culpas e remorsos. Acariciava a ponta, como se ela fosse dar as respostas. Não ocorreu. O outro tripulante se mexeu. Aquela era sua oportunidade. Sem dar chance para novos pensamentos imobilizadores, deu vários golpes seguidos no rosto do seu companheiro de navegação. Enquanto o corpo convulsionava, jogou-o no mar. O sangue escorria pela madeira, junto com a água salgada. Não havia o que fazer, se consumia. Agora poderia aguardar seu resgate sem riscos. Comeu um grande pedaço de peixe podre.

Os dias passaram…

Os vermes comeram os pedaços que estragaram…

Morreu numa ilha no meio do nada.

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