o ano de 1993

Não importa que Dalí tivesse sido tão mau pintor se pintou a imagem necessária para os dias de 1993 — O Ano de 1993 , José Saramago

Fiz 22 anos. Não cronologicamente, ainda possuo 21 anos, 364 dias e 16 horas. A manhã é que vem e traz com ela as dores nos ossos e a estagnação do corpo. Já não cresço mais, com exceção da barriga e a força da gravidade, tudo ficará como está.
Não me sinto com 22 anos, assim como não me sentia com 18 anos, ou com 15, ou com 13. O que mostra que o tempo é um desses pinschers que latem, latem, latem e a gente não dá bola, mas que irrita. Irrita tanto.
Mas antes a vida. Antes os 22 anos. Antes tudo isso.


a santa foi uma das coisas que minha vó não pode devolver antes do tempo.

Uns dias atrás, meu namorado me pediu porque é que aniversários me deixavam tão pra baixo. Acabei por chorar, assim como em todo aniversário, porque a gente se dá conta que passou-se tanto tempo e tanto tempo vai se passar ainda, e perto desse mar de coisas que a vida tem, somos um ponto de areia dentro de outro.
Eu choro por ver os outros envelhecerem, ou por eu ter envelhecido e o tempo ter passado demais e ele ter me escapado por entre os dedos. Ou pelo tempo ter se encarregado de trazer e de levar pessoas embora. Por ver que talvez meu eu de 10 anos atrás soubesse tão pouco, e meu eu de agora saber menos ainda. Eu choro. Mas depois rio. Porque ao menos eu tenho tempo pra ficar pensando nisso e não estou parada nele. Graças a deus.


meu irmão e sua mão de quem só tinha dois dias.

Ano passado, antes de completar 21 anos, eu queria morrer. Não no sentido figurado. Morrer de verdade.
Quisera eu fosse um drama adolescente, um coração partido por um amor platônico de internet ou o show da banda favorita, como quando eu tinha 15 anos. Quisera eu que fosse ‘somente uma fase , falta de oração ou de trabalho. Quisera fosse a faculdade ou o namoro. Mas não, era eu.
Quis morrer porque não quis assumir pra mim, perante ao espelho que eu não sabia quem eu era e que tudo havia sido uma mentira, uma máscara na frente do espelho, um sorriso amarelo em fim de festa. Não que hoje eu saiba quem eu sou e qual é meu real propósito no mundo — eu não sei e talvez personne ne saiba quem é realmente. Mas ao menos eu sei o que eu não sou, e uma das coisas que descobri nesses 21-para-22 é que eu vi muita coisa, eu vivi muita coisa e eu vou rir ainda de muita coisa. E chorar, também. Mas rir. E rir muito.
Quis morrer por falta de vislumbre, por falta de energia e por falta de forças. Por achar que eu não ia conseguir ou que talvez a vida não fosse essa casa pré fabricada onde você só entra e tira os sapatos. Na verdade, a vida é um eterno canteiro de obras, e eu sou só o pedreiro comendo marmita fria.
No fim das contas, eu botei um tijolo de cada vez e fui cimentando a cada pouco. E agora eu entro na minha casa e danço de meias na sala.


meus pais e eu — eu escolhi ficar escondida por mais uns 9 meses até aparecer na foto.

Mas eu sinto falta de casa. Muita falta.
Eu entro no ônibus pensando em voltar, agarrada ao sentimento de que eu vou, mas um pedaço de mim fica e pra sempre vai ficar fincado na terra. Eu não volto pra ficar, o amor é grande e o mundo também. E a cama não vai deixar de ser cama, os quartos serão sempre quartos e os pais e as mães e os irmãos sempre serão os mesmos.
Todos os aniversários em que eu passo longe de casa, eu imagino que vou chegar da faculdade e vou dar de cara com meus pais e meu irmão na sala junto com meus amigos e todos me jogando confetes e me enchendo de beijos, enquanto eu sorrio sem graça e coloco um chapéuzinho da Barbie.
Ou que eu vou ser acordada às 8 da manhã com meus pais cantando parabéns enquanto eu cubro minha cabeça. Ou que o telefone vai tocar e vai ser a vó me mandando telemensagem. Ou que vou subir e minha vó, que o tempo levou, vai ter me deixado lentilha na panela no fogão à lenha, um envelopinho com dois reais, chicletes e um cartão com meu nome errado — e eu não vou nem ligar.


a mulher com as margaridas , alphonse mucha

Mas dos males o menor. Entre os 21 anos, 364 dias e 16 horas eu me amei. Amei meu irmão. Amei meus pais. Amei um homem como eu achei que nunca ia amar. Amei livros. Filmes. Uma cidade longe. Uma cidade perto. Uma pequena. Outra grande. Uns quantos cachorros. Uns quantos gatos. Duas casas. Três, se considerar a mudança. Bebi socialmente. Abracei meus amigos numa balada. Abracei todo mundo que precisou de um abraço. Abraçarei todos que precisarem de mim, ou que não precisarem também. Dormi bem. Dormi mal. Vi chances indo, vi chances vindo. Vi nota boa. Só boa, porque ruim a gente não fala que viu.
Vi o 14 virar 15, o 2 virar 3. Eu vi tudo isso. E vou ver tanto mais. Eu pari uma vida em 365 dias. E vou parir tantas outras em tantos 365 dias mais.

Feliz aniversário pra mim. Eu mereço isso.

Esse álbum é muito bom. Eu nunca tinha ouvido nada do The Antlers até ter me topado com esse álbum umas duas vezes essa semana.
É triste.
Mas é muito lindo.
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