Sobre o Prazer

The flood – Anne-Louis Girodet De Roussy-Trioson. O quadro apresenta uma família desesperançada lutando contra os elementos ferozes da natureza. O artista retrata a fragilidade da existência humana comparada ao poder da natureza.

Escrevo aqui minhas confissões, assim como o fez certa vez Santo Agostinho. Não escrevo com tamanha erudição e beleza quanto fez o bispo de Hipona; nisto vos deixarei a desejar. Traço aqui mediante minhas confissões reflexões acerca do prazer, o que dá sentido e propósito ao título. Confesso meus pecados aos homens para que, pelas chaves concedidas por Cristo à Igreja, possa alcançar o perdão (Mt 16:19; Jo 20:13) Confesso à Deus Pai tudo aquilo que Ele já sabe, todavia, deseja ouvir de mim mesmo. O perdão concedido, então, pela Igreja nada mais é que a materialização do perdão concedido pelo Pai nas esferas espirituais.

Desde que fui concebido sou escravo do pecado (Sl 51:5; Rm 7:14) e há anos que sou atraído pelo prazer do pecado. Cria eu que a iniciação precoce ao mundo sexual fosse um mal contemporânea, porém, ao ler Jean de Léry em seus relatos sobre o Rio de Janeiro da metade do século XVI, percebi que estive equivocado. O discípulo direto de Calvino testemunha de um jovem indígena, rapaz de 13 anos o qual já gabava-se, para a tristeza do pastor francês, de suas experiências. Também tive por testemunha um amigo octogenário que, como me contou, descobriu o prazer sexual aos 7 anos de idade, e veio a ter seu primeiro intercurso sexual aos 12 com uma moça alguns poucos anos mais velha. Pelas minhas contas isto se deu em 1941.

O homem é mau e inclinado ao pecado, não precisando, desta forma, de incentivo exterior algum para transgredir a Lei de Deus, a qual é boa e espiritual. Proponho aqui que a busca pela satisfação de desejos, até certo ponto, lícitos de formas ilícitas é negar categoricamente o prazer e deleite em YHWH. Pois, quando busco o prazer e contentamento na criação, ao invés de buscá-los no Criador e Mantenedor da vida, atesto que em mim Cristo não é suficiente para satisfazer-me e torno em mentira os versos do salmista; afinal, se com meus lábios pronuncio que YHWH é meu pastor e através dos meus atos manifesto que de algo tenho falta sou, então, contraditório. Seja sempre Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso (Rm 3:4).

De fato YHWH criou em nós desejos lícitos, cito primeiramente a fome. A fome é, sim, um desejo lícito e, em si, nada pecaminoso, dado por YHWH no Éden antes da Queda. Todavia, em Gálatas 5:21, e em tantos outros versos semelhantes, a glutonaria – ou seja, o muito comer – é descrita como obra da carne manifesta naqueles que serão condenados. E qual a razão disto? Hoje, para nós ocidentais, isto pode parecer um assunto de segunda ou terceira ordem, mas para cristãos fervorosos, como os apóstolos Paulo e João, e Agostinho, este pecado era tão sério quanto qualquer outro, e de fato o é. Por algum tempo me questionei a esse respeito e à uma conclusão cheguei: alimentar-se não é pecado, antes é lícito e bom e nisto deve ser encontrado prazer (1 Co 10:31), pois YHWH é mais glorificado quando encontramos mais prazer nele1. Neste sentido, para nós que nos denominamos cristãos a alimentação tem o caráter de dádiva divina, favor imerecido, por isso damos graças. Porém, quando mediante a tristeza ou qualquer outro sentimento buscamos prazer no comer – no muito comer – tiramos a atenção daquele que nos agraciou e nos comprazemos na benção por si só, e buscar prazer, até mesmo no que é lícito, sem voltar-se para o Criador é dar a primazia à criatura, e isto é pecado. Ainda que os alimentos sejam para o estômago e o estômago, para os alimentos. Deus, no entanto, destruirá tanto um quanto o outro. (1 Co 6:13).

Por algum tempo almejei marcar meu corpo em definitivo com a referência “1 Tm 1:15”. Mas de que adiantaria? Deve antes cumprir-se em mim a profecia de Ezequiel. “E vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei o coração de pedra de vossa carne, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” (Ez 36:26–27). De certo, o amor ao Cristo se dá através da obediência simples e concreta aos mandamentos, como aponta o próprio Jesus (Jo 14:15) e teólogos proeminentes como Liev Tolstói e Dietrich Bonhoeffer relembraram nos dois últimos séculos. “Aquele que o ama é o que o obedece; aquele que o obedece é o que o ama”. Assim como o jovem rico (Mc 10:17–25) e um certo doutor da Lei (Lc 10:25–37) nós inquirimos à Jesus: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?”. O Bom Pastor já nos disse, à ambos e à todos nós: “Tu sabes os mandamentos […] Que está escrito na Lei? Como interpretas? […] Faze isso, e viverás” (Mc 10:19 ; Lc 10:26,28). Enquanto não cumpro fielmente os mandamentos dados pela Palavra Encarnada não o conheci, e muito menos posso dizer amá-lo em verdade (1 Jo 2:3–4 ; 1 Jo 5:2).

Não escrevo isto para trazer peso à alma daquele que ainda não venceu o pecado, mas que com um desejo genuíno e honesto busca por aquele que é o autor e consumador de sua fé. Escrevo àquele impenitente que não está unido à Cristo, embora ainda congregue numa comunidade de fiéis. É necessário ter-se em mente que Romanos 7 fala da luta interior dum homem guiado pela Lei e que não pode cumpri-la; este capítulo não é muleta para que você ande segundo a natureza da carne, pois seu Sumo Sacerdote em tudo foi tentado, mas não pecou (Hb 4:15). Se crê que você é, de fato, uma nova criatura em Cristo Jesus não volte-se mais para Romanos 7 buscando uma graça barata que justifica o pecado e não o pecador, mas busque a liberdade dos que andam segundo o Espírito e são chamados filhos de Deus em Romanos 8. A Graça manifesta-se através da mudança de vida, de outro modo: “seria Cristo ministro do pecado? De maneira nenhuma” (Gl 2:17). “Mas o que para mim era ganho reputei- o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo, e seja achado nele, não tendo em mim justiça que vem da Lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé; para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme à sua morte; para ver se de alguma maneira posso chegar à ressurreição dentre os mortos” (Fp 3:7–11).

The first mourning (editado) – William-Adolphe Bouguereau. Retrata o sofrimento do primeiro casal, Adão e Eva diante da morte de seu filho, Caim.

Com o passar dos anos me entregando à satisfação ilícita da união carnal que deveria ser celebrada de modo santo, como fora no Éden pelo casal primeiro e fora testificado como exemplo por Jesus (Mc 10:1–9). Precipitei-me no erro, na dor e no engano ao procurar na criação o prazer que deveria ser achado no Criador. Não encontro descanso enquanto não descanso minha alma em YHWH. Não temo ser condenado no dia do juízo, mas temo me opor a YHWH e seus desígnios (Mt 12:30). Estou usando meu intelecto para que, ainda pecador, glorifique o Deus Trino, o qual merece o louvor de todo ser que vive (Sl 150). Ainda que pecador, YHWH tem o direito de usar-me soberanamente (Rm 9:13–21).

Espero ainda sentir em mim o poder da ressurreição de Cristo, o qual me levará da morte para a vida, do reino das trevas para o reino de sua gloriosa luz, redimindo o meu corpo que sofre pelo poder da morte e da escravidão do pecado. Que Cristo seja formado em mim e que o meu prazer seja achado nele e através dele somente, abrindo mão dos meus desejos naturais para saciá-los no Pai, assim como o Filho, sem pecados, o fez (Jo 4:34 ; Lc 4:4) e assim andarei em novidade de vida, pois estarei morto para o pecado e minha vida estará escondida em Jesus. E, desta maneira, tendo plena satisfação em YHWH – o Deus Pai –, Yeshua – o Deus Filho – e no Santo Espírito, glorificarei sobremaneira a Trindade Una; o meu prazer estará nele e o prazer dele estará em mim (Mt 3:17), pois eu serei a imagem do Filho e ele será o meu Pai.

1 Para uma discussão mais abrangente deste tema recomenda-se o estudo das obras e pregações de John Piper.

Bibliografia

Bíblia Sagrada (João Ferreira de Almeida Revista e Corrigida) AGOSTINHO, Santo. “Confissões”.

BONHOEFFER, Dietrich. “Discipulado”.

DE LÉRY, Jean. “Viagem à terra do Brasil”.

TOLSTÓI, Liev. “O Reino de Deus está em Vós”.