o projeto: do conceito à práxis

entendo que a escrita é uma forma de linguagem, de comunicação. E justamente por ser linguagem, e que inevitavelmente atinge a uma pessoa que irá ler o texto, é necessário que haja algum elo de ligação entre essas duas pontas: aquela que fala/escreve e aquela que recebe essas informações.

No ponto de vista daquele que recebe as informações. Quando o receptor de uma mensagem quer ter acesso a uma informação, existe uma maneira certeira de atingi-lo, fornecendo exatamente a informação que ele precisa? Talvez exista, mas diversas variáveis podem ser usadas como base argumentativa, como estilo de leitura, personalidade, assuntos que são considerados interessantes para serem lidos, fase/momento/instante/contexto de vida atual. Tudo isso depende e, apesar de existirem alguns padrões, varia muito de pessoa para pessoa e isso acaba tornando a construção de determinado padrão algo bastante inviável.

No ponto de vista de quem fala, de quem escreve. Há uma infinidade de estilos de se comunicar, de expressar-se. Eu, particularmente, aproximo muito o meu estilo de escrever do meu modo de fala. Gosto de trabalhar com discursos mais indiretos, com uma linguagem decodificada, não muito clara, às vezes até um tanto prolixa. Curto digressões e alterno muito entre histórias mais delongadas e outras menorzinhas. Escrevo da forma que meu cérebro capta as informações.

Uma tomada de posição. Julgo mais importante transmitir uma ideia e não se preocupar tanto com a forma que o receptor irá receber esses dados. Pra mim, falar é muito mais relev0ante que ser compreendido. Até porque, a escrita é isso: não sabemos se seremos compreendidos ou não. A finalidade não é essa: precisamos nos comunicar da maneira mais próxima da nossa, ou daquilo que queremos dizer.

Antitesando a tomada de posição. Pode ser muito complicado acreditar piamente nessa ideia de ode à libertinagem e às formas livres do escritor. O processo de escrita também é adequação, procura, construção de identidade. Quando escrevemos uma história, mesmo ela sendo bastante linear, pensamos e vemos as coisas em um plano infinitadimensional. Montamos um cenário (guerra civil desencadeada pelo conflito entre duas famílias brasileiras), colocamos um contexto histórico nele (segunda década do século XIX, diminuição do estímulo ao tráfico negreiro devido a tendências industriais da Inglaterra), inserimos personagens e falamos sobre eles (barão da família Noronha. homem rico de berço e duque da família Pirajá, novo rico, ex — escravo, que sabia falar três línguas para poder educar os filhos dos senhores de engenho), montamos uma trama (a filha do barão apaixonou-se pelo sobrinho do duque, que era apaixonado pelo filho do barão), acrescentamos alguns outros elementos que surgem na nossa mente maluca (o sobrinho do duque era adotado -q) e fechamos (ou não) a história, não necessariamente nessa ordem, nem necessariamente usando apenas estes elementos ou, às vezes, nenhum deles. Fazemos isso com uma finalidade de construção de estilo, de identidade. E não é raro que esse processo se complete a partir do momento em que o seu texto é apreendido pelo outro, que traz as suas impressões. O olhar do outro, dessa forma, é o que transforma o seu texto em uma outra coisa. A partir desse momento, foi deixada a tal impressão definitiva.

Nesse exato momento e no anterior também, não preciso nem dizer que eu sou e sempre fui muito mais partidário da primeira posição. Mas reconheço e valorizo a importância da segunda, principalmente nese exato momento. Provavelmente, pelo meu ascendente em virgem andar me fornecendo muito mais sensatez a medida em que estou ficando mais velho e pelo fato de eu estar apaixonado por histórias em que há um certo comprometimento com esse segundo argumento, estou tentando trazer um pouco mais dessa práxis para os meus textos.

E enfim, o meu projeto é, como um bom aquariano cabeça-dura, reunir os elementos da tese junto aos elementos da antitese, e formar a minha história. Para cada capítulo e personagem, haverá uma introdução. Não consigo fazer nada sem, preliminarmente, tecer o que penso sobre cada uma das coisas. Tenho a mania de dizer as coisas muito abstratamente, pois é assim que as coisas me vem na mente. O resto da magia está em contar as histórias, montar as tramas, interligar as informações. Aqui, eu trago os meus conceitos para algo mais prático, mais próximo, para parecer algo real (ou não) também.

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