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Conto 01. Quando o sonho vira mercado;

Aron escrevia freneticamente em seu computador enquanto dava uma enxurrada de batidas no teclado. Em sua sacada era possível ver a queda da noite sobre o dia, o crepúsculo em seu tom rosa e roxo desenhava em nuvens uma espécie de nostalgia. Seu apartamento era alto, seco e frio. Seu barulho agora incomodava seu gato sobre a mesa, Stubs, um simpático persa preto que agora entediado saltou e foi se enrolar em suas pernas.
Com o dedo na tela ele acompanhava um artigo, em várias outras abas de seu navegador era possível ver diversos assuntos. Artigos e imagens diferentes sobre sonhos lúcidos, ocultismo, sociedades secretas e parapsicologia. Um dos textos prende sua atenção e ele começa a acompanhar de maneira audível “existiam magos e cerimonialistas capazes de percorrer lucidamente a mente de outros através do que hoje se estuda ser uma teia de vibrações sonoras imperceptíveis para pessoas comuns, percepção sonora essa que felinos tem, por isso eram tão adorados no Egito antigo sendo um elo entre o lado dos sonhos e da realidade…”.
Ele encara o gato por alguns segundos abaixo da mesa até que percebe que sua tentativa, do que quer que seja, não estava funcionando. A expressão do gato não variava em absoluto. Ele continua a leitura “o caminho para esse conhecimento se perdeu, hoje poucas pessoas de círculos muito específicos são capazes de entender e, dizem alguns, reproduzir essa estranha arte magica.”
Erguendo-se da mesa ele desliga a tela do computador e vai até sua cama onde se lança sem o mínimo de animo. Fecha os olhos de maneira forçada e espera ali, o que pareceram horas, mas o sono não vem. Um dos grandes dilemas da “geração Y”, insônia. Ao abrir lentamente os olhos ele encara o teto e lembra que no outro dia estará de pé muito cedo para se preparar para um pitching de vendas.
No outro dia em uma palestra num salão de apresentações Aron discursava em frente a um telão: _“A darkpark é uma empresa que tem como objetivo explorar um pouco do universo paranormal com o público adolescente, temos jogos, aplicativos e uma série de postagens que atrai diversos leitores para nosso blog. Acreditamos que para Mentes Noturnas, como será um longa voltado a esse público, podemos criar diversas inserções na página aumentando significativamente o alcance da publicidade do filme.”
Ao fim da palestra ele desce as escadas do palanque e cumprimenta alguns amigos apenas acenando com a cabeça o que era muito comum de sua parte, acabava de conseguir a conta de um longa-metragem para ser divulgado publicitariamente no blog da empresa, isso traria capital para começar a entrar no mapa enquanto canal de conteúdo da internet, ou seja, sua moral estava em alta naquele momento e mal podia esconder o ego monstruoso que carregava. Suas pesquisas até então haviam sido recompensadas, mas algo não saia da sua cabeça, aquela estranha noite onde experimentou uma inusitada sensação pela primeira vez.
Era comum ter pesadelos noturnos, até mesmo envolvendo a empresa que trabalhava. Na verdade, embora envolto por tanto silêncio, o jovem adulto tinha uma cabeça extremamente turbulenta. Algumas semanas atrás, por volta de quatro da manhã, enquanto se debatia na cama. Estava repleto de suor e muitos calafrios percorriam seu corpo, foi aí que desligado da mente, sonhou. No seu sonho via o vizinho, um antipático descendente de indianos que começava a ascender no mercado de tecnologia da informação, envolto por ratos em um lugar que parecia um grande templo. No sonho eles se olharam e Kabir com olhos grandes e assustados estendia a mão para ele.
_Me tira daqui por favor, eu tenho medo deles;
_Dos ratos?
_Sim, eles estão por toda a parte, mal posso me mexer;
_Pensei que indianos gostassem de todos os animais;
_E é isso que meu pai nunca entendeu. Por isso que não vivo como um indiano, por favor, me ajuda eu odeio esses bichos;
Foi o bastante para despertar como saindo de um quase afogamento. Mesmo depois de alguns dias essa memória era bem fresca e por algum motivo inexplicável o incomodava muito, chegou inclusive a cogitar comentar com o vizinho, mas não via muita abertura na personalidade do mesmo, como também não era um dos melhores socializadores aboliu aquela questão e simplesmente manteve tudo para si. O que ele não esperava era ver Kabir sentado em uma das cadeiras, próximas ao palco inclusive. Ele percebeu então que na verdade a empresa que contratara a Darkpark para fazer essa promoção do filme tinha alguma ligação com os negócios do indiano e pensou em como desprezara, até então, uma grande oportunidade de networking. Depois disso não pensou duas vezes e foi em direção ao vizinho cumprimenta-lo.
_Kabir?!
Assim que o chamou recebeu aquele olhar enorme que algumas semanas atrás havia visto em sonho.
_Olá, como vai?
Eles apertam as mãos
_Então quer dizer você trabalha pra produção do filme, nossa mas que coincidência.
_Na verdade o site de vocês é uma das poucas opções do ramo que leva a sério o gênero, não foi tão difícil chegar em você, a propósito, parabéns pelo trabalho.
_Obrigado, assustar as pessoas é divertido.
_Nossa, engraçado você falar isso.
_Mas por que?
_Na verdade é uma besteira, acredito que não tem muito tempo tive um pesadelo que envolvia você, como não nos vemos nas reuniões de condomínio estranhei um pouco esse fato.
Na mesma hora que ouviu essas palavras Aron teve uma ideia perturbadora, por estar imerso em tantos estudos exotéricos havia perdido um pouco o tato ou a crença em qualquer fato místico, mesmo assim deixou uma piada sair de sua boca quase como um vômito.
_Não me diga que sonhou com ratos?!
A palidez no rosto foi inevitável, era possível ver o desequilíbrio que aquilo causara no outro homem.
_Justamente, eu te pedia ajuda.
Houve uma pausa e um olhou para o outro incredulamente durante alguns segundos.
…