Publicitário x publiciotário

Quando eu era pequeno e assistia Power Ranger’s, eu queria muito ser o ranger vermelho em todas as brincadeiras, ele era o mais forte, tinha a namorada mais bonita, o melhor robô gigante, lutava melhor e sempre era o líder. Não tinha como uma criança não querer ser ele ou os que geralmente ficavam como principais. Em casa eu juntava as ferramentas vermelhas que meu avô tinha, tipo uma chave de fenda, uma trena com símbolo vermelho e etc. Na realidade isso acontece até hoje comigo dadas as devidas proporções e se você observar bem vai ver que com você também.

O “neuromarketing” chama isso de “neurônio espelho”, que seriam os responsáveis por aprendermos coisas através da observação e reprodução de determinadas ações. É nesse campo que a publicidade trabalha. Quando você é exposto a um produto, não há espaço para duvida, não existe um porém, aquilo te trás um claro benefício em algum aspecto e pronto! Lembra do ranger vermelho? É por aí, logo depois que você nota que aquilo é bom, sua cabeça começa a trabalhar para te dizer “você precisa ter aquilo para ser realizado assim”, isso por sua vez rola pelo instinto de sobrevivência. Quando você vê, lá está, cercado de produtos da mesma marca (lembra da cor vermelha do ranger?).

Quando eu entrei de cabeça no estudo da publicidade eu notei duas coisas, o poder que ela tem e a destruição que ela causa eventualmente. Antes eu só via um lado. Acontece que para vender um determinado produto muitas vezes enquanto publicitários deturpamos a observação a respeito de outra coisa/ser. A exemplo da mulher usada como objeto de venda em diversos produtos “masculinos”. Sim, teve lá sua “eficácia” por uns tempos o uso dessa imagem, o que não quer dizer que estava correto. Lembra que falei sobre instinto de sobrevivência? Então, isso vai parecer bem coisa de tio Freud (e talvez até seja), a reprodução também está inserida na cabeça das pessoas como algo essencial a vida e por isso vinculava-se a imagem da mulher fomentando subconscientemente essa ligação. A alguns anos o consumo de álcool era muito mais praticado por homens já que a mulher era mais recriminada, daí propagandas tão focadas pra esse público, mas esse é só um exemplo da coisa. Acaba que essa visão de observação/captação que fazemos com freqüência define valores pessoais extremamente fortes na nossa vida.

Então saio do patamar de simples reflexo de idéias enquanto publicitário e reconheço que o peso de mudança que a publicidade tem na sociedade é absurdo tanto para o mal quanto para o bem. Fazer propagandas mais limpas e que dependam menos de recursos subjetivos pejorativos, sem objetificação da condição de pessoas, sejam elas quais forem. Reconheço que muitas vezes o que é pragmático não necessariamente pode ou deve ser usado numa área de responsabilidade social tão eminente. Sério, tenha colhões para dizer não a briefings escrotos.