O que a carta aberta ao Brasil, a Família Aladdin e o Quitandinha tem a dizer sobre os brasileiros?

Ultimamente três foram os assuntos que mais apareceram na timeline das redes sociais dos brasileiros, levando as pessoas a discussões gigantes sobre os temas debatidos: o caso de assédio no bar Quitandinha, a verdades do carta aberta ao Brasil e o racismo na família fantasiada de Aladdin durante o carnaval.

Eu demorei um pouco pra formar um pensamento sobre como todos estavam tratando sobre o tema, pois novamente achei que estava como nas últimas eleições presidenciais no Brasil: vendo pessoas discutindo sobre desinformação como um argumento válido para entrar em qualquer discussão. Mas a minha maior preocupação mesmo foi que, assim como nessas eleições, praticamente ninguém estava discutindo os temas que de fato foram trazidos para o debate, ou seja, o assédio, o racismo e a cultura do brasileiro.

Não sei se é só aqui (acredito que não, alô #diferentona), mas todos os últimos temas polêmicos que atingiram em cheio o que representa o Brasil, aconteceram da seguinte forma:

  1. Textão no facebook para propagar o assunto discutido, escrito de forma polêmica;
  2. Posts de todo canto e tipos de pessoas apoiando a causa;
  3. Um verdadeiro calor de esperança na humanidade por mais uma vez um assunto desse tipo sendo discutido;
  4. De repente, um post falando mal do assunto/autor;
  5. Um artigo completando o contexto que anula o texto que trazia a polêmica a vida;
  6. Amiguinhos se degladiando nos comentários;
  7. “Deixa pra lá”, “ deixa disso”, “pra que isso” comendo solto depois;
  8. E finalmente aquele assunto que seria top de ser discutido, morre e em 3 semanas, ninguém mais lembra dele.

Já ficou com raiva de uns amiguinhos no facebook? Já ficou com raiva de você mesmo de ter agido como a massa (Sim, o que descrevi é a massa)? Reconhece todos esses passos? Ok.

Agora vou te dar outra perspectiva da mesma sequência de fatos do ponto de vista do assunto polêmico:

  1. Levantamento de um assunto polêmico;
  2. Divulgação nas redes sociais;
  3. Compartilhamento com mensagens de apoio e reflexão do tema;
  4. Início de uma discussão promissora;
  5. Início dos comentário aleatórios na tentativa de denegrir o tema ou o autor/iniciante da polêmica;
  6. Fim da discussão promissora;
  7. Tentativa de continuação do assunto polêmico, mas na perspectiva completamente errada com argumentos inválidos recheados de desinformação;
  8. Esquecimento do assunto, pode chamar o próximo que esse aqui já foi.

Percebe que desse ponto de vista a coisa nem chegou a esquentar? Ou agora você ficou com mais raiva ainda de não ter me entendido? De talvez não querer entender? Ou de não ter falado o que você achava e pensava sobre aqueles temas? De ter perdido tempo nas discussões? Ou vai falar mal de mim para meu “textão” também cair em descrédito (assim como acabei de explicar)?

O grande problema na minha visão é que apesar das redes terem feito as pessoas discutirem muito sobre diversos temas (isso eu acho bom, não me entendam mal), desde de sempre existe uma cultura forte do “deixa disso”, que impede as pessoas de se magoarem umas com as outras deixando de dizer as verdades necessárias que cada um de nós deveria ouvir, ou a de “quero ver a treta”, que magoa as pessoas dizendo mentiras que todos sabem que vão ouvir.

Nesses três casos aconteceram as mesmas coisas: pessoas enfurecidas com o fato ocorrido defendendo o oprimido, pessoas enfurecidas defendendo o opressor, pessoas sem entender direito o que estava acontecendo e pessoas disseminando desinformação que anulam toda ou parte do assunto tratado fazendo outras pessoas discutirem diversos temas que não mais o cerne do tema principal ou, no pior dos casos, simplesmente deixarem para lá a discussão porque “virou bagunça”.

Faz sentido o que eu to falando? Não? Então segura mais um pouco, que agora vamos aos fatos:

  • Episódio Carta aberta ao Brasil: SIM, ESSE TEXTO DIZ MUITAS VERDADES SOBRE O BRASILEIRO (PONTO).(PONTO ALÍ VIU? PAREI A FRASE ALI! TÁ OK?) Você pode até não ter gostado do que foi dito, achar que não é com você, dizer que o gringo não sabe o que está falando, que não sabem entender a situação do Brasil, que é muito generalista, que é muito específico, que só diz respeito a uma parte do Brasil ou até mesmo que o texto é de direita e que a esquerda vai proteger os oprimidos pelo texto (? Sim, vi de tudo nos argumentos sobre esse tema). Mas uma coisa é um fato e eu aprendi relativamente cedo essa lição: feedback a gente escuta… e não retruca! Então não importa se o escritor só vem para o Brasil no Carnaval, se ele morou pouco tempo aqui, se porque ele é escritor precisa de visualização nos seus textos, se a carta está fora de contexto, se quem vê de fora não sabe os problemas daqui, se a história do Brasil nos fez chegar onde estamos ou raio que for; o Brasil/brasileiro tem vários problemas e diversos deles estão descritos naquela carta! Que tal discutir sobre eles? Percebem o quão ridículo foram os outros posts que falaram mal da carta original? Os assuntos tratados depois da propagação da carta simplesmente serviu para dispersar os que talvez se interessassem por ela, mas que possivelmente não vão ler ou leriam já pensando nos argumentos que foram citados anteriormente. Não acredita? Cheguei a ver gente falando que o brasileiro é tão produtivo que o país é um dos maiores exportadores de comida do mundo (pensei até em pedir desculpa, por estar de terno e gravata). Faço um convite a vocês: vamos discutir sobre o porquê somos egoístas, o porquê somos tão vaidosos, o porquê não paramos com nosso jeitinho brasileiro e o porquê não conseguimos progredir. Que tal?
  • Episódio Assédio no Quitandinha: eu não sou mulher e talvez nunca entenda o sentimento real que pode vir a ela quando um assédio acontece ou está prestes a acontecer, mas eu consigo entender toda a raiva com que ela escreveu o texto que relata os acontecimentos no bar. Eu mesmo já presenciei cenas desse tipo e se já são revoltantes pra mim, imagina para uma mulher. Na semana do textão, eu vi uma grande comoção na internet em apoio a menina que escreveu com pessoas apoiando e se mostrando contra o bar onde aconteceu o assédio, pessoas lotando a página do facebook do bar com mensagens sobre o ocorrido, pessoas repostando o texto com mensagens de sermão em suas próprias timelines, enfim um grande movimento feminista sobre o ocorrido. Em contra partida, o bar tentou por algumas (falhas) vezes explicar que tentou agir da melhor forma e tudo mais, até que postou um vídeo que junta o relato da menina com as imagens gravadas pelas câmeras do bar. E é aí que para mim a coisa toda foi “por água abaixo”, pois as pessoas começaram a postar o vídeo citando que os primeiros posts foram apressadinhos em divulgar o textão da menina, que a realidade não é igual ao que foi descrita por ela, que o bar não teve culpa nenhuma, etc… nem vou me estender em todos os comentários que eu vi dessa vez, mas a minha pergunta fica com você: que tal discutir sobre os dois caras que assediaram a menina ao sentar do lado dela? Por que raios todos falam sobre tudo isso, mas não falam dos caras que cometeram o assédio? Eles não são os verdadeiros culpados? Notem que nenhuma das duas histórias inocenta eles (inclusive, muito pelo contrário) e mesmo assim as pessoas ficam nessa discussão rasa de quem ta falando a verdade? Novo convite, então, ok?
  • Episódio Racismo na Família Aladdin: Talvez o caso mais polêmico de todos, pois mesmo que os outros mereçam atenção (e merecem muita!), racismo é algo que venceu no Brasil, mas eu ainda torço e não perco a fé na humanidade de que isso um dia será melhor por aqui! A despeito de toda a história do Brasil e de tudo que negros já sofreram por esse país, o que eu não consigo entender ainda é o ódio gratuito que as pessoas despejam uma às outras, de graça! Mas não estamos aqui para falar sobre isso, estamos aqui para falar de racismo. Se a dúvida de vocês é se eu acho que foi ou não racismo o que aconteceu nesse episódio de carnaval, eu vou começar fazendo umas perguntinhas aleatórias para você: 1) Seu filho deixa de ser uma peste, porque você ama muito ele? Mesmo todo mundo, que lida com ele, falando que é? 2) Se você fosse ou se é negro, colocaria uma fantasia de macaco para ir numa festa a fantasia? Estaria feliz com ela? 3) Vamos supor que você é uma criança negra na fase estudantil, você já pensou em mostrar sua foto do carnaval vestido de macaco para os coleguinhas da sua sala de aula? Essa seria a sua história de volta das férias? 4) Por que as pessoas se xingam de macacos? Bom, ok 4 perguntinhas só para deixar no ar uma crítica que eu citei no começo do episódio, pois você sabe a resposta de todas as perguntas, no fundo do seu coração e da sua consciência você sabe a resposta de todas elas, mas se por algum acaso você ainda resiste em responder da forma certa, essa é a prova, como já dito, de que o racismo já venceu no Brasil. Infelizmente, racismo é uma daquelas coisas não ditas, mas que todos sabem, não explicada, pois está na história, não declaradas, porque é crime, mas rotineira, sem que haja nenhuma punição para os que praticam. Aí você vai me perguntar: Mas vestir um menino de macaco é racimo? Não, vestir não é, mas infelizmente pessoas usam o símbolo do macaco para falar de negros de forma pejorativa, o que faz com que isso se torne um preconceito contra pessoas negras, que por sua vez SIM é racismo. Ou seja, aquela coisa de que as pessoas não podem falar que existe racismo no Brasil, faz com que esse tipo de coisa aconteça e exista pessoas que defendam que a família poderia fantasiar o menino do que ela quisesse, mas se esquecem do fato que justamente a fantasia que colocaram para ele, representa o preconceito contra os negros no Brasil. Preconceito esse, que existe SIM e se não existisse, o goleiro daquele time de futebol, não teria problema algum com alguém berrando na arquibancada e chamando ele de macaco, não é mesmo? Eu acredito que essa família realmente ame seu filho adotado, porém eu acho que foram muito infelizes ao usar a fantasia que usaram, justamente porque esse é um preconceito velado que permite que aconteça coisas desse tipo e muito piores nas empresas, nos restaurantes, nos espaços públicos e em todo tipo de lugar contra os negros: (pensamento) já que não existe racismo no Brasil, então isso não deveria ser tratado como racismo, ele não deveria ficar ofendido de ter sido chamado de macaco, muito menos de eu ter colocado uma fantasia de macaco nele, talvez até se orgulhe no futuro de ter “representado” sua cor desfilando pelas ruas. Se você é o tipo de pessoa que apóia que a família não tem culpa nenhuma e que não fizeram nada de mais, repense o fato do ponto de vista do menino, lembre-se que quem define o que é racismo é quem sofre e não o que pratica, releia as perguntas que eu te fiz novamente, repense como você se define com relação aos negros, pois mesmo que inconsciente, não te culpo, mas tente prestar atenção, você pode ter atitudes racistas (sabe aquele: “segunda é dia de branco!”, então), ou dependendo do nível, até mesmo ser um. Não é porque a família ama seu filho que o assunto racismo deixa de existir nesse acontecimento, fazendo o tema cai em descrédito, novamente. Lembra daqueles convites que eu te fiz? Esse é o último, pra você refletir…

Você pode ter lido até aqui e agora está se debatendo na parede de tanta raiva de mim, querendo me dizer todos os xingamentos possíveis e que eu estou errado nos pensamentos / argumentos que citei por aqui… Se isso aconteceu, bom, me desculpa, mas eu vou pedir pra você ler de novo, de cabeça fria e aberta, mas lembre-se que eu não estava aqui para dizer o que você queria ouvir, se quiser, pode expor sua opinião nos comentários também. Mas se você leu até aqui e entendeu meu ponto de vista, eu estou muito feliz com você e se me prometer que na próxima vez vai olhar friamente pra esse tipo de coisa e vai discutir sobre os temas relevantes, aí meu amigo, aí sim meu amigo, eu realmente estou feliz por você, por mim, pelo planeta Terra e pelo bom convívio em sociedade que teremos daqui pra frente: meu IMENSO OBRIGADO!

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