Lettera di compleanno

Rio de janeiro, 02 de novembro de 2016

Giulietta,

Confesso que não é fácil escrever esta carta, mas tento. Os sentimentos, lembranças, odores de lugares; nossa cama bagunçada e ainda quente, trocas de olhares; e palavras ao vento, vem e vão em forma de sonho ou distração cotidiana enquanto escrevo. Me vem a mente os incríveis momentos em que tentávamos trazer algum sentido a nossa passagem por este bizarro planeta, em breves fugas por determinados lugares da Europa. Acho que nunca nos demos conta disso, mas um prazer que costumávamos dividir era aquele singelo momento em que nos sentávamos em alguma colina, ou alguma fortificação medieval para contemplar o mistério das estrelas. Foram muitas ocasiões similares; e não creio que tenha sido planejado conscientemente. Algo nos atraia para algum local que pudesse permitir esse pequeno grande prazer: observar o universo. Sentíamos alguma nobreza nessa contemplação estelar; algo nos colocava acima dos pormenores mundanos. Ali, naquele religioso momento de contemplação, éramos como sacerdotes incompreendidos num mundo habitado pela insensibilidade; apenas as estrelas nos entendiam… Numa noite qualquer estávamos sentados num deck de madeira sob o calmo mar a contemplar o céu, tendo as nossas costas a muralha medieval da cidade de Faro. Em outro momento bebíamos nosso vinho tinto, a contemplar o infinito acima de nossas cabeças, em meio a uma das pequenas torres que existem na cidade velha de Alguero, sob o mar, a sentir o quebrar suave de sua onda, calma, e o mistério de um quase silêncio que só se conhece no mediterrâneo. Em outra ocasião estávamos a fumar e refletir a existência, no terraço do auberge du amour, em Marrakech, a sentir o vento calmo e quente que vem do deserto. Momentos que se perderam na poeira do tempo, mas permanecerão na memória dos que ainda vivem; pena que a vida é tão breve; e por isso talvez seja preciso escrever.

De todas essas memórias, por mais estranho que possa parecer dizer isso, as que me recordo com carinho especial são aquelas que me remetem aos nossos exílios voluntários na Blackhall Place, 54, e na mansarda da North Circular Road. A mansarda, em especial, talvez tenha ganho um espaço de deferência em meu coração. Em meu imaginário peter — pânico aquele lugar era e sempre será o nosso velho barquinho à deriva de tudo, perdido pelos mares do atlântico. Por outro viés absurdo — imaginário, talvez não se tratasse de um mero barquinho à deriva, mas de uma grande e velha embarcação cheia de fugitivos malucos; cujo comandante talvez fosse o nosso vizinho drogado Charlie, ou mesmo nosso adorável vizinho de janela e comedor de batatas e chicken wings Noely. Cada quarto do velho casarão seria uma das cabines dessa nave perdida em meio às tormentas marítimas do norte do mundo. Até poderia dizer que todas aquelas noites em que nos recolhíamos em nossa doce mansarda, foram as noites mais belas de toda a minha breve vida. A janelinha quadrada no teto; e o próprio teto do nosso minúsculo refúgio, remetiam sempre a esse nosso pequeno barco à deriva em alto — mar. À deriva de tudo que não era aquele íntimo universo paralelo em que nos escondíamos do mundo. Aquele mundo lá fora não cabia em nosso imenso universo de pequenas e adocicadas descobertas.

Me lembro bem daquela noite em que a chuva lá fora caía fortemente. Da pequena janela quadrada de nosso barco, não se via nada além da água batendo e da escuridão misteriosa de um mar revolto. Sim, era Cat Power quem estava cantando naquele momento. Já passava da meia — noite, o horário mágico do amor. Ouvíamos a chuva batendo por toda a nossa mansarda; ela cantava “Naked if you want”; e o seu perfume penetrava a minha existência. Por um momento você olhou para mim. Não esperava, estava distraído ouvindo a chuva. Confesso que a tristeza do seu olhar sempre me causou estranha impressão, nada que fosse ruim, mas o fundo dos seus olhos pareciam tão fundos que me faziam enxergar um universo repleto de constelações, e nessas constelações certamente haveriam planetas, e em algum desses planetas haveriam pessoas encolhidas embaixo de um cobertor quente; escondidas em suas pequenas mansardas a sentir a chuva forte que cai lá fora. Ou sentindo frio ao relento da noite… Aquela tristeza, portanto, era algo compreensível. Alguma força mágica, da qual não tenho a menor capacidade de decifrar a origem, te deu o dom de compreender as dores desse mundo. Você entendia todo o sofrimento do mundo e olhava resignada para tudo; como uma anônima alma bergamasca, que triste, saia da toca nas noites frias de inverno apenas para sentir o ar puro da montanha; e escutava Franco Battiato enquanto dirigia sua velha fiat em direção a lugar algum.

Doce bergamasca, caminho neste exato momento; não importa aonde, apenas caminho. Poderia estar com meu velho casaco azul da Dunnes indo comprar alguma comida gordurosa no Bruno´s takeaway para você comer. É, o clima daquele lugar era realmente pesado; a comida também, mas confesso que sinto saudades de caminhar pela North Circular Road, virar na Oxmantown e sentir aquele cheiro de óleo velho exalado do velho fast food. Saberia que ao retornar você estaria me esperando… É bom saber que alguém está esperando a gente. Até um certo momento de minha vida isso não era importante, mas saiba que naquele tempo em que eramos um só, eu sempre caminhava com o velho casaco azul de todos os dias na expectativa de te encontrar. Talvez você nunca tenha realmente acreditado nisso, mas a minha existência já não parecia fazer sentido se ficasse mais de quatro horas longe de você, e o que realmente me empurrava para seguir em frente era a expectativa do nosso encontro. Pra ser sincero, devo confessar, havia em mim, mesmo que oculto no inconsciente, a expectativa do meteoro. Não posso mais negar a você este segredo. O meteoro derradeiro é algo que me persegue quase como uma obsessão; e saiba, você foi a pessoa ideal para estar ao meu lado quando este momento mágico ocorresse; talvez ainda seja, sei lá…

Dia 16 é seu aniversário. Talvez, quando esta carta chegar as suas mãos, já seja tarde, mas acho que isso não importa tanto. O que importa é que saiba que existe alguém que se importa com você. Não sei o que será de minha vida para os próximos anos; nem mesmo se poderei salvar a mim mesmo; nem mesmo se estarei aqui nesse planeta, mas saiba que pelo menos em espírito, estarei desejando a você tudo de maravilhoso que ainda resta nesse mundo. Desejo banhos de mar e noites estreladas de verão, ao som de bandolins. Desejo a doce vida. E que nunca se esqueça de quem você é; e de onde você veio. Nunca se esqueça de Vall´alta. A sua pureza vem daquele lugar; e a beleza está ai, dentro de você.

Acho que ainda te amo

Com sinceridade,

Seu

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