Partida

Trem a caminho de Milão, 30 de agosto de 2016

Querida Giulietta,

Desculpe se o que escrevo possa parecer - lhe confuso…A letra trêmula tem seus motivos. Lá atrás falhei tanto que nossos sonhos se esvaíram na poeira da amarga realidade, e a culpa dói. Tanto, tanto…Como dói. Olho pela janela e ainda é verão, lá fora, ainda é verão. Lá fora, tudo passa rápido pelos meus olhos. Passam os casarios altos com seus tetos em formato adequado ao escorrimento da neve; as janelas italianas, não tão largas, mas um tanto compridas; os edifícios residenciais populares próximos a estação; suas pequenas varandas entulhadas de quinquilharias; uma ou outra bicicleta, roupas penduradas, e um banquinho para fumar até a chegada do inverno, onde todos se recolhem. O trem balança e as coisas aqui por dentro não se encontram assim tão serenas. Me sinto como aquele marinheiro que sobrevive de um naufrágio, e a única coisa que a ele fazia sentido, o pequeno barco pesqueiro, um tanto corroído pelo tempo; com as velas quase rasgadas, se perdeu. No trágico destino se perdeu. Era tudo que tinha. Tudo que amava. O que resta é um coração partido, mais um coração partido — já são tantos espalhados por esse miserável planeta -, e a desolada certeza de alguém que se encontra perdido.

Acabamos de nos despedir, o dia ainda nem acabou, mas dentro de mim já está tudo acabado. Um sentimento estranho de desolação que jamais senti antes me consome; tão estranho que tampouco se assemelha àquilo que chamam tristeza. Tão estranho como a dor que se sente no velório de alguém que se tem o mais profundo dos sentimentos. A dor das despedidas incompletas, onde algo que se gostaria ter dito não foi dito porque quando pensou-se dizer já não havia como dizer. Já não havia a quem dizer. Passou. Desilusão, é isso? Me responda, por favor…É isso…? Você não está mais aqui…Sim, Acabou. Talvez não a veja nunca mais, e esse trem mais parece um comboio sem volta para os condenados ao ostracismo. Acabou. Tudo. Acabaram as respostas, as doces respostas de alguém que humildemente sempre me dizia que não sabia a resposta, e então, com seu jeitinho bergamasco — adocicado (se é que isso é possível) oferecia como resposta um copo de água quente com gotinhas amorosas de limão siciliano. Acabaram as noites insones de reflexão sobre um porvir que a nós dois pouco importava. Como era belo o nosso estranho ritual sagrado das noites de frio, quando depois de escolhermos a música, você acendia o cigarro e eu abria a garrafa do vinho tinto mais barato. Pensávamos juntos em como faríamos para que a nossa fuga se eternizasse. Por vezes não dizíamos nada a respeito, mas estávamos sempre conectados a sintonia do nosso exílio voluntário. Sabíamos bem o que queríamos. Havia um significado cósmico ainda não decifrado em tudo aquilo. Sabíamos muito bem que não queríamos nada demais, apenas viajar pelo prazer de presenciar um pôr do sol diferente de qualquer outro que já tivéssemos visto antes, e acender um cigarro, e abrir a garrafa do vinho mais barato desse lugar, e no cair da noite, quando começasse a esfriar, juntaríamos os nossos pés na areia branca à espera das primeiras estrelas, que provavelmente viriam nos surpreender com alguma constelação desconhecida; e o ângulo geográfico daquele momento único — que talvez jamais se repetisse — nos encheria os olhos. Nos encheria o coração. E a vida então faria sentido por mais alguns instantes. Mas acabou. E que estranha sensação.

Sim, escrevo do trem que peguei às pressas na estação de Bergamo, rumo à Milão. Estou desolado. A dor da despedida foi demais, dessa vez foi demais pra mim. Meu corpo se arrastando pela estação até o binário, momentos após o derradeiro adeus, foi a pior sensação de toda a vida. Nas costas, a mochila pesada, a pesada cruz, e o arrastar de alguém que tinha pressa para não perder o trem. Naquele momento perder ou não o trem já não fazia diferença. Talvez se tivesse perdido, algo novo e inesperado poderia ter se desencadeado por uma hipotética conjuntura cósmica favorável desencadeada pelo ato imprudente. Foram tantos os atos imprudentes ao longo dessa caminhada insana que é a vida… Melhor não seria abdicar de uma vez por todas das convenções impostas pela sociedade e deixar o fluxo seguir por seu caminho natural? São tantos os que, assim como eu, sempre às pressas em não perder algo ou coisas como trens, algum dia se deparam com a triste constatação: não viveram. Ocuparam-se demais em não perder o trem ou coisas convencionadas por alguém que não eles mesmos, e assim esqueceram de escolher o rumo do próprio destino. Se viram velhos ao olhar no espelho. O trem que faria sentido passara antes, ou passaria minutos depois. Escolheram viver a vida que alguém escolheu por eles.

Minutos atrás houve aquilo que talvez tenha sido a nossa última despedida, daquelas em que o cheiro do perfume emana mais forte por saber-se o último sentido entre duas almas vivas neste sopro que é a vida. Suas lágrimas escorrendo junto as minhas; misturadas, é tudo que me resta neste instante de perda, e enquanto houver a memória viva e singular de alguém que conheceu as nuances do nobre sentimento, haverá lembranças sobre um amor verdadeiro, corações partidos, e bochechas meladas pelas lágrimas de despedida de alguém que acabou de partir. Num mundo dominado pela superficialidade e pelo rancor, fomos uma ilha perdida em meio ao oceano infinito. Fomos o que restava daqueles que ainda sentem o coração pulsar; deitados na areia a contemplar as estrelas e a pensar que não vale mais a pena o resto. Não vale mais a pena…

Minutos atrás…As horas ainda não passaram tanto assim, mas parece bem que já não te vejo a dez anos. Minutos atrás, e seu pequeno e velho Fiat parado próximo à estação de trem esperava o fim tão banal de uma história que começara tão mágica. Minutos atrás: tento preservar estes últimos momentos ao seu lado pois não quero esquecer a textura de sua pele; nem o cheiro, mas eles escapam, escapam…

Faltava pouco para o trem partir. Ainda haveria de caminhar uns cinco minutos entre o seu Fiat velho e a estação; cheio de utensílios reais e pesos cósmicos sustentados pelo corpo destroçado. Não esperava aquilo, não com toda aquela densidade. Até o momento pensava que a nossa despedida ocorreria como o exorcizar de uma relação que já não existia mais, pois havíamos passado juntos uma tranquila manhã de despedida, sem grandes dramas ou complexidades a respeito do que seria de nós daqui pra frente; apenas um prosaico e triste café da manhã em uma boa pasticceria de Gazzaniga. Assim que paramos o carro próximo a estação, seu gesto gentil em me ajudar a retirar as malas pesadas do bagageiro, denotavam alguém, que mesmo de maneira inconsciente, tentava demonstrar alguma força e até uma certa determinação de que realmente já não existia mais nada entre nós; e estaria tudo resolvido ali, portanto. Me lembro bem agora; e creio que essa imagem permanecerá por muito tempo; para sempre talvez. O carro parado em local não permitido, o que necessariamente nos obrigaria a uma despedida rápida, ou mesmo protocolar; e as malas, ou qualquer coisa material que me pertencesse por sobre o asfalto da calçada. Já não havia mais nada a fazer. Havia um pequeno Fiat velho parado e algumas malas sobre um chão de cimento. Alguém estava para partir; e já não havia muita coisa a dizer além do triste Adeus. Naquele momento percebi que você evitava me olhar diretamente; então me olhou e desabou. Acho que nunca nos abraçamos com tanta força. Sentia suas lágrimas escorrendo por sobre as minhas; que escorriam ainda mais. O trem partiria em cinco minutos. Sabia disso, e preferia tê-lo perdido; e se o perdesse, provavelmente perderia também o voo. Como foi difícil desvencilhar daquele abraço. Como foi difícil…Mas repentinamente você me largou; disse com a voz embargada, mas firme, que eu deveria ir. Atordoado, senti o peso daquilo que chamam rejeição. Em meio aos seus braços nada mais importava. A única coisa que me interessava era continuar sentindo a força do nosso amor, mas você me largou, e a realidade voltou a cair sobre minha cabeça; então nos olhamos com aqueles olhos inchados de tanto chorar. Nos olhamos pela última vez…E aquele velho conhecido vento gélido que vem subindo pelo pulmão, e até o coração, tomou conta de tudo. Desviei o olhar; me abaixei pra colocar a mochila pesada e grande sobre as costas, e a mochila menor sobre o peito. Naquele momento precisava simular uma postura ereta, precisava fingir pra mim mesmo que teria forças pra caminhar com todo aquele peso até o binário de onde o trem partiria. Precisava não morrer naquele momento; queria morrer naquele momento… Então, já iniciado o caminhar apressado em direção a estação, me virei para trás — precisava daquele último olhar, o olhar do afastamento, a derradeira despedida; mas você já manobrava o pequeno Fiat velho daquele seu jeito agitado e desengonçado; e me veio a estranha sensação de que a página de alguma história estava sendo virada ali. Me veio a imagem da morte.

Ciubi, posso chamá-la assim, pela última vez? Estes últimos poucos dias que passamos juntos em Vertova foram realmente agradáveis. Senti que toda e qualquer mágoa do passado deu lugar a um tipo de trégua, pois havia no ar a sensação da despedida iminente. Algo estava para morrer. Como se estivéssemos nos despedindo de alguém que agonizava, e que nesses últimos dias de vida merecesse uma trégua para que partisse em paz. Desde a aurora do amor, lá em Dublin, da noite em que nossos olhares se encontraram pela primeira vez, no hostel, aos nossos primeiros três meses de convivência, onde tudo parecia ser tão incerto e nebuloso; e com a atmosfera invernal viria a estranha impressão de que aquilo não duraria muito tempo; mas alguma força desconhecida de repente surgiu; nos uniu, e pelo contrário, nos tornou mais fortes, e seguimos um doce caminho; acho que nunca fui tão feliz; acho que foram os únicos momentos de felicidade genuína que conheci em vida… E assim me pareceram esses belos últimos dias de sol ao seu lado. Dias serenos e tristes…

Serei grato, eternamente grato, por um dia guiar-me pelos mistérios do seu bosque florido; presentear-me com o perfume da lealdade e da amizade verdadeira. Sempre. Ao seu lado experimentei de maneira real os frutos do amor que conta, sem máscaras ou subterfúgios, me foi permitido experimentar em vida o amor romântico para além da literatura; com todo seu amargor; com toda a sua doçura. Sim, eu sei… Acabou. Dói pensar. Dói tudo. Nunca uma viagem de trem foi tão triste como essa. Preferiria mil vezes estar ao seu lado viajando em seu pequeno Fiat velho para lugar algum, mas acabou. E a única coisa que posso fazer agora é aceitar o peso do luto e tentar viver; tentar esquecer, ou transformar a dor em lembrança triste, porém doce, como aquele velho filme caseiro gravado em Super 8 no ano de 1985. O que fica é sempre a imagem etérea, e a cada ano que passa ela se aparentará mais antiga, mas nem por isso distante, porque o amor é aquilo que une, e é por isso que as estrelas parecem tão próximas quando se acredita no infinito, e é por isso que levarei você dentro de mim. E quando me recordar dos momentos felizes ficarei triste por lembrar que tudo passa, mas ficarei feliz por ter vivido algo de belo ao seu lado.

Com profunda tristeza,

Seu

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