Desinformação — um pouco de história

Especialmente para aqueles que procuram entender melhor a realidade dos campos de batalha em que estamos inseridos, vamos dar continuidade ao conteúdo do tema desinformação desenvolvido no texto “Me engana que eu gosto”, publicado em <https://medium.com/@walterfelixcardosojunior/me-engana-que-eu-gosto-6d0043507cf3#.ia17u17om>.

Antes, porém, é bom lembrar que a desinformação é o nome técnico que se dá à “arte” de enganar alvos para alcançar um efeito determinado, seja ocultando ou distorcendo fatos e induzindo os adversários a erro de julgamento. Em sentido amplo, os artifícios de ludibriar fazem parte do dia-a-dia da maioria das pessoas, ora no ambiente de trabalho, ora nas ruas ou mesmo dentro do próprio lar, quando se valem de pretextos diversos habilmente construídos para tapear os outros e satisfazer interesses inconfessáveis. Há, até, quem diga que se não tivéssemos alguma mentira para esconder, a vida, como a conhecemos, se tornaria inviável.

Embora a desinformação seja, sob quaisquer circunstâncias, além de antiética, uma atividade incerta, as chances de se obter sucesso nessas empreitadas aumentam quando aplicados os princípios e técnicas que lhes são próprias.

Em seu conjunto, os elementos dessa química contribuem para a criação, no adversário, de uma falsa noção da realidade, destinada a surpreendê-lo. Tais princípios, as técnicas, os preceitos de segurança e os demais aspectos danosos da desinformação tornam-se mais nítidos quando observados através da análise de casos reais.

Neste singelo texto, procuramos fugir ao “lugar comum” em operações de desinformação, evitando aludir à absolutamente real e bem sucedida Operação Mincemeat, narrada no best-seller de Ewen Montagu — O Homem Que Nunca Existiu (BIBLIEX — 1978) — em que os aliados lograram enganar ao alto-comando alemão quanto ao verdadeiro local do desembarque das suas tropas no Velho Continente, fato que se refletiu no desenrolar do restante da II Guerra Mundial (1939–1945), em seu teatro de operações ocidental.

Abordaremos, a seguir, dois fatos históricos, ricos de ensinamentos ligados ao tema. O primeiro, ocorrido na Antigüidade, protagonizado por Alexandre, rei dos macedônios, contra o rei indiano Poro, cerca de trezentos anos antes de Cristo. O segundo, extraído da guerra árabe-israelense de 1973.

Alexandre e a batalha contra o rei Poro

Dando prosseguimento à sua marcha pelo interior da antiga Índia, com o intuito de submeter mais esse povo, Alexandre e seu exército de macedônios estancaram, às margens do Rio Hidaspe, diante das forças do rei Poro.

Segundo relatos de Quinto Cúrcio, historiador romano, Poro tinha mais de dois metros de altura. Seu tórax era duas vezes mais largo que o de qualquer homem normal. Sua armadura era toda de ouro e prata e, nos combates, montava um elefante enorme e perfeitamente ensinado: “majestoso e horrível ao mesmo tempo”, di-lo Quinto Cúrcio.

O rei indiano, resolvido a impedir a passagem de Alexandre, acampara na margem oposta, com um exército de trinta mil infantes armados de longos arcos e pesadas setas, trezentos carros de guerra e oitenta elefantes.

O Hidaspe era um rio largo, profundo, de forte correnteza, não vadeável, e semeado de rochedos, como se podia conjecturar pela espuma das águas e pelo barulho que faziam. A dificuldade de passagem, e a vista da margem oposta, ocupada por grande multidão, coberta de carros, cavalos e elefantes, atemorizava de alguma forma os macedônios. Parecia-lhes impossível, com os fracos batéis de que dispunham, vencer a impetuosidade das águas, e dificílimo seria abordar a margem oposta, se conseguissem vencer o primeiro obstáculo.

Alexandre logo compreendeu que era preciso recorrer a um estratagema que distraísse a atenção do inimigo. Dessa forma, reuniu-se com seus generais, para traçar o plano de ataque. Entre as diversas ilhas do rio, via-se uma maior, coberta de mato alto e que lhe pareceu apropriada ao seu plano. Aproveitou a cobertura natural oferecida pela ilha e fez dissimular, no terreno da margem amiga, a sua Infantaria. No intuito de distrair o inimigo desse ponto, ordenou ao general Ptolomeu que, à frente de toda a cavalaria, se afastasse daquela ilha, simulando, por suas manobras, pretender passar o rio em ponto distante. Em complemento, orientou a Ptolomeu que desencadeasse sucessivas fintas de ultrapassagem daquele curso d’água-obstáculo, levando a cavalaria até o meio do rio e fazendo-a retornar, diante do inimigo, com o intuito de frustrar a sua permanente expectativa.

Durante alguns dias, Ptolomeu cumpriu as instruções de Alexandre, de modo que Poro acabou por concentrar toda a sua atenção para aquele lado da frente de batalha. Contudo, o estado de prontidão dos indianos ficou comprometido pela dúvida criada com a marcha da cavalaria macedônica.

Alexandre, por sua vez, mandou armar a tenda de comando nesse ponto, bem defronte de Poro e de seu exército. Em torno dela, estendeu a guarda real, com todo o aparato que costumava cercar-se. Ainda mais, colocou um sósia em seu lugar, vestido em trajes reais, para que o inimigo se persuadisse de que o rei, em pessoa, ali estava acampado, e que não cogitava passar o rio.

Alexandre já estava postado com a falange e tudo pronto para a travessia, quando rebentou uma tempestade medonha, de relâmpagos e trovões, seguidos de chuva torrencial. A escuridão da noite foi tão completa que ninguém enxergava um palmo diante de si. O rei, porém, ao contrário de todos, entendendo que essa situação favorecia-lhe as intenções, deu sinal de embarque, dirigindo-se como todos para a margem oposta, onde não encontraram viva alma. Distraído pelas manobras de Ptolomeu, tinha Poro abandonado esse ponto.

Assim que chegaram à margem inimiga, os soldados receberam instruções para marcharem, por companhias, em direção às forças de Poro. Nessa ocasião, Poro teve notícia de que os macedônios tinham passado o rio, e se aproximavam de suas posições. A princípio, duvidou, e, como sempre é fácil crer no que se deseja (Princípio do Interesse do Alvo), convenceu-se de que não eram os macedônios, mas, sim, outras tropas aliadas que vinham em seu auxílio, conforme havia sido combinado anteriormente.

Essa ilusão, porém, durou pouco. Seu irmão Magés, que comandava as forças dispostas em seu flanco direito, fora rapidamente surpreendido e destruído pelos macedônios. Depois de algum tempo de renhido combate, os elefantes, crivados de ferimentos, enfraquecidos pela perda de sangue, e loucos de dores e indomáveis, lançaram por terra amigos e inimigos, esmagando-os por debaixo das patas, até que, afinal, tomados de medo, foram tocados para fora do local de combate.

Poro, vendo-se quase abandonado, não teve condições de continuar combatendo. Vítima da desinformação planejada por Alexandre, saiu derrotado e ferido do campo de batalha.

A Guerra do YOM KIPPUR (1973)

O ataque árabe na frente egípcia, sob a estória cobertura de mais um presumível “exercício militar”, provavelmente constituiu o ardil mais óbvio e bem-sucedido do plano árabe de guerra. Os principais órgãos de inteligência israelenses atribuíram a esse presumível exercício a maior parte dos indícios de ofensiva iminente verificados nas linhas egípcias, antes do dia 6 de outubro de 1973.

Exercícios reais haviam sido repetidos em abril e maio daquele ano, bem como no anterior, circunstância que estimulou a adequada desatenção israelense em outubro. A escolha dos dias santificados de YOM KIPPUR e RAMADAN — judeu e árabe, respectivamente — como data oportuna para o início das hostilidades, proporcionou a cobertura adicional.

Durante os seis meses anteriores à guerra, houve uma centralização dos planos estratégicos de dissimulação no Ministério da Guerra egípcio. Os egípcios basearam os seus trabalhos de desinformação em numerosos estudos que haviam procedido sobre o pensamento e a doutrina israelenses. Valeram-se da excessiva autoconfiança judia, sua fé na sempre crescente defasagem cultural e tecnológica entre Israel e os países árabes e sua convicção na incapacidade da liderança árabe de tomar a decisão de atacar, sem mencionar a falta de unidade do mundo árabe. Por meses a fio, os árabes fizeram todo o possível para acentuar, aos olhos dos israelenses, a veracidade de suas convicções.

Desde o final da Guerra dos Seis Dias (1967), a mídia internacional fazia referência a qualquer estremecimento, real ou fictício, nas relações egípcio-soviéticas. As semanas que antecederam o conflito de 1973 não foram exceção. Mesmo a 6 de outubro, os relatórios da inteligência israelense registraram essa “animosidade” como sendo a principal causa responsável pela evacuação dos dependentes dos assessores soviéticos da Síria e do Egito. A retórica política do Presidente Egípcio, Anwar Sadat, imediatamente antes do ataque, foi caracteristicamente ambígua, mas o seu pronunciamento de 2 de setembro, perante a conferência dos Países Não Alinhados, advogou uma solução pacífica para a crise no Oriente Médio. Observe-se o contraste entre tal postura e a maciça ofensiva desfechada pelos árabes quatro dias mais tarde.

Outro aspecto deveras interessante das atividades árabes, no limiar da ofensiva de 6 de outubro, foi o seqüestro de três judeus soviéticos na Áustria, em 28 de setembro de 1973. O consentimento austríaco em fechar um centro de triagem de imigrantes judeus em troca dos reféns desencadeou uma torrente de cobertura jornalística em todo o mundo, o que fez com que a Primeira Ministra de Israel, Golda Meir, viajasse para aquele País, onde ficou retida em negociações até 4 de outubro, dois dias antes de ocorrer o ataque árabe.

O plano de desinformação tão bem concebido pelos egípcios fora elaborado com o auxílio de especialistas soviéticos, para ludibriar, não só os contendores israelenses, mas, também, os norte-americanos. Na prática, a operação desinformou aleatoriamente, inclusive as próprias forças armadas egípcias. Em um inquérito procedido entre os primeiros oito mil soldados aprisionados pelos israelenses, verificou-se que apenas um sabia, em 3 de outubro, que os preparativos eram mesmo para a guerra. Noventa e cinco por cento deles só obtiveram tais informações na manhã de 6 de outubro. Dos dezoito coronéis em poder dos israelenses, cinco tinham conhecimento, em 4 de outubro, de que haveria a guerra. Os treze restantes, somente foram informados na manhã do próprio dia. Um dos coronéis descreveu como, às 14 horas do dia 6, quando observava os aviões egípcios sobrevoarem o QG do 3o Exército de Campanha, em direção às linhas israelenses, voltara-se para o seu comandante imediato e perguntara: “Para que isso tudo?”. Obteve apenas como resposta: “Pergunte ao General.” Voltou-se, então, para o local em que esse oficial se encontrava e viu-o de joelhos, orando prostrado em direção a Meca. Essa foi a primeira indicação que teve da guerra.

Em síntese, durante os preparativos para o ataque, haviam numerosos indicadores que poderiam ter dado margem a maiores preocupações por parte dos israelenses, mas estavam mascarados, talvez em dobro, por outros que indicavam não haver motivos para alarme. As rotinas diárias no lado egípcio continuavam inalteradas. Os soldados continuavam a pescar e a vagar sem seus capacetes, ao longo do Canal de Suez, como se nada de diferente estivesse ocorrendo. Em muitos casos, o material produzido pela inteligência israelense descia a detalhes dos acontecimentos prestes a acontecer. Contudo, como fora previsto pelos egípcios, quando os fatos realmente aconteceram, foram ignorados.

Walter Felix Cardoso Júnior é Doutor em Aplicações, Planejamento e Estudos Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro (1990) e Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2003). wfelixcjr@gmail.com

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