Inteligência aplicada em Campanhas Eleitorais

Resumo: Em que pese a péssima imagem do parlamento, em decorrência de casos escabrosos sucessivos de corrupção envolvendo parlamentares, ainda assim vivenciamos a consolidação do regime democrático brasileiro. Sofrida com as consequências de tantos desmandos políticos, segmentos esclarecidos da sociedade vêm exigindo mais qualidade e honestidade dos candidatos a cargos eletivos. Não obstante a evolução da própria legislação eleitoral, o processo eletivo ainda é bastante permeável a candidatos comprometidos com ilicitudes. A questão ameaça diretamente as lideranças partidárias, posto que é imperioso fazer com mais rigor a seleção dos próprios candidatos. Nesse sentido também, emerge a necessidade de se investigarem e acompanharem, legalmente, a vida pregressa e a carreira dos políticos rivais, desenvolvendo projetos que envolvem a coleta de informações e a análise sistematizada de tudo que possa impactar as campanhas eleitorais, de forma a poderem os partidos políticos alcançar mais facilmente, e com menos desgastes, os chamados objetivos eleitorais, seja para melhorar o desempenho nas urnas, seja para garantir a própria sobrevivência como entidade formadora de opinião, diante da transitoriedade do poder. O presente ensaio enfatiza ideias para a solução dessa demanda, considerando que o emprego de ferramentas de Inteligência é adequado e eficaz no contexto dos conflitos político-partidários.

Considerações iniciais

Até bem pouco tempo, o emprego da Inteligência (como processo de reunir e analisar informações objetivando apoiar um processo de tomada de decisões estratégicas) configurava uma prerrogativa exclusiva das instituições governamentais. Entretanto, com o advento da globalização e o acirramento da competição em todos os níveis, outros tipos de organizações passaram a valer-se dessa categoria de metodologias de processamento informacional, em meio a uma conjuntura cada vez mais complicada.

Acompanhando essa tendência, e no quadro da democracia brasileira, as organizações partidárias têm demonstrado crescente interesse pelas práticas de Inteligência, especialmente as do modelo empresarial, objetivando maior eficácia na conquista de objetivos eleitorais, reduzindo a incerteza própria das campanhas e antecipando-se aos concorrentes. A utilização da Inteligência no ambiente político-partidário corrobora a sua aplicabilidade em atividades não dedicadas diretamente a uma lucratividade econômica. O que está em jogo aqui é o ato de vencer eleições.

Sobre Inteligência

Definimos Inteligência de Empresas como um processo sistemático de coleta, tratamento, análise e disseminação da informação sobre atividades dos concorrentes, tecnologias e tendências gerais dos negócios, visando subsidiar a tomada de decisão e atingir as metas estratégicas da organização.

De forma abrangente, vemos como natural a aplicabilidade da Inteligência na dimensão político-partidária, consistindo isso em um processo técnico e legal de tratar informações do ambiente eleitoral, possibilitando aos patrocinadores conhecer e antever situações vantajosas e desvantajosas para os candidatos em um quadro de permanente disputa de votos, garantindo a otimização de sua articulação no cenário político.

Considerando a transitoriedade do poder, própria dos regimes democráticos, o emprego metodizado das técnicas de Inteligência abre perspectivas valiosas para os políticos que querem respaldar as cíclicas empreitadas eleitorais com informações consistentes, de forma a que possam colocar as campanhas adversárias em cheque.

Existe um vasto campo de possibilidades para as ações de Inteligência em um contexto político-partidário, da ausculta dos anseios das comunidades, até o levantamento de dados para a elaboração de um bom plano de campanha, ou de governo.

Abordamos aqui as práticas éticas (legais) de reunir e processar informações sobre os candidatos adversários, permitindo um acompanhamento crítico e sistemático das ações desenvolvidas por eles e de tudo mais que possa refletir-se negativamente em suas campanhas eleitorais.

Antes de prosseguir, desejamos esclarecer que as idéias desenvolvidas no ensaio passam ao largo de quaisquer aspectos filosóficos e ideológicos.

Objetivo explícito

O objetivo principal da Inteligência é investigar metodológica e legalmente os concorrentes políticos e a sua estrutura humana de apoio. Interessa, pois, concentrar-se na obtenção de dados verificáveis dos rivais, com a finalidade explícita de utilizar esse material, devidamente processado, para aumentar as possibilidades eleitorais dos candidatos da organização patrocinadora. Obviamente, essa prática só é viável em regimes democráticos, como o nosso, com plena liberdade de imprensa para as mídias formal e eletrônica, e Justiça Eleitoral atuante.

Por conseguinte, o patrocinador precisa estar estruturado para viabilizar as investigações, para respaldar futuros movimentos, de forma a embaraçar a ascensão dos oponentes no cenário político.

Vantagens decorrentes

Questionar objetivamente a imagem de um concorrente político não é novidade. O acompanhamento crítico dos rivais sempre foi uma prática política disseminada, desde quando era realizada amadoristicamente. Contudo, agora isso pode ser feito de maneira mais eficiente, apoiados nas facilidades criadas pela tecnologia da informação e comunicação.

Atualmente, quando um candidato faz uma afirmação em público, ela pode ser checada imediatamente nas telas dos computadores. Em minutos, muitas vezes, um resultado comprometedor dessa avaliação pode ser enviado à imprensa, objetivando mostrar impropriedades apresentadas ou mesmo defendidas pelo oponente. Tudo aquilo que um candidato diz, ou faz, pode ser conferido e analisado rapidamente. Simplesmente, não há mais como se esconder no mundo político de nossos dias.

Tempos atrás, antes de se converter em uma prática profissionalizada, o acompanhamento das atividades dos concorrentes valia-se de mão-de-obra não especializada, caracterizada pela ação de parentes, amigos e colaboradores mais próximos dos candidatos. Porém, hoje já há organizações empresariais especializadas nesse tipo de trabalho (Marketing de Campanhas). Uma boa atuação dessas equipes pode levar campanhas pouco promissoras a resultados surpreendentes.

O emprego da Inteligência metodiza esse trabalho e força os políticos a abandonarem questões supérfluas direcionando suas campanhas para temas relevantes e de maior interesse para a sociedade democrática. Esse tipo de ação pode ser particularmente devastadora para os candidatos que ainda estejam ocupando cargos públicos, ao obrigá-los a responder por suas declarações e ações.

Embora o crescimento do jornalismo investigativo focado no ambiente político-eleitoral seja uma realidade eficaz, o produto da Inteligência pode contribuir para melhorar ainda mais a atividade dos jornalistas que cobrem as campanhas, pois as equipes partidárias de investigação fazem de tudo para lhes entregar material comprometedor sobre os adversários, e publicável, como deve ser enfatizado.

Embora também as mídias venham fazendo bem o seu papel social, não raro ocorrem excessos decorrentes da “liberdade de imprensa”, apanágio da irresponsabilidade editorial existente no setor de comunicação. Contudo, informações checadas e estatísticas corretamente elaboradas podem ser usadas para interromper a campanha de um candidato mal produzido e politicamente indesejável.

Nossa experiência diz que uma única acusação bem fundamentada pode ter o poder de liquidar a campanha política de um oponente, mesmo quando ele saiba proteger bem as suas deficiências e mazelas. Isso reforça a idéia de que o trabalho de Inteligência deve ser permanente, buscando sempre a sinergia com as mídias, que poderão amplificar e aprofundar o material urdido contra a campanha do concorrente.

Por esse motivo, as acusações mais poderosas devem ser disparadas nos momentos apropriados, tendo em vista o tipo de repercussão que se pretende. Assim, é necessário ter paciência e aguardar a hora certa de desfechar o ataque com capacidade real de desequilibrar o candidato político rival.

Questões éticas

Podemos afirmar que, antes de qualquer ponderação dos adeptos do politicamente correto, esta prática é um instrumento benéfico para a democracia, porque reduz as chances de sucesso de campanhas apoiadas em mentiras.

Mostrando aos eleitores quem é quem realmente, o trabalho da Inteligência tende a manter as pessoas que têm algo a esconder longe da contenda política. Nesse sentido, enfatizamos que isso tudo é muito útil não apenas no período de campanha eleitoral, mas, também, para acompanhar permanentemente o exercício da função pública de opositores que venham a ser eleitos.

Embora se saiba que a ética, nestas ações, estará sempre condicionada ao padrão moral das pessoas que empregam instrumentos desta natureza, e que os referenciais reguladores de uma campanha política são mais ou menos subjetivos, torna-se importante balizar o que é passível de ser realizado pela Inteligência, evitando transformar a campanha em um verdadeiro “vale tudo”.

Devemos ter em mente que investigações inescrupulosas costumam ser as maiores responsáveis pelo baixo nível de inúmeras campanhas políticas. Objetivando minimizar excessos, é conveniente respeitar as seguintes imposições éticas mínimas na execução do trabalho de Inteligência:

obter as informações desejadas de forma legal;

dentre as informações obtidas, considerar somente as verídicas e facilmente comprováveis; e

usar somente aquelas que forem relevantes para os objetivos da campanha política.

Atendendo, basicamente, essas condicionantes, o processo poderá ser desenvolvido de forma aberta, porém, discreta, já que esse empreendimento representa uma prática legal, com uma finalidade social evidente, plenamente justificável, qual seja a de desnudar os candidatos oponentes.

Enfoques temporais

Considerando a abrangência temporal de interesse em uma campanha política, a estratégia de ataque poderá assumir duas possibilidades básicas: estabelecer um enfoque retrospectivo (pesquisar sobre o passado do oponente); ou manter um enfoque prospectivo (estimar o que ele pretende fazer, se eleito).

O foco retrospectivo exige um trabalho braçal de investigações e que consiste em garimpar fatos do passado do oponente considerados desabonadores pelos eleitores, levando-os a fazer comparações que favoreçam o candidato-cliente.

Quanto ao foco prospectivo, isto exige elaboração mental mais sofisticada, com decomposição e análise das propostas e promessas do oponente, objetivando desacreditá-las ou depreciá-las diante dos eleitores. A exploração prospectiva das oportunidades encontradas pela equipe requer do orador ou do articulista de campanha qualidades especiais, que permitam reduzir a convicção do público-alvo no discurso do opositor, estimulando a dúvida sobre as suas afirmações.

Organizando informações

O trabalho de reunir informações sobre os candidatos oponentes deve permitir a catalogação do material pesquisado e processado de acordo com as seguintes categorias de interesses:

- Atuação dos candidatos-alvo durante a sua permanência nos cargos eletivos:

Performance demonstrada na elaboração de propostas e a sua posterior ratificação nas instâncias finais de votação em plenário;

Presença em votações importantes e freqüência nos locais de trabalho (como é ruim para um político a imagem de preguiçoso e de desinteressado das demandas dos seus eleitores);

Patrocínio ou co-patrocínio de propostas controvertidas;

Aproximação de grupos inspirados por valores questionáveis ante a opinião pública;

Ascensão política sem assunção de responsabilidades e de ter ocupado postos de liderança;

Disputa pela obtenção de verbas orçamentárias que beneficiem as suas bases;

Uso incorreto das franquias postais e telefônicas, bem como despesas injustificadas efetuadas com o pessoal auxiliar e assessores;

Gastos excessivos e injustificados em viagens oficiais; e

Balanço da situação patrimonial e de recursos antes e após o acesso à funções públicas e cargos eletivos.

- Dados oriundos da mídia

Políticos profissionais costumam lutar para chamar atenção nas mídias e, conseqüentemente, ficam expostos à sua observação direta. Assim, as gafes que cometem, bem como as freqüentes contradições, transformam-se em um “prato cheio” para ávidos jornalistas. Isso vale para os dois lados no confronto e saber minimizar essa perigosa exposição permanente requer experiência e sabedoria política.

- Detalhes de campanhas anteriores

As campanhas anteriores são fontes riquíssimas de informações utilizáveis contra o candidato oponente, principalmente naquilo que foi divulgado abertamente por ele próprio e que se tornou público. Trata-se de uma atividade simples a de verificar, item por item, se o candidato eleito cumpriu as propostas em que empenhou sua palavra durante a última campanha. Além disso, qualquer material utilizado contra os oponentes nas campanhas anteriores pode ser novamente processado e transformado em acusações renovadas ou continuadas.

- Dados sobre a carreira e os negócios (excetuando vida pública e pessoal)

Esse campo de pesquisa é muito vasto e pode ser subdividido em pelo menos três grupos de informações pertinentes: Superdimensionamento de currículo; Procedimentos profissionais ilegais; e Associações profissionais comprometedoras ou ausência de fidelidade partidária.

Tais dados podem ser obtidos com facilidade. No que tange aos currículos, que são disponibilizados pelos próprios candidatos adversários ou pelos seus assessores, as realizações pessoais e profissionais listadas podem ser facilmente confrontadas com informações fornecidas pelas organizações ali citadas. Quanto aos procedimentos profissionais ilegais e as associações profissionais comprometedoras, o ponto de partida para se realizar essa investigação pode estar nos arquivos da imprensa ou nos depoimentos de colaboradores, muitos deles desafetos do candidato oponente.

- Dados pessoais

Embora as informações pessoais negativas possam ser arrasadoras, sua obtenção e posterior utilização precisam ser feitas com bastante cautela, pois os eleitores, em geral, não gostam de presenciar golpes baixos. Ademais, é preciso considerar que o nível de tolerância dos cidadãos pode variar de uma região para outra. Em razão disso, é também conveniente avaliar corretamente os custos judiciais e pecuniários decorrentes de acusações infundadas, que podem não compensar o esperado lucro eleitoral. Disso ressalta a necessidade de conhecimento específico no campo do direito, ou de se dispor de assessoria qualificada para tal.

Considerações sobre terceirização

Existem várias maneiras de desenvolver etapas importantes do trabalho de Inteligência. Uma delas é contratar serviços especializados, como clippings, filmagens, etc. Terceirizar tarefas complexas tem como desvantagens principais o alto custo da prestação de serviço e a possibilidade de ocorrerem defecções e vazamentos sobre o trabalho da Inteligência, caracterizadamente por falta de lealdade dos contratados. Além do que, agentes mercenários costumam negligenciar quanto ao interesse e à criatividade, quanto menos.

Talvez a forma mais segura de resolver a questão do sigilo seja mesmo estruturar uma equipe própria e treiná-la com paciência, dotando-a adequadamente do que for necessário. Isso leva algum tempo e, obviamente, exige que os trabalhos sejam iniciados com bastante antecedência, e com previsão financeira. Acreditamos que uma equipe orgânica comprometida tenha mais chances de obter sucesso, mesmo porque, ao longo do tempo poderá se diferenciar pelo acúmulo de experiências ao ser engajada em campanhas sucessivas.

Como a informação é um produto de valor especial, que gera uma expectativa de poder para quem a detém, sugere-se que os profissionais terceirizados, nessa atividade, sejam sempre vistos com as devidas reservas. Corroborando esta colocação, é bom não esquecer que uma atuação imprópria (ilegal) ou estabanada pode comprometer toda uma campanha eleitoral do candidato-cliente.

Reunindo e processando insumos

Todos os candidatos são personalidades públicas e isto faz com que os limites de sua intimidade estejam recuados. Talvez assim, principalmente, obter e processar informações sobre eles possa não ser tão complicado quanto parece à primeira vista. O trabalho de reunir e de analisar uma expressiva massa de dados objetivos sobre os oponentes, e sobre tudo que possa estar apoiando a sua plataforma eleitoral, seja na ambiência profissional ou na particular, deve obedecer a uma metodologia apropriada de Inteligência.

Inicialmente, cumprindo um planejamento meticuloso, que define exatamente o que deve ser feito, são coletados dados e informações com foco perfeitamente definido, enquadrando os candidatos-alvo e os seus colaboradores mais próximos, utilizando, inicialmente, as fontes abertas, como a internet e todas as mídias jornalísticas (televisão; rádio; e publicações periódicas), e também insumos vindos das redes sociais, que logo precisam ser disponibilizados para o trabalho dos Analistas de Inteligência.

Devemos considerar que a coleta de tantos insumos informacionais costuma estar impactada pela falta de tempo e, às vezes, também de recursos financeiros, o que torna impraticável seguir na direção errada, fazendo buscas sem objetividade. Tendo esse cuidado, é adequado fazer consultas a órgãos públicos e bancos de dados on line, e programar entrevistas com interlocutores selecionados.

Os Analistas de Inteligência são responsáveis pelo processamento dos insumos reunidos, validando-os e cruzando-os com outros insumos que já são do seu conhecimento. A integração dos diversos conteúdos, como se fosse a montagem de um grande quebra-cabeça, é que permite chegarem a conclusões que facilitam a tomada de decisões táticas no contexto da estratégia de campanha. A validação continuada dos conteúdos reunidos é uma medida de segurança que garante credibilidade ao trabalho de Inteligência, que se obriga a deixar de lado tudo que não seja confiável.

Durante o processamento das informações, os Analistas elaboram hipóteses e buscam comprovar suposições, procurando chegar o mais próximo possível do real significado dos fatos e situações protagonizadas pelos candidatos-alvo e seus aliados. Os Analistas também desempenham papel relevante perante as redes de relacionamento, estruturando e controlando uma malha de colaboradores cuja missão principal é suprir as suas carências em termos de informações fechadas (aquelas que, em geral, não circulam pela Internet), procurando monitorar quem sabe o quê sobre os assuntos pesquisados, e como fazer para localizar fisicamente essas pessoas quando necessário.

As informações conclusivas, produto do trabalho de processamento, devem ser catalogadas em arquivos classificados por assunto, data, local de ocorrência, autoria das ações, etc, além de trazerem uma breve descrição dos fatos ocorridos. É necessário que todas essas informações sejam devidamente armazenadas respeitando a legislação existente. O que não for lançado nos bancos de dados, tende a perder-se com o tempo.

Sabendo que a direção de campanha não dispõe de tempo para debruçar-se mais profundamente sobre todas as demandas informacionais, particularmente no que diz respeito ao acompanhamento cerrado dos adversários políticos e das suas atividades, emerge a figura do Gestor de Inteligência, profissional experiente no processamento de informações, com perfeito conhecimento das possibilidades e deficiências da estrutura investigativa implantada. Mantendo relações de absoluta confiança com a direção partidária, ele personifica a ação de controle dos meios de Inteligência, além de animar os trabalhos de coleta e de análise.

Fazendo menção às questões éticas que impactam as ações da Inteligência Político-partidária, a esse Gestor caberá definir, claramente, o que pode e o que não pode ser feito em termos de reunião de informações, tanto pelo conforto intelectual daqueles que ali trabalham, como pela segurança e imagem do próprio sistema de Inteligência.

Portanto, torna-se evidente que não podem ser utilizados quaisquer procedimentos ilegais para obter informações. Sempre é bom lembrar que informação conseguida ilegalmente acaba sendo dispendiosa, perigosa, incompleta e limitada.

A Inteligência que enquadra uma campanha eleitoral não deve operar para levar seus patrocinadores a serem incompatibilizadas com a justiça. Assim, mesmo realizando um trabalho interno, a pesquisa e a análise de informações não estão livres das questões legais. Além disto, é preciso ter critério na elaboração de arquivos, respeitando a legislação existente.

Outro aspecto relevante a ser considerado diz respeito à legalidade das fontes de informação. Na mesma linha anterior de raciocínio, contatos externos não devem ser “alavancados” com manipulações ou pressões financeiras e morais. A recusa no fornecimento de informações deve ser respeitada. As restrições deontológicas aqui defendidas mostram claramente a necessidade de se ter um código de ética balizando as atividades de Inteligência desenvolvidas em uma campanha eleitoral. E isso deve ser divulgado abertamente aos eleitores.

Aspectos de segurança

A Inteligência Político-partidária pode potencializar a estratégia de campanha, especialmente quando é necessário partir para o ataque puro e simples. Assim, sob o viés da segurança, torna-se conveniente atentar para o fato de que a credibilidade das fontes de informação é tão importante quanto os conteúdos que elas possam entregar aos coletores. Por esta razão, os dados reunidos no calor da disputa precisam ser checados e rechecados antes de serem transformados em “munição” contra o concorrente eleitoral.

A veiculação de informações errôneas pode prejudicar seriamente a ascensão do candidato patrocinador. Além disso, antes de saírem utilizando fatos condenáveis dos adversários, é preciso saber se o candidato-cliente não estaria vulnerável a ataques do mesmo jaez. Nesse caso, discretamente, é conveniente saber sobre as suas impropriedades, exigindo isto conhecer detalhes da vida pessoal do candidato-cliente. Esse procedimento configura uma importante ação preventiva e visa a elaboração de uma estratégia de defesa.

Com esse cuidado, a Inteligência pode enxergar o candidato do patrocinador em sua verdadeira grandeza, reconhecendo mazelas, vulnerabilidades “esquecidas”, objetivando “consertar” deficiências e antecipar-se às ações da Inteligência adversária, apesar do constrangimento que isso possa causar, uma vez que se torna crucial posicionar antecipadamente defesas e justificativas convenientes, que permitam neutralizar, tanto quanto possível, os ataques que virão.

Ressaltamos aqui a importância de a equipe de Inteligência ser meticulosamente selecionada, em particular, com base em lealdade e discrição. Colaboradores considerados radicais e intempestivos, devem ser evitados. Os locais de trabalho, a própria organização da equipe e seu modus operandi, precisam ser revestidos de muita discrição.

Ideias conclusivas

A complexidade da democracia brasileira não tem como impedir a sua consolidação. Embora a legislação eleitoral brasileira venha evoluindo, sempre haverá dificuldades para os eleitores identificarem claramente os projetos eleitorais negativos, aqueles apoiados em mentiras e interesses exclusivistas.

Isso reforça a necessidade de as organizações partidárias comprometidas com os verdadeiros anseios populares de tratarem essa questão com mais profissionalismo, formando seus próprios candidatos à luz da ética, bem como se articulando legalmente para obstaculizar a ascensão dos opositores.

A prática continuada da Inteligência Político-partidária pode beneficiar a democracia porque reduz as chances de sucesso de candidatos com histórico comprometedor. Ela favorece mostrar aos eleitores quem é quem realmente no contexto de uma campanha, desestimulando aqueles que têm algo a esconder de entrarem na contenda política.

A Inteligência também ajuda a manter sob pressão os políticos vencedores no exercício da função pública. Por respeitar condicionantes legais, tais práticas podem ser desenvolvidas abertamente, pois têm uma finalidade social evidente, plenamente justificável, qual seja a de desnudar os concorrentes diante da sociedade.

Por tais motivos, principalmente, acreditamos que a Inteligência Político-partidária ainda terá um papel de destaque no cenário eleitoral. Em última análise, trata-se de uma arma importante em qualquer campanha, porque funciona.

O autor, Doutor em Aplicações, Planejamento e Estudos Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro (1990) e Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2003), é Diretor do Departamento de Segurança da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo — FIESP.

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