Me engana que eu gosto


Foi Sun-Tzu, o grande chefe militar chinês do Século V aC, quem primeiro disse que toda a arte da guerra está baseada no logro. Ele foi pontual quando explicou que: quando prontos para atacar, devemos parecer incapazes; quando ativos, nos mostremos inativos; quando estivermos perto, façamos o inimigo acreditar que estamos longe; quando longe, que estamos perto; e que é necessário simular desordem e oferecer iscas para atrair e depois derrotar o inimigo.

Como relatado ao longo da história, o pensamento voltado para iludir os rivais remonta à Antigüidade. A lenda do Cavalo de Tróia, descrita na “Ilíada”, de Homero, ou o legado do próprio Sun-Tzu, descrito na “A Arte da Guerra”, onde sugere, também, que “a suprema habilidade consiste em subjugar os inimigos sem ter que lutar”, demonstram o conhecimento de nossos antepassados sobre a prática de desinformar os oponentes.

A desinformação é o nome técnico que se dá à “arte” de enganar alvos para alcançar um efeito determinado, seja ocultando ou distorcendo fatos e induzindo os adversários a erro de julgamento. Em sentido amplo, os artifícios de ludibriar fazem parte do dia-a-dia da maioria das pessoas, ora no ambiente de trabalho, ora nas ruas ou mesmo dentro do próprio lar, quando se valem de pretextos diversos habilmente construídos para tapear os outros e satisfazer interesses inconfessáveis. Há até quem diga que se não tivéssemos alguma mentira para esconder, a vida, como a conhecemos, se tornaria inviável.

Em termos literários, a desinformação é costumeiramente abordada sob o ângulo da Guerra Fria, fase mais aguda do conflito Leste — Oeste surgido ao final da II Guerra Mundial (1939–1945) e que passou a se desfazer somente com a derrubada do Muro de Berlim, em 1989. Nesse período conturbado, os serviços secretos dos países envolvidos nessa guerra sem fronteiras, e seus satélites, se dedicavam a empreender complexas operações secretas onde manipulavam informações estratégicas com o propósito de desestabilização dos demais contendores. Considerando que estar bem informado sempre foi a condição primeira da sobrevivência, em qualquer ambiente, a desinformação, vista aqui como um instrumento eficaz da competição, deixou de ser apenas uma abstração entre o bem e o mal.

Apesar da sua abrangência na atualidade, a desinformação representa um tem vasto e ainda pouco conhecido das populações. Não há registro seguro de fontes abertas que permitam pesquisá-lo sistemática e objetivamente. Se existem, essas origens são protegidas do acesso indiscriminado. No mais das vezes o que se consegue são os relatos de casos históricos, verdadeiros ou não, romanceados em filmes ou publicados em livros especializados, contos de guerra ou ficção de espionagem. Por isso, a desinformação, em geral, não passa de uma trama melodramática para a maior parte das pessoas, que a percebem sob um risco remoto de alcançá-las, embora todo o descomunal potencial de manipulação a que possam estar submetidas diuturnamente.

Por sua vez, Clausewitz, o filósofo militar que codificou a experiência napoleônica, consagrou alguns preceitos sobre a desinformação em ambiente de guerra. Atualmente, esses ardis encontram-se incorporados, pelo menos, às doutrinas militares ocidentais, servindo como multiplicadores da capacidade operativa das Forças Armadas. Exemplo marcante e recente disso ocorreu durante a 1a Guerra do Golfo (1991), quando uma divisão de fuzileiros navais norte-americanos permaneceu embarcada nas proximidades da Foz do Rio Tigre ameaçando desembarcar no porto de exportação do petróleo iraquiano. O ditador Saddam Hussein mordeu a isca e a sua força principal, a chamada Guarda Republicana, manteve-se imobilizada na defesa do local, deixando livre o acesso ao deserto para o Exército dos EUA.

A rigor, a desinformação pode ser idealizada segundo um conjunto de medidas de defesa ativa, resultante de planejamento e processamento meticuloso de Analistas de Inteligência. Em sua elaboração, são utilizadas matérias falsas associadas a informações verdadeiras a fim de assegurar a condição de credibilidade necessária ao ardil. Inúmeras são as técnicas que podem ser utilizadas na maquinação da trama, sendo que o limite dessa articulação está na capacidade técnica e na imaginação daqueles que a produzem.

A desinformação se sustenta basicamente no interesse do rival em um determinado assunto ou fato. Para ser bem sucedida a operação de desinformação, o seu patrocinador precisa estimular ou cultivar adequadamente o interesse do alvo, alimentando-lhe um conjunto de suposições, falsas, que viabilizem a concretização do engodo. O desfecho da trama soe acontecer um retumbante sucesso, como um desastroso fracasso. Quando mal elaborada, é inevitável “voltar-se o feitiço contra o feiticeiro”.

A Internet, independente de suas virtudes e dos inestimáveis serviços que presta à humanidade, se transforou num labirinto de dados e informações duvidosas — uma mistura insossa de assuntos sérios com enganação barata, meias-verdades, exageros de toda ordem e forma, pontos de vista politicamente enviesados e, até, mentiras sinceras. Por assim dizer, a Internet enseja a oportunidade permanente para o vicejar da desinformação, por ser livre de controles mais rigorosos, o que favorece a clandestinidade e impunidade dos seus patrocinadores. A rede pode facilmente enfeitiçar gente que não está nem aí sobre a verdade dos fatos, mas que se interessa, e muito, apenas pelo efeito do que se publica na Web. Cabe lembrar aqui o que já dissera Goebbels, Ministro da Comunicação da Alemanha Nazista — quanto maior e mais repetida a mentira, mais ela sugestiona e contamina.

Com isso tudo acontecendo já dá para estimar que a Internet tenha se convertido na maior fonte global de desinformação, em qualquer nível, individual, corporativa, estatal ou transnacional. Com efeito, nunca se sabe quem ou o que realmente estará do outro lado da tela. Não obstante, e isso reforça o seu importante papel para a sociedade, a Internet vem sendo, também, o canal mais eficaz para a difusão do pensamento de quem diverge de “establishments governamentais hipócritas e ditatoriais”. Nesses casos, a mentira corre solta como uma entidade louca entre os dois lados, o dos algozes e o das vítimas. Vamos nos lembrar, também, que os governos, com seus cargos públicos da democracia, enfim, são lugares perfeitos para quem quer fraudar, roubar, corromper e enganar.

Sem dúvida, todas as verdades são sempre as primeiras vítimas das tragédias humanas. É difícil evocar uma verdade superior às demais. No entanto, seja qual for essa verdade, como ela tende a aflorar, mais cedo ou mais tarde, o fator tempo representa um elemento decisivo para a descoberta da desinformação. Tudo acontece de forma muito fugaz muito nos processos da desinformação.

Comunicações mentirosas, boatos, documentos falsos, propaganda enganosa e outros instrumentos informativos não ortodoxos são usualmente empregados na manipulação de fatos e situações. Para “plantar“ uma ”verdade” falsa, é necessário fazer com que ela vá ao encontro do interesse do alvo, favorecendo a materialização dos seus desejos e ilusões. Não obstante, não se pode saturá-lo com dados além da sua capacidade de percepção, julgamento e assimilação. Os inputs são oferecidos gradativamente, para que ele chegue às conclusões esperadas pelo patrocinador. Contudo, o excesso de dados falsos tende a despertar a sua desconfiança, fazendo desmoronar a urdidura.

Como a disputa de interesses faz parte da vida das pessoas, e a ética ainda está longe de coroar as relações humanas, o instrumento da desinformação apresenta grandes vantagens para a obtenção do fator surpresa, sendo isto fundamental na realização de manobras políticas, judiciais e comerciais, tanto quanto o é nas operações militares.

Analisando a ameaça da desinformação pela dimensão empresarial, é bom que haja gente nas organizações que utilizem parte do seu tempo estudando informações críticas que, muitas vezes, têm pouco a ver com o próprio negócio em si. Essa disponibilidade faculta a descoberta de certos ataques não materiais que os outros colaboradores, ocupados com as tarefas do dia-a-dia, não conseguem enxergar. Pois, normalmente, os sistemas convencionais de segurança não são estruturados para detectá-la e é muito difícil neutralizá-la antes que comece a produzir seus efeitos danosos. Somente especialistas focados podem, talvez, perceber esses tipos de ataques.

A desinformação, como processo estruturado, se destina a fazer com que alguém que toma decisões estratégicas acredite em determinadas situações ou fatos especialmente manipulados para fazê-lo agir de forma contrária aos seus próprios interesses, mas favoráveis ao desejo do patrocinador da operação. Em termos de segurança, acompanhar apenas atentamente as notícias e os inputs externos não é tudo; um conhecimento mais aprofundado sobre as reais intenções dos competidores é essencial para a detecção da desinformação. Combatê-la exige ter a capacidade de se pôr no lugar dos rivais em meio ao conflito de interesses.

Quando o objetivo da desinformação é a penetração nas estruturas de um rival, ela configura um poderoso instrumento aplicável à Engenharia Social. Assim, o uso planejado, dissimulado, deliberado e intencional da simpatia, da sedução, da influência, da mentira e da persuasão para atrair, convencer, enganar, manipular e obter a cooperação consciente ou involuntária de uma ou mais pessoas, tudo com a finalidade de conseguir facilidades, vantagens e, principalmente, acesso real ou potencial a dados, informações e situações de elevado interesse, de forma presencial, a distância ou uma combinação de ambas (Eugênio Moretzsohn), é um exemplo definitivo do que, mesmo estando encoberto, se pode fazer contra um adversário.

Muitas vezes, sustentando articulações políticas, a desinformação serve à estratégia de controle das massas, pela reafirmação sistemática de não-verdades. Os acontecimentos da dinâmica eleitoral mostram claramente que isso funciona. Trata-se de um conjunto de técnicas especialmente desenvolvidas, testadas e aprovadas, cujo dano colateral, na população, é impactante. E mais, o poder que isso garante é irresistível o bastante para atiçar e contar sempre com quem esteja disposto a matar e morrer por ele.

Ainda sobre o paradoxo da desinformação veiculada pela Internet, que alcança indiscriminadamente quase a totalidade da humanidade, basta acompanhar o desenvolvimento das novas gerações para constatar que quase todo mundo hoje já nasce e cresce com os recursos de manipulação de palavras e imagens nas mãos, passando a maior parte da própria existência em mundos virtuais. Talvez, por isso, as pessoas mais esclarecidas já tenham até se acostumado a desconfiar daquilo que seus olhos veem. Setores da própria comunidade científica internacional são céticos de que tudo pode ser fraudado. Muitos seres ainda perguntam se o homem pisou realmente na lua, sendo todas aquelas épicas imagens espaciais produtos de uma refinada e colossal operação de desinformação.

É estranho imaginar que um processo planejado e sistemático de criação de imagens feito para iludir bilhões de almas possa colocar em cheque a nossa certeza da consciência cognitiva em relação à realidade. O “eu vi, com meus próprios olhos” já foi um argumento válido para dar cabo de qualquer controvérsia. Agora, entretanto, não existem mais certezas definitivas: tudo pode ser um quase nada e o nada pode ser um quase tudo. Os totalitarismos impiedosos, bem como os genocídios do século 20, não poderiam ter ocorrido sem as falsas emoções, sem as simulações e dissimulações, sem as realidades criadas especialmente para uma humanidade despreparada para se defender.

Mas os tempos da desinformação suave ficaram para trás. Agora, na era em que se obtém o poder para nada que preste, na era em que se deseja mandar pelo ato de subjugar os demais, não se busca tão somente convencer, ainda que pela imposição sistematizada da mentira. O que conta mesmo nessa torres de marfim é ocupar e manter o poder, seja como for, não somente “para isto” ou “para aquilo”, mas, apenas, para detê-lo, apenas para desfrutá-lo, como uma condição vitalícia, sem ter que negociar com quem quer que seja, inclusive Deus.

Vivemos uma perigosa realidade em que as armas imateriais, como a desinformação, tomam o lugar das armas que de tão destrutivas não podem mais ser empregadas. Eis o momento em que as tiranias religiosas e ideológicas se impõem e se mantêm como se tudo não passasse de uma disputa entre rábulas, advogados desonestos, que se confrontam nos fóruns e tribunais internacionais, na qual o objetivo é equilibrar-se nas beiradas da lei dos homens, e mesmo para negar qualquer ideia de comprovação válida que possa interferir nos interesses do patrocinador, num universo material em que nada se tornou moralmente superior a nada, onde não há mais fatos irrefutáveis, só miríades de versões, e onde a realidade vem sendo constantemente recriada.

Como é que se faz e quanto custa tudo isso? Bem, ao que se vê, para quem lida produzindo essas coisas, pouco importa, principalmente quando o patrocinador dos ataques intangíveis perdeu a condição legal de competir. Nesse caso, pode lhe ser compensador valer-se de meios alternativos para levar a guerra ao nível da psicosfera, onde as armas são outras, de persuasão suave, mas não menos eficazes.

Os arsenais da informação envenenada atuam de forma invisível contra os alvos que sequer ficam sabendo que estão sendo abatidos antes mesmo de poderem lançar mão dos sistemas de defesa. Saber distinguir a informação da desinformação exige testar os dados, submetê-los à tortura, para chegar à verdade possível, valendo-se de observação direta, entrevistas e… sorte.

Embora para muitas pessoas seja mais fácil viver na ilusão do que na realidade, por equívoco e um curto espaço de tempo, posto que a falta de princípios e o interesse exclusivista não podem prevalecer indefinidamente, não tarda, a natureza volta a reposicionar as forças segundo a lógica do universo, quando, então, tudo se reajusta para um novo período. Seja como for, não podemos esquecer que as coisas concebidas pelo engano podem ser tão reais quanto as coisas concebidas pela razão e pela necessidade.

E, aos poucos, todos nós vamos chegando num ponto da vida em que não dá mais pra tapar o sol com a peneira; as coisas importantes, especialmente da política humana e do relacionamento social, precisam ser conversadas com franqueza, olhos nos olhos, colocando os pingos nos is. É curioso constatar como a cabeça das pessoas funciona de forma diferente. Contudo, dia vai chegar em que tudo ficará mais claro diante de nossos olhos, quando não será mais possível mentir e enganar impunemente, e os nossos sentimentos ficarão perfeitamente transparentes para qualquer um.

Considerando a penosa relação da desinformação com a ética, e com a finalidade de desfazer qualquer ideia de que o autor seja um vilão, deve ser esclarecido que a abordagem do tema foi eminentemente técnica, fruto de observações sobre a conduta humana, objetivando trazer mais luz sobre um assunto que costuma ser analisado de forma superficial.

Walter Felix Cardoso Júnior é Doutor em Aplicações, Planejamento e Estudos Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (1990) e Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2003).

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