CONSERVAR A RESISTÊNCIA

Preparação para a longa jornada

Não é novidade que uma manta obscura cubra o corpo de nosso tempo. Sob esta manta há uma fornalha a soprar vapores venenosos, convertidos no torpor que originou o verniz a assolar o pensamento em toda a província. A maioria dos que se arvoraram a ingressar nos Campus foi afetada gravemente. Não param de chegar notícias de que jovens de boa inteligência, sujeitos com alguma inclinação à sabedoria tenham sido castrados já em suas razões primeiras.

Bestializados nos contatos iniciais, linhas intermináveis de relativismo, marxismo diluído, lhes são ofertadas como ração nos primeiros ciclos de iniciação — em agrado ao rito e em cumprimento dos conteúdos programáticos. Logo estreiam como militantes do grotesco. A superficialidade campeia em mimetismos baratos e o jogo de aparências, continuamente estimulado, segue fazendo vítimas.

A “realidade” que a modernidade erigiu deformou e deforma muitos. Recordo estupefato de alguns ex-amigos. Hoje mal nos reconhecemos pelas ruas.

Após anos distante das iniquidades acadêmicas, operando sempre em outra frequência, sob outras regras, envolvido com publicações em pequenos biomas literários, vejo certas cancelas quebradas. Chega uma horda ofensiva, envernizada, em grande parte vinda desses Campus como nas invasões de zumbis das séries de TV (arquétipo muito valorizado nos últimos anos) alargando mais e mais a manta obscura.

As iniciativas individuas (e privadas) tornaram-se raras, pífias. Os chamados coletivos instalaram-se na forma do inquilinato nas repartições públicas de fomento à cultura. Controlam políticas e possuem um severo index de personae non gratae. Assim esganaram o pequeno mercado editorial do lugar. A estética das ocupações expulsou a lírica. Não há poesia. Só em casos raros de resistência. Mas há o chiste, o assalto, o embuste, o jargão publicitário envolto em arremedos de “vidas literárias” — com todas as mazelas que a humanidade encerra em suas feições mais bizarras.

A província é um hospício vazio. Todos estão soltos pelos pátios. Há os saudosos numa cidade órfã de gerações anteriores. E os poucos notáveis remanescentes encontram-se encastelados: ora no passado inacessível, ora em andares inalcançáveis.

Hoje, como um antigo rádio amador, meus interlocutores mais próximos estão autoexilados em Araripina e há também resistentes em Itabuna, Salvador, Rio de Janeiro, Espírito Santo, em São Paulo e Ponta Grossa no Paraná. Sinais dos tempos. A manta obscura também assola tais localidades. De todo modo, parto em breve em missão para encontrar alguns deles. Lanço mão de minha cruz e minha pena. A horda fará diligências, imporá perseguições deliberadas como pautas dos coletivos.

Seguirei resistente, rumando ao encontro dos meus.

Uma vez reunidos, nos reconhecerão por amarmos uns aos outros.