Um pouco sobre minha trajetória de professor substituto na UFRJ entre 2017 e 2019
Em 2017, eu recebi a notificação de que tinha sido aberto um concurso para professores substitutos na Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, local onde me formei no semestre de 2012B (mesmo que tenha somente colado grau em fevereiro do ano seguinte graças as greves da época). Naquele momento da minha vida, eu estava fechando os primeiros dois anos de doutorado no Observatório Nacional, situado no Rio de Janeiro, que tinha iniciado em 2015, e acabava de voltar da minha primeira experiência internacional, 6 meses no Laboratório da Lua e Planetas da Universidade do Arizona, LPL/UA, em Tucson, Estados Unidos. O projeto de doutorado parecia promissor, só que estava insatisfeito com o valor da bolsa de doutorado. Dentro das normas de agência de fomento no Brasil, CAPES e CNPq, você pode acumular a bolsa de doutorado desde que:
- seja trabalho diretamente vinculado a grande área de conhecimento do seu doutorado;
- seja aprovado pelo seu orientador e a coordenação do seu programa de pós-graduação.
O projeto que estou possui dois orientadores, um formal aqui no Brasil, no ON, e uma co-orientadora no LPL/UA. Os questionamentos de ambos foram:
- Você consegue lidar com ambos?
- Você sabe que isso pegará parte do seu tempo que deveria ser usado para o projeto de doutorado?

Bom, para quem sabe custo de vida do Rio de Janeiro, conhece que R$ 2200 na região central da cidade, ou nos bairros da Zona Norte mais próximos, só paga o aluguel (… e quando paga). O que costuma acontecer é que como aluno de pós, dividir apt com algum colega passa a ser uma necessidade.
Tirando o fato do aluguel, eu também tinha algumas dívidas de cartão de crédito. Muitas feitas no decorrer de diversas mudanças sucessivas, mal gerenciamento financeiro (eu errei) e nenhum suporte financeiro que poderia ter de ajuda (estava por minha conta e risco). Então, respondendo as perguntas dos meus orientadores:
- “Sim, eu sei disso.” E acabou comprovado pelo pedido de extensão de prazo. Agora em 2019–2020 estou no meu ano “extra”.
- Sim, eu sei que usaria um tempo que poderia estar usando no projeto. Porém. o dinheiro extra cairia muito bem para mim, além de possibilitar ter experiência de sala de aula. Algo que gostaria de ter.
Ok, fiz inscrição no concurso. Reli o material de notas feitas durantes as disciplinas de pós e graduação, alguns capítulos de conteúdo geral e …
Passei no concurso e assinei contrato.

As disciplinas que iria lecionar foram definidas principalmente pela disponibilidade horária de professores da UFRJ associado com o conteúdo que já tinha prática profissional. Isso possibilitou lecionar 4 disciplinas ao longo de 2017B até 2019A:
- Métodos Computacionais (ciclo básico, que consta como sendo Python para Ciência, algoritmos de cálculo numérico, R, SQL, LaTex e ferramentas online para Astronomia.
- Tratamento de Dados: criação de pipelines, famigerado ETL (Extract, Transform, Loaded), aplicados em dados astronômicos, Filtragem de sinal por Fourier e Wavelets, e uma básica Introdução a Machine Learning (principalmente Clustering)
- Astroestatística: Inferência Clássica e Bayesiana aplicada na Astronomia
- Tópicos de Ciências da Matemática e da Terra, módulo de astronomia, que abordaria de forma básica a apresentação das áreas de pesquisa astronômica para curso de tecnologia em ciência.
Em cada semestre apareceram grupos de alunos diferentes, bem motivados ou não, pensando já na pós ou querendo somente terminar a graduação e fazer outra coisa na vida. Foi a primeira experiência do "outro lado" com adultos (tive uma breve experiência com crianças durante o tempo no Kumon, na Abolição, zona norte do Rio). Não estava mais sendo avaliado, agora eu era o avaliador. Talvez pela minha passagem na faculdade ter sido conturbada em termos pessoais, mas não acadêmicos, eu conseguia perceber que muitos alunos tinham problemas que não significa a falta de compreensão. Problemas estes que também já passei em algum grau:
- excesso de carga horária com o tempo disponível (a maioria dos alunos que convivi): a pessoa gasta 4 horas no trânsito de casa para faculdade, 6 a 8 horas de aula diária, mais projeto de iniciação científica que tem contrato de 20 horas semanais por 400 reais, que dá 4 horas diárias em média: total de horas usadas por dia são de 16 horas, o que representa aproximadamente 70% do dia.
- Instabilidade familiar: (1) pessoa pode ter se mudado de outra cidade para Rio, muitas vezes a mudança é de estado, existe certa insegurança de estar sozinho. Essa insegurança vai passar, é algo que devemos superar enquanto crescemos. Mas não significa que seja fácil ou tranquila.(2) a família de fato é instável. Isto é um problema sério. A UFRJ tem um corpo de ajuda psicológica para alunos, mas muitos desconhecem. Ou quando sabem que existe e agendavam, o horário da consulta era no mesmo horário de aula.
- Instabilidade financeira: cursos como de astronomia são integrais (vide o que falei da carga horária ali em cima). Essa dedicação exclusiva corta o sonho de várias pessoas. Vindo de uma família pobre eu entendo perfeitamente isso. Algumas pessoas que fizeram faculdade comigo tinham além da bolsa de IC, também a bolsa de apoio que a UFRJ lança todo ano para ajudar pessoas que não poderiam manter custos de passagem ,ou de COMER NO BANDEJÃO. SIM! Existem pessoas na universidade pública que não tem como comer um prato de 2 reais (na época), mas continuam estudando. Essa superação não pode ser vista como o **excelente**, porque não é. Conquistar algo saindo de condições precárias tem um sentimento de conquista para quem faz, mas na prática mostra quão injusta é a nossa sociedade, porque são muito poucos que conseguem.
- Instabilidade emocional: vamos somar tudo acima e lembrar que ocorre AO MESMO TEMPO na cabeça de grupo de alunos que acabaram de sair da adolescência e começaram os 20 anos. Não interessa que seja de graduação ou pós-graduação. Esses problemas geram instabilidade emocional, criando problemas psicológicos e psiquiátricos. Alguns artigos (em inglês) podem ser vistos nos links abaixo:

Procure no Google, enquanto eu escrevo, a pesquisa retornou 41 milhões de resultados com esse problema sendo discutido. 41 milhões!!! Eu próprio sofri muito desse mal, tendo que fazer consultas com a psicóloga no final do meu terceiro ano de doutorado (o que ficará para outro texto). No meu caso, ser professor substituto me ajudou a lidar bastante com esses problemas. As aulas passaram a ser o momento que poderia esquecer dos outros problemas e falar do que gosta.
Mas só de problemas ???
Não, obviamente não. A grande maioria estava dedicada em sair das aulas com alguma ideia do que eles poderiam aplicar determinada técnica ou conhecimento. Acredito na dedicação de cada aluno para resolver os problemas propostos. Não peço que os alunos entendam sozinho os conteúdos, porque se fosse para isso não precisariam ter aulas, mas que eles desenvolvam as ideias dadas e venham questionar-me sobre os problemas abordados para aí sim, eles conseguirem concluir uma resposta final. Eu segui o que os meus orientadores desde a iniciação até o doutorado falavam sempre: “aulas de 1 hora expositiva e deixar o aluno trabalhar/pensar sobre o conteúdo”. Mas na UFRJ as aulas tem duração de 2 horas. Para isto, como as disciplinas eram em sua maioria com trabalhos práticos, aproveitava a ideia de projetos para trabalhar em sala, cobrindo um tempo expositivo e um “tempo prático”. Muitas vezes a aula significava ir de mesa em mesa de aluno desenvolvendo a ideia de determinado algoritmo ou discutindo o problema específico que um aluno teve (mas não outro). Programação era tema central de quase todas (exceto de Tópicos) das disciplinas que lecionei, e isto é muito sútil de pessoa a pessoa.
A turma de mais de 80 alunos
A turma de tópicos foi uma mudança de perspectiva de sala de aula. Até aquele momento, estava lecionando somente para turmas pequenas, de no máximo 10 pessoas. Mas no caso de Tópicos, uma disciplina para calouros, eram entre 80 e 90 alunos inscritos.
O prédio matriz do CCMN, o Centro de Ciência da Matemática e da Natureza da UFRJ, possui salas gigantescas para acomodar essas turmas. Tem palco, e muitas vezes as fileiras das bancadas dos alunos são em níveis, como um anfiteatro. A primeira vez que subi, eu fiquei tonto. Esse sentimento foi se perdendo conforme o semestre avançava.Foi uma turma difícil, por ser enorme e eu representar somente um módulo que representava 1/3 das aulas. Tiveram revoltas (sempre) com questões de prova, alunos excelentes, e outros nem tanto. No fim, a turma de 10 é uma representação mais simples do que via na turma de 80, e final do semestre chegou correndo tudo bem.
Alunos
Alguns foram marcantes. Tive alunos que se motivaram a fazer coisas novas, que não esperavam. Outros que se motivaram a tentar financiamento externo. Uma das alunas conseguiu ir num evento de Python nos Estados Unidos, e uma outra conseguiu bolsa de mestrado na Politécnica de Paris, participando com uma recomendação para ela. Participei da banca de TCC de outro aluno, que conseguiu doutorado direto. E vários outros participaram, em conversas sobre projetos novos, ou ideias novas para as disciplinas. Sempre que posso, gosto de ver como eles estão.
Espero que além de avançar na carreira, eu tenha ensinado que ser um pesquisador melhor é também ser um humano melhor.
Futuro:
Atualmente estou como cientista de dados na FGV IBRE, Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Avançando com meu conhecimento técnico. Ainda na luta final para obter título de doutorado. E com convites para frente. A minha motivação: fazer algo para melhorar qualidade da vida de outras pessoas.
No fim, a experiência foi ótima. Ela foi mais do que dinheiro (é claro que essa parte ajudou), mas foi experiência de empatia. Além de como preparar material decente que achava que tinha que ser dado quando era aluno (HAHAA).
Em um próximo texto, eu comento sobre o meu ano na FGV. Talvez escreva situação mais detalhada numa próxima vez.
