Por quê os mentirosos prosperam nos meios de comunicação de massa?

Tem sido muito comum ultimamente ficarmos indignados com mentiras nas mídias sociais. Novos canais, corporações, políticos e até mesmo respeitados editoriais estão se esforçando ao máximo para nos desorientar. E para frustração de muitos (inclusive a minha), escapam ilesos com essas atitudes. Mas como isso é possível?
Niklas Luhmann tem algumas respostas em seu livro de 1995 “A Realidade da Mídia de Massa”.
Primeiro, o que é mídia de massa?
Para Luhmann a característica chave para definir uma mídia de massa é: comunicação feita por poucos para a audiência de muitos. Ele ainda diz que outro aspecto importante é não haver muita interação entre os membros comunicadores e receptores.

É assim então que alguém pode imaginar esse sistema: como pessoas conectadas por um “ídolo”. O problema com esse modelo é que as coisas estão conectadas de modo muito “pessoal”. Nos faz pensar que se colocarmos a “pessoa certa” nas posições de interlocutores, tudo ficará bem. Mas ficamos surpreendidos de descobrir que mesmo alterando esses personagens, nada realmente muda. As regras básicas do sistema prevalecem.
Então vamos pensar de uma maneira um pouco diferente: ao invés de ficar obcecado por indivíduos Luhmann focou nas operações que formam e sustentam um sistema. A operação básica da mídia de massa são comunicações, e ela só é efetiva se a informação transmitida é captada por uma audiência que presta atenção nela.

Ele imaginou então a mídia de massa como cordas de comunicações em um formato de sistema.

A Construção da Realidade
Antes de fazer uma análise mais específica de comunicações, nós temos que ter em mente que Luhmann seguiu uma tradição construtivista. De maneira resumida, construtivistas assumem que nós não temos acesso direto ao mundo, ao invés disso, pegamos informações de nossos ambientes e construímos uma representação do mundo em nossas cabeças. E não é o mundo exterior que guia as nossas ações, mas sim, nossas representações internas deste mundo.

Isso significa que a condição física individual, suas experiências e motivações influenciam na maneira como você percebe e cria o mundo em que você vive. Todos nós percebemos uma versão diferente do mundo.
Luhmann aplica essa visão construtivista ao sistema de meios de comunicação de massa.
As mídias de massa não te apresentam o mundo, mas sim, a representação do mundo construído por eles.

As condições e circunstâncias individuais dos sistemas de comunicação moldam sua representação do mundo.
Como então essas mídias constroem a realidade deles? Vamos analisar três condições principais:
1. Tempo: Comunicações devem ocorrer regularmente.

Luhmann diz que o fato das “notícias” parecerem ocorrer com tanta regularidade para se encaixar perfeitamente na agenda de um jornal deveria fazer-nos desconfiar. O ritmo e a quantidade das notícias não são determinadas pela importância dos eventos, mas pela necessidade de prender a nossa atenção. Cada mídia e público possui um ritmo de frequência de postagem ideal.
2. Seleção: Comunicações devem ser conectáveis.

Os meios de comunicação de massa precisam decidir o que consideram valioso se comunicar e o que não. “Informação nova” deve se conectar a informações externas e ao que foi dito anteriormente. Se a mídia de massa simplesmente colhesse qualquer informação arbitrária, então não percebíamos um padrão em sua comunicação, e isso pareceria como um ruído confuso. Eles perderiam a nossa atenção.
Tópicos que são discutidos em longos períodos de tempo são ótimos para esse objetivo porque muitas comunicações podem ser conectadas sem problemas.
3. Irritação: As informações novas devem nos surpreender.

A mídia de massa deve nos manter no limite para garantir que prestemos atenção, portanto, é vital que as novas informações não apenas se conectem bem com as antigas mas também surpreendam, ou melhor, nos irritem.
Restrições como estas determinam fortemente como os meios de comunicação de massa nos apresentam o mundo. A parte complicada aqui é que eles apenas parecem falar sobre o mundo exterior, mas também seguem sua motivação essencial — o que é chamar nossa atenção e atender as suas próprias intenções. E essa motivação determina como eles falam sobre o mundo.

Vamos nos atentar aos círculos vazios (comunicações) nesta imagem. Elas representam mentiras e, como você pode ver, elas se encaixam perfeitamente nesse sistema. Vamos entender o motivo disso:
Mentiras
Claro, a distinção entre “verdade” e “mentira” não é tão simples. Há incontáveis variações e nuâncias em ambos. Mas para atender a explicação deste texto irei utilizar uma simples definição para mentiras: informações aos quais o comunicador reconhece como falsas mas as comunica mesmo assim.
Esse tipo de informação prospera em mídias de massa por diversas razões:
1. É fácil inventar mentiras.
Encontrar novos fatos ou transformar dados reais em informação enviesada é trabalho duro e imprevisível. Se você precisa entregar notícias em um tempo regular então inventá-las é um meio bem seguro de conseguir novidades.

2. Mentiras irritam.
Se você quer conseguir atenção, poucas coisas tem maior efetividade do que uma grande mentira. Na verdade, a mentira mais simples, cruel e óbvia é a que consegue maior engajamento emocional. Nós não conseguimos resistir em ficar ultrajados porque achamos difícil ignorar mentiras. É algo que sempre chama a nossa atenção.

3. Mentiras conectam-se bem com histórias.
Uma vez que a mídia de massa conta uma história ela consegue facilmente criar novas variáveis que se conectam a esta mentira: negação, posicionamento diferente, comentários — a lista é interminável. E uma “balela” ou “escândalo” é excelente para esses periódicos, porque continuamos prestando atenção, para saber o que acontecerá depois, como a história desenrolará.

Para desapontamento dos teóricos da conspiração, Luhmann foi muito claro em sua opinião que os meios de comunicação de massa não mentem necessariamente para atender somente um propósito definido. O problema, segundo ele, é que a diferença entre a verdade e a mentira não é essencial para a mídia de massa — diferentemente para sistemas científicos, onde a validação é vital.
A existência da mídia de massa não é baseada na verdade, mas na atenção. Felizmente existem indivíduos que respeitam orientações éticas apesar disso, mas essas orientações não são vitais para o sistema.
Então o que podemos fazer?
Vamos escolher bem a quem dar audiência.
Sua mente é um palco. É sua escolha deixar que mentirosos, palhaços e trolls tomem conta desse cenário ou que pessoas mais honestas devem ser as estrelas nele. Fiquemos atentos com a maneira como esses meios de comunicação esperam que nos comportemos com informações e evitemos assim um ultraje que nos aprisione nessa armadilha.
Mesmo que nós consigamos provar que uma informação era mentirosa, o mentiroso ainda vence — porque nós demos atenção. Vamos dar nossa audiência total para pessoas razoáveis e honestas, e lutemos para que essas histórias vençam e que se espalhem.
Não estou dizendo aqui que devemos aceitar mentiras, mas nós devemos reconhecer que elas são difundidas para confundir e distrair dos assuntos que importam.
No final, lembre-se apenas disso: os meios de comunicação de massa buscam atenção, não a verdade.
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